20 de fevereiro de 2016 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Sexo, “preliminares” e prazer: quais os segredos por trás do orgasmo?

Observação: o texto foi escrito por uma mulher cis, logo, ainda que eu tenha tentado abarcar a vivência de mulheres trans e de homens trans, posso ter falado bobagens. Caso o tenha feito me digam, me corrijam, por favor!

Há muitos segredos por trás da sexualidade. Ou podemos dizer por trás do sexo. Ao contrário do que pensamos, nem sempre o sexo foi concebido da mesma forma. E até mesmo as concepções de prazer se modificaram com o tempo.

Se hoje temos como algo certo que é muito mais fácil para pessoas que têm um pênis ter orgasmos do que para pessoas com vagina, segundo o historiador Thomas Laqueur o orgasmo foi concebido como algo necessário para que as mulheres engravidassem até aproximadamente o século XVII. O que nos leva a pensar que gozar não era algo mais comum aos homens cis do que às mulheres cis.

Tal exemplo serve apenas para que saibamos, mais uma vez, que grande parte do que achamos ser natural faz, na verdade, parte de uma construção social e histórica. E que o sexo, assim como concepções de gênero ou de sexualidade, tem significado dentro de um determinado contexto.

Diante disso, acharmos que é difícil ter orgasmos é algo que precisamos problematizar. Podemos começar pensando na concepção do que é a prática sexual para nossa sociedade.

Se chegarmos em bancas de jornal e vermos os anúncios de como fazer sexo bem ou levar a sua parceira “à loucura”, nas poucas revistas que se dirigem aos homens geralmente fala-se para caprichar nas “preliminares”.

A ideia de que o sexo oral, beijos e carícias são apenas preliminares tem por trás a concepção de que o verdadeiro sexo acontecerá quando a penetração ocorrer.

Opa! Será que é isso mesmo?

Um olhar mais atento para esse tipo de ideia e podemos notar que há aí não apenas uma ideia de sexo tradicional e heteronormativo, no qual a norma é começar com sexo oral e partir para a penetração, mas também que o sexo só é sexo se há um pênis envolvido.

Bom, se há uma norma heterossexual por trás dessa concepção e se convivemos numa sociedade machista, talvez fique bem esclarecido a quem essa lógica beneficia ou pelo menos a quem deveria beneficiar. Sim, aos homens cis. Afinal, essa ideia de que há algo inicial, para se chegar ao finalmente, pode fazer com que o sexo oral ou o momento em que iniciamos o ato sexual não receba a atenção devida.

É sabido hoje que um número expressivo de mulheres cis — algo em torno de 70% — apenas atinge o orgasmo com fricção do clitóris ou via sexo oral. Se tais mulheres gozam no que é chamado de “preliminares”, será que não há algo de errado com essa definição do que é sexo? Eu arriscaria que sim.

Voltando novamente a dados históricos, ainda segundo Laqueur, Freud entendia que o prazer completo só ocorria se fosse via penetração. Se ocorresse apenas orgasmos clitorianos, entendia-se que não havia ocorrido o amadurecimento da pessoa em questão e que algo estava errado.

A pergunta que me faço é: nos afastamos desse tipo de pensamento?

Às vezes, tenho a impressão que não. Mas calma, que a gente se ajuda.

Talvez o grande primeiro passo para encararmos a dificuldade de ter orgasmos esteja relacionada a algo chamado: autoconhecimento. Sim, pessoas! É só quando nós temos conhecimento sobre o nosso corpo que conseguiremos guiar outro alguém para nos dar prazer. Quantas vezes vocês que têm uma vagina ou mesmo todos que temos um ânus pegaram um espelhinho e olharam para ela/e? Com muita curiosidade, tocaram e viram o que faz parte de seus corpos? Ou de vocês? Pois é, isso é importante não só para facilitar o prazer sexual, mas também para checar se vai tudo bem com a saúde. Observem-se, toquem-se.

Também é preciso ter em mente algo crucial: o diálogo. É importante falar antes, depois e durante o sexo sobre o próprio sexo. É preciso esclarecermos do que gostamos. Ou que ainda não sabemos exatamente do que gostamos. Não se pode ter vergonha de dizer as curiosidades, os receios, as inseguranças. E sabe, se a pessoa com quem você transar for uma pessoa bacana, não haverá problema nenhum em falar sobre isso.

Não finjam orgasmos. É bem mais interessante falar sobre isso do que fingir que está tudo bem. Conversar com outras pessoas e perguntar se o que acontece com você também acontece com elas é interessante. Essa troca de experiências de forma sincera entre amigas — e também amigos — faz parte desse conhecimento de mundo que também se faz necessário para sentirmos prazer sexualmente.

Não se force a nada, não se sinta mal por demorar um pouco mais para ter orgasmo do que acha que outras pessoas demoram. Não tenha vergonha se você nunca conseguiu ter um orgasmo na companhia de outra pessoa ou mesmo sozinha. Não achem que a pessoa que está fazendo sexo oral em você está cansada porque você não chega “lá” nunca. Tudo isso pode ser paranoia e o bom sexo é feito de trocas e prazeres mútuos, logo essa não deve ser uma questão.

Sabem, a grande verdade é que muitas pessoas nunca gozaram e muitas têm vergonha de admitir isso. Se por um tempão a gente não falava sobre isso porque era tabu, agora parece que há uma certa “moda” em falar sobre isso, o que às vezes gera desconforto e certa vergonha de contar sobre as próprias experiências.

Ademais, vamos parar de achar que sexo necessariamente envolve penetração, seja por pênis, dedos ou seja lá o que for. A penetração pode até ser bem-vinda — ou não —, mas não precisa ser o crucial. E não deveria ser o mais importante nem para quem tem pênis.

O nosso corpo é uma verdadeira fonte de prazer, invente! Crie! Faça uso de vendas, de música, se sentir-se bem brinque de entregar-se a outra pessoa que você confia, vale deixar vendar-se, vale tudo, mas vamos descobrir o que há por trás, dos lados e por dentro de nós mesmos. Vamos viver os prazeres que a vida sexual pode nos oferecer (se assim quisermos).

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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