2 de março de 2017 | Se Liga | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Sertanejo e sofrência: o que as mulheres estão cantando?
feminejo

2016 acabou, graças às deusas. 2017 chegou. E se teve uma frase que repeti no finalzinho de 2016 foi: “a melhor coisa que aconteceu esse ano foi descobrir as músicas sertanejas cantadas por mulheres”. Ou o “feminejo”, como uma parte de quem estava ouvindo-as começou a chamar. E eu não estava brincando, se você ainda não parou para ouvir essas mulheres incríveis, esse pode ser o momento para fazê-lo. E se já parou e sabe do que eu estou falando, vem cá, vamos bater um papo sobre as letras dessas canções.

Vamos começar nomeando-as?

1) Nascida em Cristianópolis, interior de Goiás, a primeira que eu destaco é Marília Mendonça. Ela começou a compor aos 12 anos de idade e suas letras fizeram sucesso na voz da dupla Henrique e Juliano e do cantor Cristiano Araújo. Aos 20 anos, em 2015, gravou seu primeiro DVD ao vivo em Goiânia e, em 2016, o segundo DVD ao vivo em Manaus. Dona de uma voz inesquecível, suas canções se destacam por ter letras fortes, poéticas e regadas de muita sofrência, mas não só.

Na canção Folgado, o recado é dado para um homem que entrou na vida da narradora da canção. Lamentando o momento que o chamou de “namorado”, ela repete a famosa frase que é ouvida por nós mulheres durante toda a vida, mas nesse caso é direcionada a um homem “tô vendo, se continuar assim, cê vai morrer solteiro”.

Digam-me, quantas vezes você leitora ouviu isso por algum comportamento seu? É saboroso ouvir a frase direcionada a um homem, não é?

A personagem dessa canção se coloca de forma autônoma e sem aceitar ordens de alguém que acabou de entrar na sua vida. Brincando com a metáfora do travesseiro, ela diz que ele chegou na cama dela e já quer o travesseiro para ele. Incrível, não é mesmo? E ainda fala sobre viver do jeito que quer…

“Eu nunca tive lei
E nem horário pra sair nem para voltar
Se lembra que eu mandei você acostumar?
Tô te mandando embora, melhor sair agora
Não vem me controlar…”

 


Já em Infiel, que deve ser a minha música preferida até agora, a compositora traz uma canção que não tem como não mexer no coração de todo mundo que já foi traído. Os cornos e cornas de plantão podem se juntar para se esgoelar cantando essa música. A letra é linda, faz a gente reviver vários sentimentos. E o faz por quê? Porque a letra traz um diálogo não só com o infiel, mas com a amante da vez. Veja só…

Nos primeiros versos da canção, ela se dirige à amante, conta para ela que hoje ele – o infiel – não terá horário para voltar para casa. Afinal, ela descobriu faz um ano, mas só agora tomou coragem de tomar uma decisão. Adverte para a amante, entretanto, que ela pode estar feliz achando que ganhou uma disputa, mas a verdade é “não perdi nada, acabei de me livrar”. E não bastasse essa conclusão importantíssima sobre não ser uma perda, mas um livramento, ela ainda diz que a disputa por amor só serviu para machucar e que o prêmio que a amante recebe é apenas um traidor. Ou seja, aquele que foi objeto da paixão, desejo e disputa, agora é reduzido a um traidor, a ação de trair é ao que ele se resume nesse momento.

Já para o infiel, aquele que saiu chorando, a mensagem é:

“Ê infiel, eu quero ver você morar num motel
Estou te expulsando do meu coração
Assuma as consequências dessa traição
Iêiêiê infiel, agora ela vai fazer o meu papel
Daqui um tempo você vai se acostumar
E aí vai ser a ela quem vai enganar
Você não vai mudar…”

Ao assumir que agora é a mulher que era amante toma o lugar “oficial” no relacionamento com o traidor, mas que em breve ele vai se acostumar e será a outra que será traída, a canção traz uma mensagem importantíssima para as mulheres que se relacionam com boys lixos que não respeitam os acordos dos relacionamentos e as traem: o problema não está nelas. A única culpa da traição é daquele que trai. Ou seja, a mulher traída não tem que buscar os problemas nela. Nem se lamentar da relação que ele está estabelecendo, porque, caríssimas, provavelmente esse boy vai repetir as mesmas atitudes com outras mulheres. Ele não vai mudar…


2) A primeira dupla que conheci nessa onda foi Maiara e Maraísa. Elas chamaram a minha atenção por serem irmãs e gêmeas! Nascidas em 1987, em São José dos Quatro Marcos, no Mato Grosso, o caminho percorrido por elas foi cheio de preconceito. Ouviam o tempo inteiro que dupla de mulheres cantando sertanejo não iria para frente. Cantaram pop por um período e se lançaram na música sertaneja em 2005. No ano de 2015, gravaram o primeiro DVD ao vivo em Goiânia. Foi quando a canção 10% virou hit nacional.

Em 10%, a personagem da canção é uma mulher que está no bar “escorada na mesa” e que não é ajudada pelo garçom, com quem ela estabelece um diálogo na canção. Ela é uma mulher autônoma, que frequenta o bar, mas nem por isso deixa de sofrer por amor. Chegando à conclusão de que se fosse uma ligação o amor sentido seria engano, pede-se ao garçom trocar o DVD já que

“…essa moda me faz sofrer e o coração não guenta,
Desse jeito você me desmonta,
Cada dose cai na conta e os 10% aumenta
E cê me arrebenta
E o coração não guenta…”

A letra da canção é interessante não só por trazer uma mulher autônoma, mas que está no ambiente público, que frequenta o bar, toma muitas doses, bebe até quase cair da mesa. É, portanto, bastante representativo de uma geração de mulheres que ocupam diferentes lugares de sociabilidade, sejam sozinhas ou acompanhadas.

3) A terceira que destaco é Naiara Azevedo. Nascida em 1989, em Farol, Paraná, ela ficou conhecida como “Naiara Azevedo defendendo a mulherada”, porque em 2011 escreveu a música Coitado em resposta a música Sou Foda. Aliás, graças às deusas tínhamos Naiara Azevedo para responder uma música machista dessa à altura, né, mesmo?

“Coitado!
Se Acha Muito Macho
Sou eu que te esculacho
Te faço de capacho
Se acha o bicho!
Nem era tudo aquilo que contava pros amigos
[…]
E não se esqueça que no final de tudo
Quem vive de putaria,
Leva fama de chifrudo
Antes de eu me esquecer
Só pra você saber…
Todos, todos que provaram são melhores que você”

Depois dessa resposta, cantando principalmente canções sobre traição, ficou conhecida com a música 50 reais, que diz ser baseada em uma história que aconteceu com ela e que canta junto de Maiara e Maraísa. Na canção descreve-se a descoberta da traição do parceiro com sua amante, que por acaso está no mesmo motel em que eles passaram a lua de mel juntos.

A forma da narradora da canção sair por cima da situação é tirando 50 reais do bolso e dizendo que o dinheiro é para ajudar a “pagar a dama que lhe satisfaz”. Difícil, não é mesmo? Não há troca de tapas, puxadas de cabelo, nem culpa apontada só para a amante, o que é dito na canção é que o marido e sua amante não precisam se vestir porque ela já viu tudo que precisava ver. Imaginem só, o equilíbrio emocional para sair desse jeito de uma situação dessas? Ave Maria…

Em Nó na garganta, a letra da canção debruça-se sobre o término de um amor que acontece por falta de confiança. Apesar da sensação de que poderá amar o objeto da sua paixão a vida inteira, o orgulho e os sentimentos feridos são colocados em primeiro plano. A mensagem é que se o sujeito amado não pensou na personagem que narra a canção, não haverá outra chance:

“Um nó na garganta que de mim não sai
Palavras são palavras, atos valem mais
Não consigo perdoar, não vai ter outra vez
O meu brilho no olhar e a lágrima desfez
Esse nó na garganta que de mim não sai
Posso te amar pra sempre mais não quero mais
O tempo vai passar então apaga o que me vez
E por mais você queira não vai ter segunda vez…”

 

O que elas têm em comum?

Depois dessas canções trazidas por mim, já deu para notar que essas mulheres não estão para brincadeira, não é mesmo? O que podemos nos questionar é que cenário permite que essas duplas e cantoras surjam?

Lembrando que a composição na música brasileira é muito associada aos homens, e não às mulheres, como escrevi em outro texto sobre a Leci Brandão. É interessante notar que há uma mudança social que permite que essas figuras apareçam, não só como compositoras, mas também como intérpretes, o que no caso da música sertaneja historicamente também tem se centrado nos homens.

Na maioria dessas canções, o amor acaba sendo tematizado, bem como as traições, junto das sofrências – já características da música sertaneja, mas como pontuado a respeito da canção de Maiara e Maraísa, os ambientes ocupados por essas mulheres já não é a casa. Além disso, muitas das canções trazem espécies de revanches e/ou respostas aos homens e ao que as mulheres estão acostumadas a ouvir.

É claro que por estarem em ambientes ainda majoritariamente masculinos, encontraremos canções que contradizem um pouco aquilo que podemos enxergar de feminista nessas canções, mas podemos arriscar que para ocupar um lugar hegemonicamente masculino, não se consegue chegar chutando a porta e revolucionando tudo, não é mesmo? Além do mais todas e todos carregamos nossas próprias contradições, o que não reduz o trabalho belíssimo que essas mulheres têm feito, o que vem sendo regado por muito esforços e luta para driblar os preconceitos encontrados nos ambientes de música sertaneja e na sociedade como um todo.

É válido, portanto, dizer que essas canções são espécies de retratos da sociedade em que vivemos hoje, havendo uma maior abertura para as mulheres se posicionarem, mas também abrindo espaço para que elas exerçam influência sobre parte da sociedade(1) que consome essas canções(2).

 

 (1) O artigo de Starling e Schwarcz me ajudou a pensar e formular este texto: http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13494
(2) Sites consultados para escrever esse texto:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Naiara_Azevedo
https://www.maiaraemaraisa.com.br/
www.mariliamendoncaoficial.com.br
naiaraazevedo.com/

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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