19 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Segurança na rede: um assunto das mulheres

É sempre assim: se a gente pesquisa qualquer coisinha no Google – um livro, umas passagens de viagem, uns sapatos –, logo aparece um zilhão de propagandas dessas mesmas coisas no nosso feed do Facebook. Coincidência? Nah. Não existem coincidências para empresas como o Facebook. Tudo é planejado, e nós, que nos achamos usuárias livres na web, acabamos nos tornando… produtos da própria web. Dizem que as plataformas “gratuitas” são as que mais nos usam porque, se não podem lucrar em cima de nosso dinheiro, lucram sobre algo ainda mais valioso: as nossas informações.

Quê?!?!?!

É isso mesmo, por mais absurdo que pareça à primeira vista. Para explorar mais a fundo essas questões, que são tão importantes nos dias de hoje, batemos um papo com a Patricia Cornils, integrante do Coletivo Actantes, que debate segurança e privacidade na web. Para Patricia, “defender o direito à privacidade é uma das brigas políticas importantes da atualidade”. A entrevista completa você encontra aqui embaixo!

Patricia Cornils.

Patricia Cornils.

Sabemos que é necessária a segurança na internet, para não termos nossas informações compartilhadas sem permissão. Mas precisamos nos proteger de quem?

Temos que nos proteger de nós mesmas, em primeiro lugar. No seguinte sentido: precisamos entender que as coisas publicadas na rede são compartilhadas e vistas por milhões de pessoas e que a rede não se “esquece”, ou seja, daqui a anos o que registramos ainda estará público ou, mesmo que nós compartilhemos informações, fotos, registros de nossa vida apenas com amigos e parentes, estará guardado em algum servidor, de alguma empresa ou governo. Assim, precisamos pensar no que compartilhar, no quanto nos expor e a quem. Precisamos também proteger o direito à privacidade. Este direito é individual, porque é fundamental para nossa formação, como pessoas — precisamos de espaços só nossos ou restritos a quem escolhemos. Para errar, para acertar, para viver sem a sensação de estarmos sendo vigiadas. E também é um direito coletivo, porque precisamos de privacidade para debater ideias, nos organizar livremente, atuar politicamente sem sermos vigiad@s.

Por que as empresas querem as informações dos usuários? Elas colhem as informações de todo mundo ou apenas de pessoas específicas?

As empresas querem as informações dos usuários para vendê-las a outras empresas que, por sua vez, tentam vender produtos e serviços a esses usuários, a partir das informações de seus perfis. Vender roupas, remédios, produtos de beleza. Vender, inclusive, um “modo de ser”. Também usam essas informações no momento de definir se alguém é merecedor de crédito bancário, se pode ter acesso a seguros mais baratos, é ou não qualificada — e comportada — para obter determinado trabalho. O perfil que as empresas traçam com os mais variados dados a nosso respeito que colocamos na rede não é controlado por nós, depois de publicado. Não há transparência sobre como essas informações são vendidas, para quem, para quê. Mesmo os termos de uso dos serviços que acessamos — e que raramente lemos, porque são imensos e escritos em juridiquês – não nos dão mecanismos para exercer esse controle. E sim, as informações são coletadas de todo mundo que usa a internet e os serviço de redes sociais.

Quais são os passos mais importantes para barrar o acesso indesejado?

Aprender a configurar as opções de privacidade de seu navegador. Usar buscadores como o duckduckgo, que ao contrário do Google não registra as buscas que você faz. No celular, optar por deixar ou não os serviços de localização ativados. Usar navegador anônimo, como o TOR, para que não se saiba de onde partem as informações que você compartilha na rede. Usar criptografia em seus chats e e-mails.

Agora, falando especificamente da criptografia: o que é necessário, basicamente, para conseguirmos nos comunicar através de linguagens criptografadas?

Existem programas como o PGP (que pode ser usado com os serviços de chat) e o Enigmail, para e-mails. Há vários coletivos, tanto feministas, como o MariaLab, quanto independentes de gênero, como a Actantes, que realizam oficinas para ensinar as pessoas a instalar e usar esses programas. E quanto mais gente usando, mais nos protegemos umas as outras.

Casos como o de Snowden e Chelsea Manning são exemplos conhecidos da luta pela segurança na internet e evidenciam a ligação direta desta pauta com a política – a própria presidenta Dilma era espionada pelo governo dos Estados Unidos! O que nós temos a ver com este jogo de forças?

Tudo. Porque, como expliquei lá em cima, defender o direito à privacidade é uma das brigas políticas importantes da atualidade. E como tod@s estamos o tempo todo na rede, essa briga diz respeito a tod@s nós. Desde o ponto de vista individual até o ponto de vista em que essas informações são usadas para oprimir outras pessoas, politicamente, ou fazer disputas entre países. Os cypherpunks, primeiros hackers que desenvolveram softwares livres de criptografia, têm um lema: Privacidade para os indivíduos, transparência para os poderosos. Para mim, essas duas frases mostram bem os dois lados da moeda: a necessidade de proteger as pessoas e a necessidade de expor os dados de governos (que são públicos) e de corporações (porque sua atividade interfere com interesses públicos). E o que está acontecendo hoje, na verdade, é o contrário: governos e corporações se esforçam para ficarem cada vez mais opacos, ao mesmo tempo em que têm acesso a todos os nossos dados.

Diante dos diários ataques machistas que expõem mulheres virtualmente, faz-se necessário encerrar esta entrevista com uma pergunta muito importante: a segurança na internet é um assunto feminista? Se sim, por quê?

Total. Porque as mulheres, assim como outros grupos de pessoas que lidam com preconceitos históricos (adolescentes, negros, homossexuais, transexuais, imigrantes), são mais atingidas quando uma foto, uma informação a seu respeito vazam. E são vítimas de atos de violência como porn revenge (vingança pornográfica), em que homens expõem, por vingança, imagens íntimas de mulheres com quem se relacionaram ou tentaram e não conseguiram se relacionar. A primeira vítima famosa de um vazamento em massa, por e-mails e publicações online, antes mesmo da existência das redes sociais, foi a Mônica Lewinski. Uma mulher. Vale a pena assistir ao que ela diz dessa experiência aqui:

Quer saber mais? Dá uma olhada nisso aqui:
Tem boi na linha
Coletivo Actantes
Marialab
Como combater a vigilância online
The Deep Lab Book
Oficina antivigilância

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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