23 de fevereiro de 2017 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração:
Artista da Semana: Shirin Neshat

Já falamos aqui na revista sobre a falta de representação feminina nos museus de arte. A história tem sistematicamente excluído mulheres de seus livros e estudos. Certamente não vai ser hoje que historiadores vão reescrever o passado, mas nós temos um papel importante nesse processo. Precisamos conhecer as mulheres artistas, precisamos deixar de estudar apenas os artistas homens.

Agora, você consegue pensar em alguma artista visual iraniana? Se você não conhece nenhuma, não se preocupe, a história da arte não faz justiça ao representar as mulheres, muito menos aquelas que compõem minorias. Já falamos sobre a Marjane Satrapi e sobre sua obra “Persepólis”. Hoje, vou te apresentar Shirin Neshat, uma artista contemporânea iraniana que discute em seus filmes e fotografias o islamismo, o mundo ocidental, os empates entre feminino e masculino, a vida privada e pública entre outros temas extremamente presentes e importantes na discussão da modernidade.

“A arte é a nossa arma. A cultura é nossa forma de resistência.”

Nascida em 1957, a Shirin se mudou para os EUA com apenas 17 anos para concluir seus estudos. Formou-se na Berkley, casou-se com Kyong Park e passou a residir em Nova Iorque. Nos anos 90, a artista voltou para sua terra natal e deparou-se com um Irã totalmente diferente pós revolução.

“Eu fiquei muito interessada, enquanto enfrentava meus dilemas pessoais e questionamentos, fiquei imersa no estudo da Revolução Islâmica — como, realmente, ela transformou de maneira incrível as vidas das mulheres iranianas.”

A volta às suas origens e o estudo intenso sobre seu país foi fundamental para a formação do processo criativo de Shirin. A partir dos questionamentos e dilemas pessoais que se adentrou, a artista passou a utilizar seu trabalho artístico para discutir e se aproximar dessa realidade tão presente, mas ao mesmo tempo, tão distante.

Mulheres com seus véus e armas retratadas nas incríveis fotografias preto e branco foram o primeiro trabalho mundialmente reconhecidos da artista. A série “Women of Allah” (Mulheres de Alá) busca ilustrar o envolvimento feminino na guerra entre Irã e Iraque e na Revolução Iraniana (Revolução Islâmica). Participação muitas vezes negligenciada, foi, para a artista, uma grande inspiração para sua produção.

 

 

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“Women of Allah” 1994 Shirin Neshat

Entretanto o que marcou o mundo ocidental, e o oriental, não foram essas fotografias e sim a produção audiovisual da artista. Shirin sempre produziu obras multimídias que envolvem e deslocam o espectador para uma nova perspectiva. O trabalho “Turbulent” (1998) é um bom exemplo, a vídeo-instalação discute muito bem os conflitos de identidade para mulheres na cultura muçulmana. A artista põe em contraponto as estruturas sociais de seu país de origem, debatendo visualmente uma questão pessoal, mas também interna ao seu país de origem. A construção se dá a partir da criação de dois ambientes: o cantor com uma platéia de homens e a cantora no auditório vazio.  O mais impressionante é o modo que ela se apropria da linguagem cinematográfica para criar um diálogo com o espectador, inovando a própria mídia.

Por fim, considerado o mais importante da sua produção temos  “Women Without Men” (2009), filme baseado no romance de Shahrnush Parsipur de mesmo nome. O filme se passa em Teerã durante o verão de 1953, durante o golpe apoiado pelo governo norte-americano e britânico que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh, e colocou o Xá no poder. A história acompanha a vida de quadro iranianas que representam diferentes tipos de mulheres, uma mulher de meia-idade presa a casamento, uma jovem prostituta, uma mulher politicamente consciente, e uma mulher que permanece alheia ao contexto político social.

“Esse filme tentou fazer um balanço entre contar uma história política mas também uma história feminina.”

Narrativa que te agarra e não vai te soltar mais, acompanhada por uma direção de arte que parece criar uma beleza sem fim. É assim que o filme te marca. Não é convencional, não é hollywoodiano, mas te prometo que você não vai conseguir desviar o olhar. Talvez seja pela falta de familiaridade ou mesmo a proximidade de discussões de gênero que também são presentes na nossa realidade.

Certamente esse texto não vai conseguir demonstrar a grandeza da produção de Shirin Neshat, mas espero que vocês saiam daqui hoje querendo saber mais, ler mais, conhecer mais sobre ela e as outras artistas iranianas que permanecem produzindo apesar de todos os empecilhos.

“Eu então descobri porque eu me inspiro tanto nas mulheres iranianas. Que, apesar das circunstâncias, elas foram além dos limites. Elas confrontaram a autoridade. Elas quebraram todas as regras de todas as maneiras – da mínima à máxima E mais uma vez, elas se provaram. Eu estou aqui pra dizer que as mulheres iranianas acharam uma nova voz, e a voz delas está me dando minha voz.”

(Os trechos foram retirados do TED Talk, Shirin Neshat – Arte no exílio, você pode encontrar a transcrição completa em português aqui)

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Gabriela Sakata
  • Ilustradora
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Gabriela, 24, moro em São Paulo/SP. Gosto de assistir documentários e umas bobagens no Netflix, ficar no Tumblr e assistir videos no Youtube. Além disso adoro achar músicas novas pra escutar, conversar sobre política, jogar Age of Empires ou Sims e ler teorias da conspiração. Estou cursando Artes Visuais e tenho um instagram com minhas ~~artes~~ (@bbbibilandia).

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