25 de outubro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Senhoras e senhores: Juçara Marçal!

“Não diga que estamos morrendo/Hoje não/Pois tenho essa chaga comendo a razão”
(Juçara Marçal – Velho Amarelo)

É verdade, Encarnado é o primeiro álbum solo de Juçara Marçal. Ela poderia ser considerada uma iniciante, e esse seu álbum de estreia, não fossem por seus trabalhos em três grupos musicais diferentes (Metá Metá, Vésper Vocal e A Barca), seu histórico como professora de canto e seus mais de 20 anos de carreira. Mas você não precisaria saber de nada disso para notar por si mesma que a artista é veterana; perceberia isso pela voz madura e interpretação visceral de cada palavra que canta sobre o assunto morte, centro do monotemático – mas multifacetado! – Encarnado.

Eu falo que é multifacetado porque o álbum não é um grande e loooooooongo discurso sobre a vida e a morte, todo emotivo e cheio de clichês. Ele tem várias nuances, permite que quem escuta interaja e se veja nas canções, tem momentos mais reflexivos e outros mais expansivos.
Tanto é assim que, enquanto em Velho amarelo (a canção que citei no início) a cantora conta uma história que envolve a morte, em A velha da capa preta, ela interpreta a própria morte. Pode parecer uma temática um tanto quanto mórbida, ainda mais considerando que o álbum todo gira em torno do assunto-que-todos-tentamos-evitar, mas, de alguma forma, ela consegue tornar a música gostosa de ouvir (inclusive, sempre me arranca umas risadas!), e, de certa forma, até bem-humorada, misturando a ironia da letra com a ironia da voz. Ainda assim, o álbum é inteira e completamente reflexivo. Se não acredita em mim que isso é possível, veja ouça por você mesma:


“Passei a vida matando/Mas já estou me abusando desse emprego de matar/Porque eu já pude notar que em todo lugar que eu vou/O povo já se matou antes mesmo de eu chegar/Quero me aposentar pra ganhar tranquilidade/Deixando a humanidade matando no meu lugar”

O álbum, porém, não é leve o tempo todo. O mais admirável na vocalista é a capacidade de transmitir a emoção pela voz, que complementa a letra perfeitamente, e, dessa forma, não há ser humano nesse mundo que não se conecte com a música, já que a morte é tão recorrente em nossas vidas, pensamentos e conversas.

Assim sendo, não dá para eu falar aqui que é um álbum tranquilo e fácil de ouvir, porque não é. Com Canção para ninar oxum e Ciranda do aborto em um disco, eu não teria coragem de dizer isso. Mas ele não deixa de ser maravilhoso e provocar emoções das mais diversas. Há quebras que tornam as faixas pesadas mais palatáveis e permitem que você respire um pouco (como a faixa Não tenha ódio no verão), mas não que pare de refletir. Isso é o que me encanta nesse CD, que consegue te manter completamente fisgado do início ao fim mesmo que pareça que você não vai conseguir respirar em alguns momentos; consegue te fazer pensar na sua vida toda ao mesmo tempo em que te faz dar umas risadinhas aliviadas. Se você ama se sentir conectada pela música não dá pra não ouvir!

Músicas que devem ser ouvidas:
Velho amarelo, a velha da capa preta e odaya

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Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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