15 de junho de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Seu pai agora é hype

norm [Converted]

Ilustração: Laura Viana.

Isso mesmo, jovem hipster, você foi desbancado pelo seu pai. Aquele cara de polo, calça jeans meio esquisita e tênis de corrida pra quem você sempre torceu o nariz agora é muito mais descolado que você. Pelo menos é o que dizem os grandes sábios fashionistas.

Depois de alguns anos de muito “ladygaguismo”, o mundo da moda decidiu que tanta produção é esforço demais, e como não tem nada de cool em se esforçar demais, resolveu trocar os paetês, volumes e color blocks por moletons cinza-mescla. Ou seja, o negócio da temporada é ser normal. Só isso. E, como sempre dá pra ficar mais tosco, além de criar uma tendência em cima de um conceito tão banal, também deram nome: normcore.

O termo foi desenvolvido lá por setembro do ano passado por uma agência de tendências – coisa que eu nem sabia que existia até semana passada – chamada K-Hole, mas tomou força mesmo no começo desse ano, influenciando passarelas internacionais de outono-inverno de marcas como Comme des Garçons, que apostou em releituras acinzentadas dos suéteres tricotados por avós mundo a fora; Dior, com peças completamente lisas e sem detalhes; e o surreal desfile da Chanel com seu supermercado cenográfico – dá pra ficar mais dia-a-dia que isso?  – que, inclusive, acabou saqueado por vários grandes nomes da moda (detalhe irrelevante, mas essa história é boa demais pra não relembrar).

Além disso, se tornou cada vez mais frequente encontrar nos blogs de moda de rua looks compostos por moletom ou com cara de pijama. Presenciamos a volta daquela touca meio esquisita com a aba virada que todos nós tivemos lá pelos cinco anos de idade, e apareceu a chance de tirar do armário o Adidas velho com cara de adolescência. De repente, ficou difícil diferenciar as blogueiras de moda do trabalhador classe média comum – pelo menos até olhar o preço do look de cada um.

Até aí, já vimos muitas outras situações em que o mundo da moda tentou dar aquela colonizada no que grande parte da população usa – e que, quando usa, é chamada de brega – e transformar em fashion statement: até hoje não engulo quando, a cada ciclo de uns quatro anos, alguém inventa que a pochete “voltou com força total nessa temporada!” – e lá vai a Louis Vuitton fazer pochete! – ou que munhequeira agora é lindo. O problema não está nesses itens por si só: se você gosta de pochete, ótimo! Divirta-se. O chato é que a indústria – mídia e produtores unidos – resolve se apropriar daquela peça em que passaram tanto tempo dando porrada e transformá-la em algo maravilhoso em questão de dias. É praticamente uma demonstração de poder, das bem cruéis.

Mas será que dá pra ler o normcore apenas como uma ideia completamente ridícula? Afinal, pode ser até bem interessante ver a moda se aproximando das roupas do dia a dia de todo mundo como um todo, não apenas em peças isoladas, ou simplesmente tentando ignorar essa pressão esquisita que rola principalmente em torno de nós millenials – peço perdão pelo uso desse termo também odiável – pra que sejamos floquinhos de neve únicos e especiais que precisam sempre arrumar uma forma de se mostrar diferente para comprovar nossa autenticidade e capacidade criativa. Seria incrível, se não fosse feito de maneira tão arrogante: tirando o fato de que é baseado em uma mentalidade de “sou legal demais pra me esforçar tanto”, é até bem bacana poder ter Jerry Seinfeld e minha mãe como ícones de estilo.

Tags: , ,
Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Pingback: O Parodoxo do Hipster | Capitolina()

  • Pingback: Retrospectiva 2014: #tendências - Capitolina()

  • Maria Luiza Neves

    Eu imagino o quão difícil deve ser trabalhar com moda pelo simples fato de que, para alguns do ramo, é necessário criar um termo para algo… comum. Quem nunca foi de pijama na padaria? Quem nunca vestiu um moletom pra ir ao shopping simplesmente porque era o que tinha no armário? Termos e tendências tornam a indústria da moda algo vazio.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos