19 de setembro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
[SÉRIE VISIBILIZAR] Assexualidade

[*Recebemos alguns comentários de meninas assexuais criticando a definição bruta originalmente escrita. Por ser uma crítica pertinente, o trecho em questão foi editado. Obrigada pelo toque!]

Muito se fala, hoje em dia, sobre as sexualidades e formas de amar fora do padrão (aquilo que é considerado normal na sociedade). Mesmo que ainda haja muita discriminação, há também cada vez mais espaço para discussão e luta.

O modelo tradicional de relacionamento erótico-romântico é um homem cis e uma mulher cis monogâmicos e, dependendo da idade, um filho menino e uma filha menina (talvez um cachorro?). Qualquer coisa diferente disso é considerada fora do padrão. Isto é, se forem duas mulheres cis, se forem um homem trans e uma mulher cis, se for uma relação de poliamor, etc, a sociedade já olha de um jeito torto, em maior ou menor grau. Isso também acontece com mães solteiras, por exemplo. E acontece muito também com pessoas que a sociedade parece não acreditar que existem: as assexuais. Ok, antes de mais nada, vamos ao termo: ASSEXUAL e, pelamor, não confunda com assexuado.

Pessoas assexuais, em definição bem bruta, são aquelas que não sentem atração sexual*. Essa falta de atração não significa necessariamente que a pessoa não faça sexo ou que ou que não se masturbe. Isso varia de assexual para assexual: alguns simplesmente não sentem falta de sexo, outros sentem total repulsa. Aquilo que é considerado comportamento sexual também varia. Algumas pessoas assexuais se sentem desconfortáveis mesmo apenas com beijos, o que pode não ser um problema para outras. O grau de assexualidade de cada uma e a maneira como isso irá se manifestar e afetar a vida da pessoa varia em cada uma.

Mas eu sou demissexual, como já escrevi a respeito aqui. Considerando o quanto o assunto já é invisibilizado, é essencial dar voz a essas pessoas e deixá-las explicarem por elas mesmas como é ser assexual e de que forma isso afeta suas vidas. Por isso, para este texto, conversei com a Thais (21 anos), a Fernanda (19 anos) e a G.C. (22 anos).

Assim como para demissexuais, uma sensação constante nas pessoas assexuais parece ser a inadequação. Thais nunca teve experiências sexuais, pois se sente desconfortável em situações sexuais: “Até beijar é meio estranho pra mim, porque é tudo muito mecânico. Fora que, quando eu saio pra balada e essas coisas, ou tô num lugar que a galera tá a fim de se pegar e tal, eu me sinto quebrada e pressionada a corresponder a essa expectativa e superestimação dos comportamentos sexuais. E, por vezes, eu acabo cedendo à pressão e ficando com alguém pra me sentir mais “normal” e é horrível porque logo depois eu me sinto mal.” Essa tentativa de se adequar e fazer o que as outras pessoas fazem – as sexuais, consideradas normais –, muitas vezes, acaba sendo pior para uma pessoa assexual. Como a assexualidade é natural e não uma escolha, a pessoa não pode simplesmente decidir ser diferente, de modo que essas tentativas acabam forçando uma barra desnecessária e que só piora.

Ilustração por Lila Cruz

Ilustração por Lila Cruz

Para Thais e muitas outras assexuais, a recepção das pessoas sobre o assunto é também complicada. Enquanto demissexuais costumam ser taxadas de “frescas” ou exigentes, assexuais costumam ser vistas como grandes aberrações ou pessoas traumatizadas. Por ouvir que “é só uma fase”, “é mentira” ou que “apenas não encontrou a pessoa certa”, Thais se sente inibida e até ridícula ao explicar que é assexual. Ela conta que pessoas leigas, quanto ela comenta, ficam chocadas, tentam explicar como sexo é bom, não entendem como ela não tem interesse em sexo, e perguntam se ela tem algum trauma, se já foi estuprada. Além de ser uma reação invasiva, isso é muito pouco (pra não dizer zero) empático. Se uma amiga resolve te dizer que é assexual, a reação adequada é ouvi-la e respeitá-la. Questionamentos como esses só aumentam a sensação de inadequação de uma assexual, que logo se arrepende de ter começado a falar no assunto. E aí, desiste e o assunto continua invisível.

Fernanda conta que nunca teve atração por sexo, por mais que tentasse, e que sempre imaginou uma relação com carinho e selinhos – não gosta nem de beijos, acha tediosos. Para ela, um relacionamento exige confiança, carinho e respeito e, quando ela fala que é assexual, muitos perdem o interesse ou não respeitam, achando que vão conseguir mudá-la. Essa ideia de que se pode mudar a assexualidade da pessoa é também uma forma de silenciamento e de falta de respeito, como a própria Fernanda colocou. Ninguém além de nós mesmas pode definir nossa (as)sexualidade. Por causa dessa incompreensão e da dificuldade que é encontrar alguém que se relacione com ela sem problemas, Fernanda prefere ficar sozinha a se relacionar com quem não a aceita.

Perguntei à Fernanda qual era a maior dificuldade de ser assexual e ela disse o seguinte:

“Dificulta na interação com as pessoas, meus assuntos acabam sendo um tanto diferente da maioria. Geralmente, pensam e falam muito de relacionamentos, pegação, esses tipos de coisas. Como não é uma coisa que me atrai ou que tenho como foco de vida, eu acabo ficando meio de fora. Também tem aqueles que começam a me achar estranha e me afastam.”

Ser assexual, então, não é algo que afeta apenas as relações românticas (para assexuais românticos), mas também as amizades, pois, em uma sociedade que hipervaloriza o sexo, quem não vê graça nenhuma nisso é visto como esquisito. Para G.C., é esta a maior dificuldade:

“Me incomoda muito o fato de hipervalorizarem o sexo na vida do indivíduo. Dizem que sexo é vida, sexo faz bem pra saúde, faz bem pra pele, etc. etc. etc. Não duvido que, para quem seja sexual, sexo faça bem, mas ser sexual não é regra. Nós, os assexuais, também existimos e para nós, ele já nos fez e/ou faz muito mal. Outra dificuldade é a falta de representatividade que nós temos. Nós somos vistos como aberrações, como doença, como anormais. Talvez seja por isso que seja tão difícil se assumir. Numa sociedade em que sexo é VIDA, se assumir assexual parece ser um atestado de infelicidade e solidão. Por esta falta de representatividade, muitos entram em depressão; muitas sofrem violência (física e/ou simbólica) de seus companheiros por não quererem fazer sexo; outros não se assumem nunca; e o pior, acredito eu, muitos acreditam ser doentes.”

Como já dito anteriormente, essa falta de visibilidade provoca julgamentos por parte dos outros e isso acaba fazendo assexuais se sentirem ainda mais excluídas. Isso leva assexuais a tentarem mudar, como a Thais contou e como G.C. tentou também. Embora ela sempre tenha sentido que era “diferente” em questões de relacionamento e se sentisse na adolescência “um verdadeiro ET em meio a tanta gente com os hormônios à flor da pele”, ela tentou ficar com um garoto. Sentia-se extremamente desconfortável com isso, mas se obrigava a querer aquilo. G.C. queria testar seu próprio limite e ver se era realmente assexual ou não e, por isso, tentou sexo também e se arrepende muito. Para ela, foi de extrema importância se entender como assexual: “Antes de me descobrir, [isso] influenciava negativamente [a minha vida], pois eu nunca estava disposta a nada, eu não curtia os momentos, eu não me entregava à pessoa. A pessoa percebia meu “jeito frio de ser” e achava que isso, com o tempo, mudaria. Mas não mudou. Depois que eu me descobri, não entrei mais em nenhum outro relacionamento e estou muito feliz assim.”

Pessoalmente, me identifico com essa fala da G.C., pois senti o mesmo quando me entendi demissexual. Destaco, nesse sentido, a importância de rótulos que nos abarquem. Rótulos costumam ser julgados como limitadores, como caixinhas aprisionadoras, e sempre aparece alguém pra comentar “lá vem mais um nome, mais uma categoria”, mas acontece que, às vezes, eles acabam nos abraçando e nos oferecendo apoio. Foi só quando G.C. se descobriu assexual, que ela pôde viver sua assexualidade sem a angústia de tentar ser diferente disso. Também por esse motivo, a visibilidade da comunidade assexual é importante, pois faz com que pessoas que se sentem dessa forma, desde cedo, não se sintam deslocadas, mas encontrem apoio em um grupo de outros indivíduos como ela.

Vamos repassar uns pontos? Vamos!

1 – Ser assexual não é doença, não é trauma, não é escolha.

2 – Não dá pra convencer a pessoa a não ser assexual. Tentar isso é invasivo, desrespeitoso e insensível. Deixa as pessoas em paz.

3 – Da mesma forma que nem todo mundo gosta de pizza, nem todo mundo gosta de sexo. Aceite.

4 – Assexuais não são pessoas inventando motivo pra se sentirem especiais. Elas existem e só querem empatia e respeito. (E, por favor, não vamos entrar em uma disputa de quem sofre mais. É claro que homossexuais, pessoas trans etc. sofrem de um tipo de discriminação muito latente, pois são mortas diariamente apenas por serem quem são. Assexuais não são assassinadas por aí, mas apagamento também é sofrimento. Não diminua a dor dos outros.)

Para finalizar, deixo aqui umas considerações da G.C.:

“Precisamos falar sobre assexualidade como mais uma das maneiras da sexualidade humana se desenvolver. Precisamos dar voz aos assexuais, mesmo que por inúmeros motivos, não estejamos prontos ainda para nos assumirmos publicamente. Precisamos nos sentir acolhidos por um movimento que realmente entenda a gente, pois a vida toda nos sentimos às margens dos grupos sociais na escola, igreja, família, enfim, em quaisquer lugar onde haja socialização. Precisamos derrubar estereótipos, derrubar a imagem triste, solitária e doente que o assexual carrega. Podemos ser felizes, sim, sem sexo. Parabéns e muito obrigada por este espaço!”

De nada, miga!

Como esse assunto é mesmo muito invisibilizado, sempre tem muito pra falar e, por isso, muito fica de fora. Tentei fazer um apanhado geral aqui. Se quiser ler mais sobre o assunto, indico grupos de internet para conversar com outras pessoas que se identificam assim também, e os links:

assexualidade.org

forum assexual

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

  • Nina

    Amo vocês <3

    Obrigada por este texto!

  • Lari Sapinho

    ai miga, só pecou na definição bruta, né? pq tem assexual que se sente invalidado por gostar/fazer sexo :/
    assexuais não sentem atração sexual, ponto. ampliando o conceito, alguns sentem atração em determinadas circunstâncias. mas fora isso tá lindo, tá didático, e essa visibilidade que tá surgindo em vários lugares tá maravilhosa <3

  • Paula Soares

    Adorei o texto, é sempre bom ter mais conhecimento sobre a diversidade e seus textos são simples e possibilitam, assim, que pessoas leigas consigam compreender também. A imagem do Sherlock ficou demais, apesar de que, no fundinho do meu coração, eu gostaria é que ele foi gay e ficasse com o John!

  • Sabrina D

    Capitolina, queria que vocês existissem quando eu era adolescente. Cresci lendo revistas adolescentes que só falavam de garotos e sexo (com garotos), e sempre me senti “quebrada” porque nunca me interessei por sexo, nem beijo, essas coisas. Hoje sei que sou assexual romântica, mas só me descobri graças à internet, isso lá pros meus 18 anos, e foi um alívio imenso saber que existiam pessoas como eu, que eu não estava sozinha. Saber que vocês existem e falam sobre isso e tantas outras coisas importantes que muitos tentam invisibilizar me deixa muito, muito feliz mesmo. Obrigada pela matéria e pelo site lindo. Amo vocês <3

  • http://cosmocinese.blogspot.com.br/ Bruns

    Eu acho maravilhoso como é maravilhoso na tv e nas musicas o sexo mas eu sei que não é assim. Quando eu não sabia que eu era diferente, eu achava que eu era hetero ou então lesbica enrustida. E pior eu julgava algumas amigas achando que elas eram cabeças de vento e estavam forçando a barra para serem como os adolescentes da tv mas hoje eu sei que elas tinham algo que eu não tinha e ainda não tenho. Quando eu me apaixonei no ensino médio, o cara até quis me beijar mas eu não entendia o que raios estava acontecendo pq ele não foi direto comigo e acabou que eu acabei com a situação. Se apaixonar nada tem haver com sexo e sexo pode nada ter com amor. Não é como se a gnt odiasse sexo, é só que a gnt não chega lá sem seguir passos direitinho. Alguns assexuais até tem fazem sexo mas é tudo como numa dança onde vc aprende os passos e tenta memorizar, não existe aquele ~clima~ do meu lado.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Gostei bastante

  • NixieNyan

    Me sinto tão feliz por ver o assunto da assexualidade sendo abordado, por as pessoas começarem a ter conhecimento de que nós também existimos.
    Não sofremos tanto quanto outros, mas somos praticamente considerados unicórnios. Seres que só existem na ficção.
    Invisíveis.
    Eu me torturava por não ser normal, por não me interessar pelas festas e pegação. Pelos garotos ou garotas.
    Durante o ensino médio sai com caras apenas para atenuar a pressão da colegas, pra que me deixassem em paz.
    E sempre me sentia mal depois. Só muito tarde que fui descobrir que eu não era anormal. O que eu era tinha um nome, existiam outras pessoas como eu pelo mundo. Foi somente quando descobri esse rotulo que me senti confortável na minha própria pele.
    As vezes rótulos não aprisionam, mas libertam.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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