11 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Fabiana Pinto
Silenciar nem sempre faz mal: o silêncio como autoconhecimento e empoderamento de mulheres

“O silêncio é a base de todo o movimento. Se essa base de descanso, se essa base de potencial não é cuidada, não é nutrida, não é conhecida, nosso movimento se torna louco, insano. […] Mas como é uma loucura compartilhada nem parece loucura, né?” – Marcia Baja

Quando o tema da edição de novembro foi escolhido, eu estava conversando com um amigo querido, e imediatamente pensamos em Silêncio como pauta necessária a ser debatida, e é exatamente isso que será tratado neste texto. Pessoalmente, escrevo muito emocionada por ter a oportunidade de disseminar ensinamentos que aprendi, e que são tão necessários a todos os seres humanos, principalmente a nós,mulheres. Talvez, você se pergunte o que o silêncio pode ensinar às mulheres? Em meio a campanhas de “Vamos Fazer um Escândalo” e o não silenciamento de mulheres, quando pensamos em silêncio e mulher, isso só pode ser maligno para nós, certo? Bom, nem sempre.

O silêncio pode nos trazer ensinamentos e benefícios, se o abraçarmos e conseguirmos utilizá-lo como um meio de aprendizagem. Quando a ausência de som, não mais nos incomodar e nem nos causar desconforto, será possível conhecermos a nós mesmas de uma forma mais lúcida e simples, e assim termos uma nova visão sobre o mundo e as relações que construímos. Logo, existe sim o empoderamento de mulheres através do silêncio, e duas grandes mulheres já provaram isso. São elas Marcia Baja e Jetsunma Tenzin Palmo, que ensinam através da meditação, a lidar melhor com questões da vida e relacionamentos.

Quando comecei a praticar meditação, me parecia algo impossível: Afinal qual era o objetivo daquilo? Para que vou ficar sentada de pernas cruzadas no chão? Por que preciso estar em silêncio? E muitas outras questões acabam surgindo, mas gostaria de pedir a quem estiver lendo este texto e, não tiver nenhuma familiaridade com meditação, práticas budistas ou qualquer outra coisa do gênero, que simplesmente não se preocupe. Meditação não tem nada a ver com religiosidade, e nada mais é do que o ato de sentarmos em silêncio, sem nenhuma meta, cobrança ou coisa do tipo, simplesmente sentar em silêncio. Parece simples, certo? E é mesmo.

Nessa entrevista concedida a O Lugar, Marcia Baja fala sobre meditação e o que podemos aprender através do silêncio, quais benefícios que o sentar em silêncio traz para as nossas vidas e relações com o mundo externo. Com sensibilidade e lucidez, ela destaca a importância do autoconhecimento para entendermos melhor o outro e aprendermos a nos relacionar de forma sadia.

“[…] Precisamos penetrar nessas regiões escuras da nossa carência, da nossa solidão, dos nossos desejos, dos nossos medos todos… e iluminar isso para que a gente não jogue isso em cima do outro, quando o encontrar […] Daqui a pouco a relação acaba e a gente não sabe nem por quê, mas por isso: como eu não conheço os meus conteúdos internos e eu não sei trabalhá-los, é isso que eu vou jogar em cima do outro”, diz ela em parte de sua entrevista, reforçando a ideia de que nós seres humanos e, em especial mulheres, estamos passíveis de cometer erros devido ao apego, carência, a falta de autoconhecimento e compreensão de nós mesmas. Afinal, a ideia de relações(amorosas ou não) bem-sucedidas deveriam ser baseadas em liberdade, e quando pensamos em liberdade dentro das relações precisamos compreender que, se isso não vier através da prática do autoconhecimento, a mesma será impossível. Porque, o que queremos de fato? O que nos faz mal, ou não? Isso é tão importante quanto parece ser? Geralmente a resposta para essas questões está bem à nossa frente, ou dentro de nós, e ainda assim não conseguimos enxergá-las.

Ela completa com: “Solte, solte, relaxe, descanse. A prática da meditação é só isso: deixa cair tudo aquilo que não é, para que aquilo que é brilhe.” E é isso que devemos fazer, quando nos encontramos em ritmo acelerado, sempre vulneráveis a informações demais, sons demais, pensamentos demais, acabamos por não conseguir enxergar o que realmente somos, e o que realmente queremos, nem de nós e muito menos dos outros, o que nos leva a confusão e posteriormente, ao sofrimento. Ou seja, a melhor forma de nos empoderarmos é pelo autoconhecimento, e a forma mais simples de o fazermos é através da meditação.

Enquanto isso, Jetsunma Tenzin Palmo, ou apenas Tenzin Palmo ensina questões sobre amor e felicidade genuína e como o apego e romantismo pode ter um potencial destruidor em nossas vidas, além de como a meditação e silêncio ajudam a lidar com tudo isso. Talvez, você já tenha visto circular por redes sociais o vídeo de uma monja carequinha falando sobre a diferença de “amor romântico” e “amor genuíno”, se não, você deveria assistir.

Mas, para além das questões de relacionamentos amorosos, que têm sempre uma grande repercussão já que, bom, sempre queremos nos livrar do nosso sofrimento e “aprender a amar corretamente” de maneira prática e rápida, existe um mundo maior que isso. Nesse mundo, existe uma constante atividade mundana, que está sempre pronta para nos atingir, mas a maneira que seremos atingidos por toda essa atividade ou como isso vai nos afetar, depende exclusivamente de nós e do nosso próprio conhecimento.

Tenzin Palmo fala em outra entrevista sobre o que aprendeu no coração da vida, levanta questionamentos sobre o que entendemos como felicidade, amor e compaixão. Explica que nós temos uma tendência a confundir felicidade com prazer e acreditar que, enquanto estivermos recebendo estímulos externos de forma constante isso nos fará ter uma falsa sensação de satisfação e realização. No entanto, a felicidade genuína não esta subordinada a qualquer circunstância externa, ou qualquer pessoa senão a nós mesmos.

A melhor maneira de sermos felizes e plenas é conhecendo nossas necessidades e vontades próprias, conhecendo a nós mesmas. Entender que o mundo se encontra em constante mudança e atividade, e que não temos controle sobre tudo é essencial para isso. Ainda assim não devemos perder o olhar compassivo sobre o sofrimento e a confusão alheia, conhecer a si mesma e pensar em você não significa ser fria e a par dos sentimentos de outros mas sim, entender que sua felicidade depende de você, e quanto mais você se conectar consigo mesma, mais o mundo se conectará a você.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • Marcely Marques

    Silenciamento como opressão NADA tem a ver com o silêncio buscado na meditação, e essa confusão é extremamente perigosa. Ainda mais numa publicação voltada às mulheres jovens, que muitas vezes estão aprendendo e empoderando através de textos desse site. Achei um furo imperdoável essa publicação, pois parte da premissa de gaslight (você está exagerando, procure buscar o silêncio dentro de si), e todas sabem – inclusive as budistas praticantes – que o silêncio não afasta situações de agressão vinda de outros.
    ISSO É MUITO SÉRIO E TEM QUE SER BEM PONTUADO.

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Olá, Marcely!

      Agradecemos sua contribuição para a página. Assim como já foi pontuado pela escritora do artigo em discussões com você e demais mulheres em outras redes sociais, nós da Capitolina lamentamos as margens dadas a essa interpretação, agradecemos as críticas e reafirmamos nosso compromisso no combate à violência e ao silenciamento de mulheres. O texto diz respeito à prática de meditação e a experiências pessoais da autora, em momento algum é pontuado que a prática meditação serve como escape de agressões ou violência, e não compactuamos com gaslighting e nem qualquer tipo de abuso contra mulheres.
      Novamente agradecemos as críticas e seguimos trabalhando para uma construção clara e empoderadora para meninas e jovens mulheres.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos