16 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3, Textos Favoritos | Texto: | Ilustração:
O poder das selfies
Ilustração: Laura Viana
Ilustração: Laura Viana

Ilustração: Laura Viana

“A autoexpressão é uma defesa”
– Louise Bourgeois

Há muito tempo que os seres humanos começaram a deixar suas impressões pelo o mundo. Quando não tínhamos papel para desenhar, aproveitávamos as pedras – como até hoje fazemos com os muros e paredes das cidades -, esculpíamos deuses e inventávamos adereços. Não importa se em cavernas ou celulares, nós, os humanos, precisamos registrar nossas empreitadas pela vida. Talvez seja isso que diferencie o humano do animal – e não uma suposta superioridade racional -,: nós precisamos de representações, desenhos e linguagem para sobreviver – e através disso modificamos o mundo.

Atualmente, a realidade muda em uma nova velocidade. Dez anos atrás, eu ganhava meu primeiro celular. Ele era azul, pesava uns 5 quilos, sua tela era em preto e branco e o mais perto de um aplicativo era um jogo de cobrinha que eu achava maravilhoso. Na história do mundo, dez anos é uma fagulha e, no entanto, nesse breve tempo, as produções humanas transformaram radicalmente nossas vidas (Por exemplo, se não tivessem tornado a internet mais acessível, eu não estaria aqui, escrevendo para a Capitolina – e sem isso eu não teria conhecido as minhas lindas companheiras).

Muita gente se assusta com tanta novidade e reclama do nosso tempo. Você, com certeza, já ouviu alguém dizer que vivemos em um tempo individualista e solitário. Também há quem diga que nasceu na década errada, porque preferia ter vivido no auge do movimento hippie ou algo do tipo. Mas eu amo viver exatamente neste tempo. É claro que não amo tudo. Não amo as desigualdades. Não amo como consumimos irresponsavelmente e destruímos a natureza. Não amo como a internet é viciante e me atrapalha. Não amo ver amigos sofrendo de depressão e distúrbios alimentares. Porém, tenho certeza que, mesmo com tantos incômodos, não existiu uma época histórica com tantas possibilidades. Eu amo poder ouvir Beatles e Lorde no meu celular. Amo ver meus amigos de qualquer gênero andando de mãos dadas pela rua, – mesmo que ainda exista perigo e preconceito. Amo poder me fotografar exaustivamente, escolher a foto em que me sinto mais gata com aquele filtro que me favorece e postar no Instagram – deve ser um prazer parecido com o que as rainhas sentiam ao pendurar seus retratos na sala imperial, só que muito mais rápido e acessível. Pode não parecer, mas esse texto é sobre selfies (eu sou prolixa, eu sei). Na verdade, este texto é em defesa das selfies.

Muita gente se incomoda com as selfies, acha que são um excesso de vaidade e amor próprio. Pode ser, mas por que isso incomoda tanto? Tudo bem que pessoas demasiadamente autocentradas podem se tornar entediantes, mas o que há de tão errado em se admirar um pouquinho? Algumas pessoas dizem que as selfies são um exemplo de como vivemos em uma sociedade individualista, que se preocupa exageradamente com a aparência e exige cada vez mais um padrão de beleza opressivo. De acordo com essa ideia, quem publica selfies estaria contribuindo para esse tipo de opressão. Acho que, pelo contrário, quanto mais garotas de diversas cores de pele e cabelo, tipo de roupas e tamanhos, postarem suas selfies, mais plural e tolerante o mundo se torna.

Eu sou totalmente favorável às selfies (inclusive a minha foto para o perfil da Capitolina é uma selfie), porque não entendo como julgam errado algo que pode fazer alguém se sentir mais confortável na própria pele. As selfies podem ser um meio de se curtir, de se sentir bonita e satisfeita com a própria imagem (mesmo quando existe todo um discurso construído para que você só enxergue os seus defeitos). Se você é uma garota que, como eu, não se sente representada pelo tipo de beleza que a mídia privilegia, as selfies são um meio para não precisar de uma representação e ser sua própria mídia. É um modo de empoderamento, porque eu tenho todo o controle do processo que envolve a selfie: sou eu que me fotografo, escolho a foto que mais me agrada, coloco um filtro, escrevo uma legenda e decido onde vou publicar. É, então, a construção da minha imagem, aquela que mais me agrada, que expressa quem eu sou ou gostaria de ser. Se autofotografar pode ser um meio de se afirmar, de construir seu amor próprio e também de se reinventar, testar novas maquiagens, penteados, roupas e expressões. Além disso, podem ser uma maneira de registrar mudanças, dar expressão a sentimentos ou mesmo realizar essas transformações. Em abril desse ano eu estava passando por meu inferno astral, vivendo uma série de acontecimentos desses que só deixam marcas por dentro, mais ainda, estava precisando de uma válvula de escape, de um modo de dizer ao mundo que eu mudei, que estava mudando. Numa decisão não tão inteligente – não repitam isso em casa –, cortei minha franja com uma tesoura escolar. Por algumas horas não tinha ideia se aquilo tinha ficado bom ou era um real desastre, então tirei selfies, inúmeras selfies, até me acostumar e poder afirmar que agora eu era assim: de franja. Essa história que envolve excesso de sentimentos, cortes de cabelo e autorretratos se repete com uma série de garotas, uma delas foi Frida Kahlo que, depois de sofrer uma traição dupla, cortou seus cabelos e se pintou transvestida com roupas de homem. Esse foi seu modo de dar materialidade ao seu sofrimento e começar uma transformação.

É o que eu tento dizer desde o início desse texto, nada disso é novidade: a necessidade de se sentir amada ou bonita, o desejo por se expressar e se autofotografar, todos esses comportamentos fazem parte da vida humana há muito tempo. Talvez nosso período histórico realmente intensifique esses comportamentos e estimule o individualismo. Eu acho importante pensar sobre isso, porque não há felicidade em uma vida autocentrada, mas sem culpa. Aquela selfie em que você saiu sorrindo não é responsável por toda a crueldade universal. Pensar sobre nosso tempo deve ter mais relação com escolhas e responsabilidade do que com culpa. Acho que é bom tentar entender nosso contexto histórico para refletir sobre o que podemos fazer com nossas vidas, quais possibilidades existem para que nos tornemos mais felizes, e não só em um nível individual, é claro. Pensando sobre isso, acho que existe, sim, um risco das selfies se tornarem um modo de corresponder às expectativas alheias, de caber em padrões e medir quem você é através de likes. Então, é preciso tomar cuidado para não entrar nesse tipo de opressão e ansiedade! Nós, aqui da Capitolina, amamos as selfies e até usamos as nossas para divulgar a revista antes do seu lançamento. Mas gostamos da selfie do bem, aquela que faz você se sentir bem consigo mesma, poderosa e feliz. Para concluir nossa defesa da selfie do bem, a Sofia, nossa rainha das selfies, preparou um maravilhoso guia prático de como se amar mais através de suas selfies:

Como amar sua selfie em 10 passos simples, por Sofia Soter:

1. Recomendo começar num dia em que você está se sentindo bem consigo mesma. Sabe, aquele dia em que você se olha no espelho de manhã e pensa “opa, sou gata!”, ou logo que você saiu do cabeleireiro e tá com o cabelo num corte super legal, ou quando você redescobriu uma roupa preferida no fundo do armário, ou quando fez uma maquiagem muito louca e colorida. Conforme você for ficando mais confortável com as selfies, recomendo tentar seguir os passos mesmo em dias em que não está se sentindo tão especial.

2. Pegue sua câmera, celular, computador, ou o que for usar para fotografar.

3. Pare na frente de um espelho (qualquer espelho serve, porque regras sobre como tirar selfies são uma besteira, mas para pontos extras recomendo um que esteja refletindo um fundo que você curte, seja ele uma parede colorida, a bagunça do teu quarto, ou o armário do banheiro).

4. Tire uma selfie.

5. Tire outra.

O caminho para uma selfie satisfatória.

O caminho para uma selfie satisfatória.

6. Tire quantas você quiser, de quantos ângulos você quiser, fazendo quantas caras e bocas você quiser, focando no cabelo, na cara, na roupa, no que você estiver a fim. Só pare quando você tirar uma que te faz pensar “eba, essa ficou legal!” (ou continue tirando mais, se você estiver com vontade; porque, afinal, é divertido).

7. Se depois de pensar que ficou legal você começar a duvidar de si mesma, a encontrar “defeitos” na foto, a pensar que talvez não tenha ficado tão legal assim, tente afastar esses pensamentos. Se precisar, pense que estamos aqui na Capitolina achando tua selfie o máximo, mesmo sem estar vendo.

8. Se quiser botar filtros e efeitos, bote filtros e efeitos.

9. Mande a selfie para alguém, ou poste em algum lugar. Se não quiser postar no Facebook, no Instagram, no Twitter, ou na sua rede social de escolha, comece mandando para uma amiga de confiança, para a pessoa que você namora, para teu irmão que gosta de rir quando você faz caretas.

10. Repita sempre que possível, desejado e necessário.

Dicas extras:
+ O Snapchat é um bom jeito de treinar selfies, porque ninguém espera que elas sejam especialmente bem fotografadas ou iluminadas ou cheias de frescuras, e porque a pessoa que recebe só vê a imagem por um período curto de tempo, então na hora que bater aquela vergonha de “AAAAH por que eu fiz isso??” a pessoa já vai ter visto e nem vai poder ver de novo.

+ Fazer fotos ficarem engraçadas com a ajuda de apps (eu, pessoalmente, adoro o Catwang) é uma boa forma de descontrair, porque dá pra brincar bastante com a imagem.

Brincando com aplicativos. Via Instagram.

Brincando com aplicativos.

+ Desafios do Instagram, como o #instamission e o #100happydays, são jeitos divertidos de começar a se soltar na rede social.

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Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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