20 de outubro de 2014 | Ano 1, Edição #7 | Texto: | Ilustração:
Ser bruxa é ser livre: entrevista com Tânia Gori, fundadora da Casa de Bruxa

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Quando eu era criança, poucas coisas me intrigavam mais do que a Casa de Bruxa. Esse espaço – “nascido” em Santo André, SP, assim como a pessoa que vos fala – que virou referência no ensino de diversos assuntos do campo esotérico, como tarô, runas e o manuseio de energias, era, para o meu eu de 5 anos, um mistério. Admito que tinha um pouquinho de medo – afinal, qual sempre foi a fama de bruxas? À medida que fui crescendo, no entanto, percebi que o verdadeiro intuito da casa era a exploração desse conhecimento e espiritualidade alternativos, em busca de uma compreensão maior do mundo ao nosso redor e de um crescimento pessoal.

Este mês, eu conversei com Tânia Gori, fundadora da Casa de Bruxa, sobre a sua visão de magia, bruxas e o que, exatamente, os alunos aprendem em suas aulas.

Capitolina: Qual é a sua definição de magia?

Tânia Gori: A magia é a capacidade que o ser humano tem de ver na natureza algo novo, um encontro com a natureza. Então toda vez que você olha para a natureza e a vê de uma maneira nova, reformulada, isso é magia. Muitas pessoas confundem magia com mágica: magia é você poder olhar para a natureza e trazê-la para perto de você, sem os efeitos especiais de Hollywood. Você vai pegar, tomar um banho, conversar com a água; você vai colocar o seu pé no chão e sentir a terra, sentir a brisa no ar… Mágica é o que você vê na televisão, que põe a pólvora, explode, corta a mulher no meio, levitação… Isso é um ilusionismo.

Capitolina: De onde surgiu a ideia de montar a Casa de Bruxa?

Tânia: Eu tive uma loja no shopping, onde eu vendia imagens de gnomos, duendes, etc., durante três anos. E eu ensinava aos clientes o que era tudo aquilo: falava sobre gnomos, fadas, ensinava a jogar tarô, como a magia trabalhava na cozinha. E chegou o dia em que uma cliente me falou “Tânia, cria vergonha! Aluga uma sala pra gente sentar”, porque você imagina como era ter uma aula de 30, 40 minutos em pé numa loja pequenininha. E foi aí que eu pensei em abrir uma escola que ensine magia, que ensine as pessoas a utilizar a cozinha, as ervas… E surgiu daí a Casa de Bruxa. E estamos completando, dia 31 de outubro, 18 anos.

Capitolina: Quem foram e quem são hoje as bruxas “de verdade”?

Tânia Gori: Na antiguidade, as bruxas eram mulheres do campo, curandeiras, parteiras, benzedeiras… E elas cuidavam de toda a harmonia de uma tribo. Agora, o que acontece é que, hoje em dia, têm muitas bruxas escondidas. Mas a gente encontra. No Rio de Janeiro, por exemplo, tem a Eddie Van Feu, que é uma bruxa maravilhosa; a Márcia Frasão, uma escritora fenomenal que foi uma das pioneiras a fazer um livro (Cozinha de Bruxa) que ensina a alquimia da cozinha; a Patricia Fox, que trabalha com o resgate do sagrado feminino… Então existem essas bruxas de destaque, mas também têm aquelas que podem estar ao seu lado e você não ter nem ideia.

Capitolina: Você acha que existe uma relutância em assumir esse título de bruxa?

Tânia: Sim, com certeza. Muitas pessoas falam que são esotéricas, amantes da natureza, ou que “vivem em harmonia com a natureza”, “buscam a harmonia com os quatro elementos”, mas não se assumem.

Capitolina: Então ser bruxa é ter essa conexão, explorá-la, enriquecê-la?

Tânia: Exatamente. Você tem que ter o olho aberto para ver a magia na natureza, sem cinismo, sem querer ser superior… Você tem que estar nessa harmonia com a Mãe Natureza. Dentro da Bruxaria a gente estuda a utilização das ervas, dos cristais, como ajudar uma pessoa a se reequilibrar com o uso da energia… Aí para exercer essas coisas [corretamente], precisa-se de um estudo. Mas, a priori, ser bruxa é estar em harmonia com os quatro elementos.

Capitolina: E de onde você acha que vem todo esse preconceito com bruxas, essa generalização da bruxa ser a mulher malvada?

Tânia: Na realidade, ela vem da Idade Média. Foram quase 400 anos de marketing negativo contra as bruxas… Na Idade Média, a Igreja basicamente precisava de um bode expiatório. A bruxa era aquela mulher que irritava a Igreja. Por quê? Porque ela gostava da colheita, cuidava das ervas e não dava muita atenção a essa religiosidade que era imposta sobre ela. Tanto a mulher quanto o homem que divergiam do pensamento da igreja eram castrados. Temos Galileu, por exemplo, que foi morto por expor as suas ideias. Se um homem era morto, o que dirá uma mulher que, na Idade Média, queria falar de equilíbrio com a natureza… Então é óbvio que as pessoas começaram a pegar medo da bruxa. A mídia é muito, muito poderosa para fazer as pessoas acreditarem que o “mocinho” é o “vilão”, e vice versa. E a bruxa foi isso. Tanto que nós estamos tentando dismistificar a questão, mostrando que bruxa é boa. Harry Potter ajudou muito nesse processo, mas ainda existe uma generalização muito grande.

Capitolina: Qual foi a importância das bruxas pra história? Para o que elas contribuiram? Como você acha que o mundo estaria diferente hoje se não fosse por elas?

Tânia: As bruxas contribuíram para manter o conhecimento principalmente das ervas e dos cristais. Muitos dos remédios alopáticos que a gente toma hoje foram feitos de ervas, e esse conhecimento de manipulação de ervas a gente deve as curandeiras, parteiras, às pessoas do campo. Elas mantiveram esse conhecimento até a modernidade e contribuiram com a medicina, a cura, o reequilíbrio das pessoas.

Capitolina: O principal curso oferecido pela Casa de Bruxa é o de Bruxaria Natural. O que é ensinado nele?

Tânia: O curso é para que as pessoas tenham um pouco de conhecimento sobre a bruxaria. Aprende-se a questão da história, do porquê desse preconceito em relação à bruxa, as perseguições, como trabalhar com os quatro elementos, como trabalhar na cozinha e qual é a força disso, a fazer rituais, a sempre estar pensando, questionando… O curso de bruxaria natural é uma formação pra vida, de autoconhecimento. E pra quem quiser trabalhar com isso, a gente tem a parte de aconselhador, que consiste em um estágio onde o aluno começa a por em prática esse conhecimento para o reequilíbrio das pessoas.

Capitolina: O que esse conhecimento agrega à vida de uma pessoa?

Tânia: A pessoa aprende a ficar mais calma, a entender melhor ao outro, a cooperar mais, a compartilhar mais… Ela se torna um ser humano melhor. Hoje em dia, as pessoas infelizmente estão muito individualistas, pensando somente nelas mesmas, e esse comportamento não ajuda ninguém. Então, dentro da Casa de Bruxa, a gente tem uma filosofia de cooperação, de ajudar, cooperar… O pensamento de união é muito importante. E isso vai fazendo o planeta ficar melhor. As pessoas vão fazendo amizade, trocando ideias, aprendem que tudo é energia e que, se elas estão mais calmas, as coisas fluem melhor. A Casa de Bruxa resgata um conhecimento antigo, medieval, e passa para o nosso presente.

Capitolina: Com esse perfil que as bruxas têm de não se subordinarem a convenções, irem contra a igreja… Você diria que ser bruxa, em suma, é ser livre?

Tânia Gori: Sim, é uma boa teoria. Ser bruxa é ser livre. Mas que essa liberdade não seja confundida com libertinagem. Liberdade é ser livre para acreditar no que você quiser, sem a necessidade de obedecer a dogmas, coisas impostas – mas é importante ter alguns pilares, ser um pensador e estar sempre procurando o melhor para a sociedade, para aqueles que estão ao seu redor. É importante ter uma mente questionadora e buscar o equilíbrio. Tendo esse poder, você automaticamente vai fazer o seu meio melhor.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

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