10 de maio de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Ser mãe jovem: Entrevista com Nathalia Hóss – Luta que pariu

Neste Dia das Mães, nós, da Capitolina, pensamos que seria importante conversar com uma mãe jovem que estuda e trabalha, sobre suas perspectivas de vivência e sua relação com o meio acadêmico/escolar. Conversamos, então, com a Nathalia Hóss, a moça por trás da página Luta que pariu. Ela tem 20 anos e é estudante de direito. Vem conferir!

Capitolina (Gabriella):Como é ser mãe jovem? Que tipo de dificuldades você enfrentou? Acha que foram diferentes das que mulheres mais velhas encontram ao engravidar?

Nathalia: Ser mãe jovem é difícil. Você sai na rua com o bebê e as pessoas te abordam, perguntam sua idade sem razão nenhuma, querem dar conselhos sobre como cuidar do seu filho… Ninguém te acha capaz de cuidar de uma criança. Nós vivemos numa sociedade totalmente adultista, silenciamos nossos filhos. É supercomum ouvirmos que “devemos agir como mulher e não como garota”.

É claro que preciso levar em conta o fato de ser branca e classe média alta… Estou num relacionamento com o pai da minha filha, o que pra sociedade é um grande alívio, mas eu enfrento dificuldades, sim. Sair na rua e ser abordada o tempo inteiro beira ao assédio.

Acho que qualquer atitude que fuja do padrão imposto soa como ameaçador, e é por isso que mães jovens sofrem mais preconceito em relação às mães que engravidam na “idade certa”. Ninguém na rua pergunta a idade de uma mulher que aparente mais de 25 anos com um bebê no colo, né? As dificuldades que enfrentei foram mais durante a gravidez. As pessoas lançam olhares de pavor pra sua barriga, e foi por isso que me escondi por tanto tempo. Nós mulheres somos apedrejadas por termos vida sexual ativa. Agora imagine quando essa mulher tem menos de 20 anos com carinha de 15…

As coisas só melhoraram pra mim quando eu comecei a militar dentro do movimento de mães, quando eu comecei a estudar sobre violência obstétrica, quando eu comecei a perceber o quanto o próprio movimento feminista acaba deixando as mães de lado. A partir do momento que ser mãe se tornou um ato político pra mim, as coisas mudaram drasticamente.

C: E como sua relação com os estudos foi afetada e/ou mudou?

Nathalia: Tranquei a faculdade pra cuidar da minha filha, pois optei por amamentá-la em livre demanda. Minha vida profissional teve que parar durante seis meses por conta disso. Mas eu tive ESCOLHA, a maioria das mulheres não tem essa opção, não tem com quem deixar seus filhos… E a realidade é uma só: as mães jovens deixam de estudar.

C: Você sente que o ambiente das escolas/universidades está preparado para proporcionar condições para as mães? Questões estruturais, como creches, flexibilização de horários, poder levar a criança para a sala de aula, entre outras.

Nathalia: De jeito nenhum. As escolas/faculdades culpabilizam na cara dura a mãe que engravidou. A minha universidade não tem creche nem pros funcionários da instituição. É um elitismo escancarado. O cuidado com os nossos filhos é visto como algo da vida privada, e nunca da vida pública: a mãe tem que se virar, afinal de contas, “foi ela que fez”. Acontece que esse cuidado deveria envolver o Estado, deveria mobilizar a comunidade.

Tenho amigas que já foram hostilizadas por levarem seus bebês para a sala de aula. A nossa sociedade definitivamente não está preparada pra lidar com mães e bebês.

C: Como é sua relação com os estudos/trabalho? Como ser mãe jovem transforma a sua experiência acadêmica e/ou profissional? Você enfrenta preconceito por ser mãe e mais ainda, por ser mãe jovem?

Nathalia: Eu consegui transformar a minha experiência em luta, e tento levá-la pra todos os âmbitos da minha vida. Por mais doloroso que tenha sido, a chegada da minha filha foi transformadora. Foi a partir dessa vivência que descobri que quero trabalhar com direitos sexuais e reprodutivos da mulher (focando especialmente as mulheres jovens), que mergulhei no tema da violência obstétrica, que criei a minha página no Facebook com o intuito de informar outras mulheres.

C: Como você se sente em relação aos colegas de classe/trabalho? Como eles se colocam em relação à sua maternidade? E professores, empregadores?

Nathalia: A relação com as pessoas da minha idade mudou drasticamente depois que virei mãe, não tem jeito. Estou vivendo um momento da minha vida que as pessoas com quem eu convivia/convivo não estão, e eu entendo que seja difícil pra elas conseguir entender o que eu estou passando. É difícil e solitário, e é por isso que tento me apegar à rede de mulheres que também são mães jovens pra seguir em frente.

 C: O que você acha da ideia de que mãe que estuda/trabalha é guerreira?

Nathalia: Mães que estudam e trabalham são muito guerreiras. Mas são mais guerreiras ainda as mães jovens periféricas que cuidam dos filhos sozinhas e por isso não têm tempo nem de trabalhar nem de estudar.

Aliás, a ideia de que donas de casa não trabalham é ridícula. Cuidar dos filhos é um trabalho árduo, e toda mãe é mãe trabalhadora… a gente só não ganha remuneração pra isso.

C: Como surgiu sua ideia da página? Você já militava no movimento feminista de alguma forma?

Nathalia: Eu fiquei me perguntando por muito tempo como eu ia conseguir lidar com minha vida nova, como eu ia dar sentido pra tudo isso que aconteceu. Eu senti que precisava criar uma coisa minha, uma coisa que me deixasse realizada. Fiquei muito feliz de ter sido apresentada ao mundo da maternidade feminista, vi que eu tinha espaço pra militar e ser protagonista do movimento, sabe? Eu já era feminista antes de ter me tornado mãe, mas sentia uma falta de acolhimento enorme. A ideia da página veio disso: querer informar as mães jovens de alguma forma, dizer pra sociedade parar de tratar a gente feito criança, parar de tratar a gente como “mãezinha”. Nós somos muito fortes, e nosso lugar não é ali no cantinho, quietinhas, dóceis e fofas. A gente também quer ter voz, quer gritar pro mundo que acabou essa palhaçada de que maternidade não tem vez no feminismo.

C: Aliás, como você enxerga a relação entre feminismo e maternidade?

Nathalia: Feminismo e maternidade estão intimamente ligados. Aqui no Brasil, nossa luta começa desde o nascimento: a violência obstétrica é, na minha opinião, uma das violências mais veladas que existe… A grande maioria das pessoas condena o estupro, mas nem sequer conhece a violência obstétrica, tudo porque mulheres são violentadas todos os dias sob respaldo médico. A gente acha que parto é pra ser horrível e doloroso mesmo, que se o médico realizou alguma intervenção é porque estava querendo salvar nossas vidas e a vida dos nossos bebês. Mas não. A maioria dos obstetras brasileiros está desatualizada e aprende desde a faculdade que parto é evento médico. Nós, ativistas da humanização do parto, lutamos pra que ele seja protagonizado somente e pela mulher, queremos ser respeitadas nesse momento, queremos receber informações baseadas em evidências científicas desses profissionais.

Fora isso, posso dizer que nós mães não temos espaço no plano público, nem mesmo dentro da militância. As pessoas se mostram incomodadas quando a criança começa a chorar, falar, fazer barulho… E como a mãe se sente diante dessa situação?

É no mínimo contraditório perceber que ao mesmo tempo que se ataca a ilegalidade do aborto e a consequente maternidade compulsória na nossa sociedade, os movimentos “libertários” se mostram incomodados com a presença de um bebê barulhento numa atividade. Algumas mães não têm com quem deixar os filhos (a maioria delas porque o pai não é presente) e acabam deixando de comparecer nas reuniões dos coletivos por esse motivo. Ou seja, somos excluídas mais uma vez.

C: E a questão do aborto?

Nathalia: Sou totalmente a favor da legalização do aborto, até porque seria no mínimo egoísta da minha parte não levantar essa bandeira quando quem morre em aborto clandestino é a mulher pobre, negra e marginalizada. Eu teria tido condições de bancar uma clínica que me oferecesse um aborto seguro sem correr o risco de ser criminalizada.

A gente sabe que quando uma mulher engravida sem querer, a sociedade vai jogar toda a culpa nas costas dela, mesmo que o descuido tenha vindo do parceiro. Quando essa mulher não tem opção de escolha assegurada pelo Estado, ela se torna vítima da maternidade compulsória, que nada mais é que uma maternidade forçada.

O que acontece muitas vezes no Brasil é isso: a maternidade vira um castigo pra mulher. Castigo por ter vida sexual, castigo por gozar, castigo por não ter se prevenido, por ter esquecido da pílula (que falha!)… Castigo pela falta de cuidado do parceiro que não colocou a camisinha, castigo por querer ter parto vaginal, castigo por ter virado mãe cedo, castigo por ser mãe e querer ter voz.

C: O que você gostaria de dizer, para concluir?

Nathalia: Gostaria de fazer uma reflexão: até na faculdade dita “mais libertária de todas” as pessoas olham com cara de susto pra uma jovem grávida. As pessoas se espantaram quando eu disse que bancaria minha gravidez por escolha própria. As pessoas ficam surpreendidas quando uma mulher se sente dona do próprio corpo, seja pra abortar seja pra ter filho na “hora errada”.

Mas não posso deixar de dizer aqui que tive opção de escolha… Tenho condição financeira, tenho um companheiro presente e pude retomar meus estudos, e eu sei que essa não é a realidade da maioria.

Ademais, gostaria de dizer que frases como “um bebê cuidando de outro bebê”, “que carinha de menina”, “quantos anos você tem?” são adultistas e preconceituosas. Que um dia as mães jovens possam sair às ruas sem serem questionadas sobre sua vida privada.

 

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Mari

    Muito obrigada por tudo o que disse, Nathalia <3

    Também sou uma mãe jovem e entendo perfeitamente o que você descreveu como assédio. Tenho 21 anos (pareço ter 16) e ainda me incomodo muito com todos os olhares (tortos), perguntas e conselhos que disparam contra mim.
    Eu estava conhecendo o feminismo quando engravidei e, por mais confiante que estivesse sobre, logo fui completamente esmagada pelo nosso ~querido~ patriarcado e sua dose diária de machismo e adultismo.
    Apesar de todos os meus privilégios de garotaclassemédia e apoio/respeito/proteção dos meus pais, minha gravidez foi um pesadelo. A crueldade de algumas pessoas me incomodava tanto que aos poucos fui me perdendo, ficando invisível. O diagnóstico de depressão pós parto foi apenas a cereja do bolo.
    Me reencontrar em meio ao caos foi (e sempre vai ser) muito difícil. Me reconhecer como mãe e feminista fez toda a diferença para mim.

    A chegada do meu filho também foi transformadora. E escrever sobre/ lutar contra esses preconceitos é quase uma obrigação agora.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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