28 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Isadora Maldonado
Seja malcriado, seja herói!

O malcriado nada mais é que a pessoa sem educação, sendo assim o mal-educado.

Mas, afinal, o que hoje representa uma boa educação?

Segundo o dicionário Aurélio, educação é o “processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social”. Já para René Hubert, filósofo teórico da área da pedagogia, “a educação é um conjunto de ações; voluntariamente por um ser humano em outro, normalmente de um adulto em um jovem. Essas ações pretendem alcançar um determinado propósito no indivíduo para que ele possa desempenhar alguma função nos contextos sociais, econômicos, culturais e políticos de uma sociedade”.

A partir dessas duas definições podemos resumir que: educação é sobre poder. Quem educa e quem educado são elementos de uma estrutura hierárquica. A educação considerada legítima é aquela vista como certa, a chamada “Boa Educação”, é a que predomina e, no nosso caso, não é a que liberta. O poder que alguém tem para dizer o que é o certo e o errado, o poder que alguém tem para traçar qual criação é melhor, é também o poder que está associado ao homem branco cis hétero, esse que é definido e mantido por algumas instituições, como o Estado e a Igreja; tudo cunhado pelo nosso passado colonizador, com consequências ainda muito atuais.

Os fundamentos que alicerçavam a educação, como parte da imposição para a sociedade leiga estava reorganizada sob os pilares da filosofia da Igreja e sob a ótica dos sacerdotes, uma vez que eram eles que detinham o conhecimento, e tinham como função primordial a transmissão (imperativa) da doutrina da Igreja ao longo do tempo. A palavra professor dizia respeito ao sacerdote que ao professar a sua fé irá fazer com que outros também professem esta fé.” (FONTES, Andréa Carregosa. Educação: um legado de opressão, no que concerne à pedagogia burguesa e a disparidade social.)

Se pensarmos na escola, como fomos educados seguindo determinados padrões, vamos perceber que aprendemos a seguir regras e não a contestá-las. Quem não contesta aceita, torna-se alienado e, consequentemente, continua sendo oprimido. Isso não funciona por falta de esforço e pensamento de quem está no grupo reprimido/controlado, mas porque existe um ciclo que se quebrará somente quando o oprimido tiver consciência da sua humanidade e, assim, buscar sua liberdade. Como Paulo Freire elucida em seu livro Pedagogia do oprimido: “Estes, que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar ambos”.

O ciclo é mantido na forma como a educação ainda é pensada no Brasil, pois garante a manutenção dos privilégios e controle de uma pequena parcela do corpo social. O aluno da escola pública é sempre tratado como quem não pensa e precisa não só ser informado, como de alguma forma adestrado para seguir determinado padrão, para que tenha um comportamento esperado, previsível, controlável, que não conteste o espaço pronto que lhe restringe e na maioria das vezes tolhe a iniciativa, a espontaneidade, a curiosidade e a criatividade do estudante. O professor é sobrecarregado, algemado ao currículo disciplinar e recebe baixos salários. Já em algumas escolas particulares, a dinâmica muda só pelo tamanho das salas e disponibilidade de matérias diversas. As mais caras do país, ironicamente, são as que assumem uma pedagogia baseada na sociologia da educação, um ensino meritocrático, imperativo e “carreirista” que estimula a competitividade. É também dessa forma que são mantidas as vantagens de um pequeno grupo sobre a grande maioria.

Dentro desses moldes, soa cruel e ignorante considerar a meritocracia algo justo. Pois como foi elucidado, as práticas que correspondem à “boa educação” brasileira mantêm um ciclo que impossibilita o próprio oprimido de ser protagonista da sua liberdade.

– Copia isso.
– Decora esse.
– Soletra aquilo.
– Responde isto.

São ordens comuns que escutamos geralmente dos quatro aos dezessete anos, período em que estamos cumprindo OBRIGATORIAMENTE o que é previsto no país para a escolarização básica (isso para quem consegue ter acesso às escolas e concluir o ensino até o final – já que falamos de um Brasil onde isso também é privilégio). Dentro desses verbos não é possível encontrar a chama capaz de reacender o pensamento crítico e a criatividade dos alunos. Precisamos não acreditar mais na ideia que a educação é uma hierarquia, defendida por séculos assim, pois esse modelo não funciona. Criar estruturas de educação horizontais é o mínimo que podemos querer.

No final do ano de 2015, a luta dos alunos secundaristas ocupando as suas escolas contra a ação ditatorial do governador do estado de São Paulo, com sua proposta de reorganização escolar que previa o fechamento de alguns centros de ensino, foi a prova de que é possível pensar além do que hoje se define como “educação de qualidade”.

Eles queriam falar sobre feminismo, movimento negro, luta de classes, questões de gênero e violência, trazer as demandas de suas comunidades e da periferia; queriam ter o direito de protestar, sentar em rodas e debater assuntos; queriam ser ativos e não vistos como incapazes. Essa movimentação foi a prova de que é palpável ir além mesmo com a ideia do ensino retrógrado e castrador que ainda persiste no Brasil. Ir no sentido de dar protagonismo e lugar de fala a quem realmente vive determinadas situações. Em tempos em que muitos acadêmicos se digladiam discutindo “quem pode falar”, jovens com idade para ser seus filhos enfrentaram uma das polícias mais opressoras, racistas e violentas do mundo para poder falar sobre eles mesmos. Porque falar sobre eles é importante num mundo que prefere esquecer e silenciar essas vozes “marginais”, que por anos se viram afastadas dos espaços de poder e discussão.

Exemplo disso foi que durante a ocupação algumas instituições receberam serviços por parte dos alunos, que a escola não via “há séculos” porque até para capinar algum espaço era preciso tramitar papeladas, assinaturas e autorizações. Sob a gestão dos alunos tantas vezes ditos “arruaceiros” pela grande mídia, as escolas receberam faxina, tiveram a grama aparada, as salas organizadas, espaços foram realocados, materiais resgatados, lixo reaproveitado, cozinha limpa e desinfetada, debates, saraus, encontros, exibição de filmes, rodas de discussão com diversos professores voluntários onde pessoas de todos os tipos eram bem-vindas e podiam finalmente falar. Essa experiência os tocou para sempre, eles jamais serão os mesmos.

A rua ensina, o ativismo ensina, a privação ensina, o debate ensina, ser malcriado é ser herói! O paradigma normativo da sociedade atual é extremamente excludente para quem nasce pertencendo às chamadas “minorias”, no que diz respeito à dignidade e qualidade de vida. A forma como o ensino foi traçado e se mantém só enfatiza a ideia de que esse grupo (que é a grande maioria da sociedade brasileira) precisa continuar quase estático às margens. Quando os secundaristas pedem para falar de nós e deles mesmos, eles estão assumindo e pondo em prática a proposta de pedagogia de Paulo Freire, sem saber muitas vezes quem ele foi – o que torna tudo isso mais maravilhoso ainda, prova de que não é a academia que faz o intelectual: é a sociedade e a adversidade.

Por isso, podemos debater lugar de fala na USP, em francês e citando dezenas de filósofos e pensadores. Só que somos nós os “malcriados” sociais, os que fogem da ordem vigente, que poderemos mudar essa mesma ordem vigente. São os que ocupam porque querem reforma e, para além dela, uma forma totalmente nova de fazer escola, que repudia a burocracia, baseando-se na ação direta e na pedagogia libertária. São o que vão à rua porque querem um transporte público gratuito e digno. São os que questionam a meritocracia porque ela é racista e classista. São os que quebram silêncios, vidros, mordaças, correntes, paredes e que constroem uma nova narrativa possível. São os “vândalos”. São os “pichadores”. São os pobres. São as travestis. São os gays. São as “mães solteiras”, as lésbicas, as “vadias”. São os “vagabundos”. São as filhas das empregadas. São os negros. São os que disputam a cadeira com o policial. São os proscritos que ousaram mudar o lugar e o destino que o sistema lhes reservou como compulsório desde o nascimento. Somos nós e somente nós que vamos quebrar e reconstruir algo novo. E isso também começa quando a educação se abre para nós, não só sendo acessível e de qualidade, mas sendo também libertadora.

Sejamos malcriados!

“Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção.” (Paulo Freire)

Indicações de leitura:

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos