19 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Sendo uma metade da laranja

Tenho até certeza de que muita gente, se tivesse opção, adoraria escolher por quem e quando se apaixonaria, mas a gente sabe que o amor é assim mesmo: uma caixinha de surpresas. Nunca dá pra saber direito como e nem por quem vai acabar surgindo.
Na minha não tão vasta experiência amorosa, tive alguns namorados; alguns que me ensinaram muito por serem proveitosos e agradáveis e outros… er, nem tanto. Mas meu primeiro namorado foi aos 17 anos, idade que eu imagino que seja a de muitas de vocês que leem a Capitolina. E nessa época, por mais que a gente ache que é dona do mundo e que nada nem ninguém vai mudar nossa opinião sobre nada, eu me deparei com uma Luciana que eu não conhecia direito: aquela que, assim como todas e qualquer adolescente normal, é bem insegura e ainda não sabe direito o que quer ou do que gosta. Pois é. Sabe aquela menina da sua escola que tá sempre linda e rodeada de amigos? Tão insegura quanto você. Na adolescência é sempre assim: por mais que todas nós tenhamos nuances diferentes de maturidade, no final das contas não podemos evitar ter a idade que temos.

E aí, sabe como é, os hormônios começam a ficar à flor da pele, aquele amigo que antes parecia só gentil agora tá começando a te deixar meio nervosa, os sentimentos mudam… E BUM, você tá namorando. Aquele momento que pra umas vem mais cedo, pra outras não, mas que sempre – pra quem não tem experiência no assunto – deixa a gente cheia de dúvidas.
Em um período da vida onde tudo parece impermanente e mutável, um relacionamento amoroso onde há uma troca constante de informações sobre o íntimo da(s) pessoa(s) com quem você está se relacionando – e aqui eu me refiro não só ao sexo, mas àquelas coisas que a gente só compartilha com quem confia, como medos, defeitos e paixões – deixa a cabeça de qualquer um meio confusa. E enquanto é normal acabar “pegando” algumas coisas do outro (trejeitos, forma de falar, gostos, etc), pode acabar não sendo saudável deixar sua personalidade se diluir na de quem você se relaciona.

Ouvimos muito sobre como é romântico, enquanto namorados, “se tornar um só”; mas você já parou pra pensar no que isso realmente significa? Se partimos do ponto em que cada pessoa tem um universo dentro de si e que o universo de cada um por definição tem suas particularidades, quando se diz que um casal “virou uma pessoa só” não parece que os indivíduos que compõem aquele relacionamento meio que deixaram de existir?

Esse tipo de coisa pode acontecer com mais frequência na adolescência, época em que ainda não temos muita experiência de vida, mas a verdade é que rola com qualquer pessoa de qualquer idade, não importando se aquele relacionamento é o primeiro ou décimo quinto. O que influencia não é exatamente a idade, mas a forma como lidamos, pessoalmente, com os conflitos, as qualidades e a convivência com o outro.

Nós, mulheres, crescemos sendo ensinadas – mesmo que nem sempre diretamente – que existem momentos em que precisamos, por exemplo, nos calar em uma discussão pelo bem do relacionamento, ou então ignorar nossas vontades pessoais para agradar o outro; e mesmo que na maioria das vezes em que a gente faz isso (a gente, sim, porque eu também sou humana! rs) role aquele pensamento de “ah, não é nada de mais”, “foi só dessa vez” ou “vou deixar passar”, é muito comum que se confunda o limite entre ceder de forma saudável e se negligenciar. E quando você não percebe, amiga, é aí que mora o perigo.

A pauta em questão aqui não é esquecer quem você é (que não parece muito realista). Mas quando a gente se molda tanto no outro – seja por admiração, amor ou vontade de agradar –, acabamos inevitavelmente nos tornando umas cópias meio esquisitas, quando na real é muito mais fácil e divertido se conhecer, entender e a partir daí aprender a gostar daquelas coisas que muita gente pode ter parecida, mas que é só sua: aquela posição engraçada de assistir a séries no Netflix, a gargalhada diferente, o modo de ver o mundo, as pessoas à sua volta e, enfim, tudo o que compõe a sua personalidade.

Um namoro significa coisas diferentes pra cada pessoa, mas acho que a maioria pode concordar que duas coisas importantíssimas são companheirismo e parceria. Ao mesmo tempo em que aquela história sobre “completar sua laranja” pode se encaixar na nossa vida amorosa, não esqueça de cuidar com carinho e de cultivar a sua metade. Assim, essa pessoa maravilhosa que a gente sabe e quer que você também perceba que é – a sua essência – nunca vai ser facilmente perdida.

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

  • Ana Nascimento

    Maravilhoso!!!! e se me permite dar um conselho para as que estão se “iniciando” agora, seria que, melhor que uma metade bem resolvida somente um ‘inteiro’ de si mesmo. Vá completa por que sempre tem outra laranja inteira esperando por você.

    • Luciana Rodrigues

      É isso aí mesmo! Adorei <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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