29 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Sensibilidade e empatia no trato dos segredos

Todos nós temos segredos, dos cabeludos aos mais leves, quase de estimação, que guardamos para nós por vergonha de admitir ou porque eles simplesmente estão confortáveis só dentro da gente. Só que, às vezes, jogando conversa fora, nos aproximamos deles e quase os revelamos, deixando as pessoas muito, muito curiosas. Outras vezes estamos do outro lado, nos rasgando de curiosidade para saber por que fulana mediu as palavras e deu aquele jeitinho de desviar a conversa para bem longe. E aí, o que fazemos? Vale a pena insistir? Ou é melhor deixar quieto?
Cada caso é um caso, e nós temos que ter sensibilidade para perceber e respeitar o (des)conforto do outro. Mesmo quando se conhece bem a pessoa a quem estamos confiando um segredo, não há como saber exatamente o que se passa na cabeça dela e o que esse segredo remete – às vezes, pode ser algo simples para nós, porém muito complexo para quem prefere silenciar. Ou talvez o outro não esteja preparado para falar sobre aquilo naquele momento. Então, sugestão: FICA DE BOA e se coloca à disposição para ouvir a amiga quando ela quiser falar sobre o assunto. E se ela não quiser, tudo bem também! Ninguém é o que mesmo, gente? OBRIGADA. Ninguém é.

E quando você descobre que é protagonista de um segredo? É justificável querer saber exatamente do que se trata já que você está no “elenco” da história. Mas vale a pena forçar a barra para averiguar os fatos? Às vezes, sim, pois a história pode influenciar o seu cotidiano de forma determinante. Às vezes, não, pode ser uma opinião alheia sobre você, o seu jeito, um pré-conceito que não te acrescentará nada na vida. Ou quem sabe é um segredo clichê, como “fulanx gosta de mim”? Então, buscar confrontar a pessoa sobre isso pode soar invasivo… ou não. Sensibilidade é tudo, e empatia, também. Quando a gente se coloca no lugar do outro para tentar entender o motivo da sua fala ou omissão, tudo fica menos conturbado, nossa sensibilidade é aguçada e até descobrimos mais sobre nós mesmas: se não acho legal agir de determinada forma nesse momento é porque não gostaria que fizessem o mesmo comigo. Assim, talvez seja mais sadio respirar fundo, ir sentindo a história que acompanha o segredo e pensar que se você não sabia dessa até agora, é melhor continuar na ignorância e deixar que a vida se encaminhe e, eventualmente, te revele tudo, no momento certo. Mal ou bem você viveu até hoje, linda e absoluta, sem saber de nada…

Tudo bem, mas se o meu segredo é jogado no ventilador? O que eu faço? Calma, calma, não “priemos cânico”. É claro que não é nada legal descobrir que o que confiamos a alguém foi comentado com um bando de gente ou com uma pessoa só, e a coisa foi sendo repassada, e quem sabe, até distorcida, como na brincadeira de telefone sem fio. Quando isso acontece, nós nos sentimos expostas, vulneráveis e é muito válido ficar aborrecida com a situação. Mas não se prenda ao surto! É importante vivê-lo por completo, mas saber a hora de sacudir a poeira e dar a volta por cima é igualmente fundamental. E toda situação, por mais desagradável que seja, traz um bando de lições escondidas, que com o nosso empenho e uma ajudinha do tempo, vão se revelando.

Bom, vejamos: se revelaram o seu segredo, agora você já sabe que não dá para confiar certas coisas àquela pessoa. É chato? É. Mas acontece com todo mundo e não quer dizer nada sobre você, ou seja, ter um segredo revelado não te faz boba nem nada. Não se arrependa de ter confiado, não se autoflagele com isso. E às vezes a pessoa que abriu o bico não tenha agido de má fé; talvez ela tenha acreditado que estava te protegendo ou ajudando – sabe-se lá o que se passa na cabeça dela?! E se você se sentir bem para tanto, que tal conversar com ela para entender a situação? Outra alternativa é avaliar se a revelação daquele segredo não acabou se tornando um alívio. Como a gente falou aqui, os segredos só têm peso enquanto são secretos e, às vezes, verbalizar a coisa faz com que ela não cresça e vire um bicho de sete cabeças.

Esses episódios envolvendo segredos são muito comuns na nossa vida e a forma como reagimos a eles é variável: tudo depende do segredo, do quanto a gente permite que ele nos afete, e do nosso momento de vida, claro! Desenvolver uma sensibilidade perante os segredos é um exercício de respeito e empatia com nós mesmas e com as pessoas com quem convivemos.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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