19 de julho de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Isadora Maldonato
Sobre ser gorda e a farsa da feminilidade

Existem certos traços que nossa sociedade relaciona à figura da mulher. Esse conjunto de atributos é o que chamamos de feminilidade. É como se fosse uma lista com quadradinhos do lado, e quanto mais ‘xises’ você consegue marcar mais é vista como perfeita, ideal. Cada item nessa lista tem alguns subitens, e você só pode marcar um xis no item principal se todos os subitens estiverem marcados. Acredito eu que no item beleza exista uma quantidade gigantesca de requisitos a serem atendidos, e um deles seria alguma coisa como “ter um corpo sexualmente desejável pela maioria dos membros do Sexo Masculino™”.

Nós sabemos que esse item em específico é um daqueles que a maior parte das mulheres não têm “direito” de marcar com um xis, mas também que gordas são ainda menos merecedoras disso. É só dar uma olhada em revistas e desfiles: mesmo que mulheres muito magras não façam parte desse grupo idealizado, elas ainda são muito mais aceitas visualmente do que quem está do outro lado do espectro peso, e apesar de sofrerem com a necessidade de se sujeitarem a um padrão estético não são submetidas a um tipo de opressão específico para seu corpo.

Nos vemos forçadas a compensar a ausência desse xis de alguma forma. Para muitas mulheres gordas, a moda e a maquiagem entram aqui. Se você der uma rápida busca de imagens no Google com os termos “plus size + estilosa” ou similar e comparar com uma busca pelo segundo termo sozinho, vai ver que a maioria das meninas gordas está usando vestidos e saias com a cintura marcada, ou muita maquiagem, ou salto alto, ou cabelos compridos e soltos, ou combinações desses itens, enquanto as meninas magras estão usando botinhas e gorros e camisetas e roupas larguinhas. Ser gorda e ser estilosa significa, nesse contexto, ter que performar muitos mais itens daquela lista metafórica do que se esperaria de uma menina considerada atraente pela maioria das pessoas. Significa que somos obrigadas a nos desculpar pelos nossos corpos usando roupas que não fogem do padrão como as nossas formas fogem. Se as pessoas já têm a ideia que gordas só são assim porque são desleixadas e não se importam com sua aparência, a maquiagem e as roupas elaboradas servem para desfazer essa impressão. É como se estivéssemos dizendo “desleixada, eu? Mas olha o tanto de maquiagem que eu estou usando! Alguém que tem todo esse trabalho de manhã não pode ser desleixada!”.

Somos, ainda, excluídas de todos os assuntos tipicamente femininos. Você quer conversar com suas amigas sobre moda? Você só pode falar disso até certo ponto, porque as lojas preferidas das suas amigas nunca têm os tamanhos que você usa e as inspirações de estilo delas não têm o mesmo corpo que o seu. Quer falar sobre garotos? Mas por que? Você não é o tipo de nenhum deles mesmo, então qual é o sentido de se preocupar com esse assunto? Quer sair para beber com suas amigas? Hmmm, melhor não, beber já é feio para mulheres, imagina para uma gorda. E para comer, então? Não é à toa que a frase da Rae, personagem da série My Mad Fat Diary, sobre comer em público soa tão verdadeira: se você está comendo fast-food todo mundo provavelmente está pensando “é, desse jeito você nunca vai emagrecer” ou sempre tem alguém pra falar que “está fazendo gordice” e se está comendo alguma coisa saudável teme que alguém fale que você não está enganando ninguém, porque “com certeza não foi comendo salada que ficou desse tamanho”.

Se não somos capazes de cumprir com as expectativas de uma maneira temos duas opções: nos esconder (o que muitas garotas fazem, mas isso é assunto para outra discussão) ou usar artifícios para chegar ao patamar idealizado de outro jeito, nesse caso com roupas. Juntando esse fato à ausência de tamanhos grandes na maioria das lojas, fica fácil perceber como é difícil ser mulher e gorda ao mesmo tempo. Tem ainda outro problema: se você já tem a auto-estima baixa, odeia seu corpo, odeia olhar no espelho e acha que ninguém nunca vai te amar por causa do seu corpo, qual o sentido de se arrumar?  Isso tudo está relacionado com a ideia de que mulheres são objetos de enfeite e depósito de atenção sexual. Se seu corpo não é sexualmente atrativo pelos padrões da sociedade, então você se convence de que não serve pra nada.

Amiga, deixa eu contar um segredo pra você: esse conceito de feminilidade é uma farsa. Uma mentira. Um padrão idiota inventando pelo patriarcado pra impedir você de ter confiança para acabar com ele. “Mas, Bia, a gente ainda não destruiu o patriarcado e mesmo que eu saiba que eu não tenho que pedir desculpa por ser quem eu sou, corpo e alma, as pessoas ainda julgam! Ainda me chamam de gorda como se isso fosse pejorativo e não só mais uma característica do meu corpo! E isso me atinge!!!” Eu sempre odiei quando as pessoas falavam para não ligar para o que os outros pensam, porque eu ligo e não é de uma hora pra outra que eu vou conseguir não ligar, né. É um processo. Um processo que é muito mais fácil quando eu sei que tem gente do meu lado para me defender dos meus próprios pensamentos ruins quando eles aparecem. Saiba que você não está sozinha. Que seu corpo não é errado. Deixa eu falar uma coisa que não é segredo e está aí pra todo mundo ver: você é linda. Usando um vestido acinturado e batom vermelho ou uma camiseta larga e ankle boots que, alias, não engrossam a canela porque não têm o poder de mudar o formato do seu corpo. Que é lindo. Que nem você.

 

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

  • Sophia

    Aplusosssss!!!! Lindaaaa!

  • https://blogdahimmel.wordpress.com/ Náthaly Ramos

    Amei amei amei! Nós temos que amar e contemplar nosso corpo do jeito que ele é!

  • Mariana Macedo

    Cara, que FODA ler um texto assim, tão bem escrito e que resume tão bem o que é ser uma mulher acima do peso nesse mundo todo errado. Nunca tinha parado para pensar nisso, mas comecei a perceber porque eu só me sinto ótima com batom vermelho e porque no último ano eu não usei jeans mais do que cinco vezes. Vejo as meninas magrinhas de skinny, shortinho e all star e me sinto com o corpo ~~errado pra usar isso também. Parabéns pelo texto :’)

    http://www.quasefamosas.com.br

  • Douglas De Oliveira Tomaz

    Beatriz, sou professor e utilizei este texto numa atividade com alunas(os) do nono ano. O resultado foi excelente e queria partilhar contigo. Acho esse feedback importante. Taí o link do relato: http://abrigosdevagabundo.blogspot.com.br/2015/08/praticas-pedagogicas-libertadoras-e.html
    Queria agradecer à Revista Capitolina por produzir material de qualidade para adolescentes. Vocês contribuem muito para que esses sujeitos cresçam.

  • Mayara Teixeira

    Que texto lindo, menina! Poxa, adorei. Adorei mesmo. Acho que esse seu texto explica bem a realidade de garotas que são gordinhas (gordas, formosas, com carrrne)! A verdade é que nos acostumamos/deixamos que outras pessoas ditassem para nós o que é certo e o que é errado, esquecendo das nossas peculiaridades e diferenças, que de fato nos fazem ser quem somos! Sofro um pouco dessa discriminação social. Meu corpo é mediano, mas os ombros são largos e as sobrancelhas grossas – ou seja, fui, e de certa forma ainda sou, vítima desses conceitos de que garota bonita é garota que está dentro dos padrões. Porém, esse teu texto… Pô! Deu aquela aumentada na minha auto-estima! Aquela reanimada no meu coração, e um pouco mais de auto-confiança também! Um super, hiper, mega, obrigado, Bia! Precisamos de mais escritoras como você.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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