5 de outubro de 2018 | Ano 4, Saúde | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
Só um exame de sangue?

Quantas vezes você já ouviu falar que devia fazer um exame de sangue “só para ver se estava tudo bem”? Ou que precisava fazer um “check up geral”? Essa crença de que quanto mais exames fazemos, melhor é o nosso cuidado com a saúde é muito difundida e até hoje propagada por muitos médicos. Mas será que é mesmo verdade?

Até a década de 1980, falava-se em três tipos de prevenção em saúde: a prevenção primária, que evita o surgimento de doenças (ex: vacinação); a prevenção secundária, que visa o diagnóstico e tratamento precoces para evitar as complicações de doenças já existentes (ex: controle da pressão arterial em pessoas hipertensas para evitar infarto ou AVC) e a prevenção terciária, que busca reduzir os danos causados por doenças e preservar as capacidades ainda existentes (ex: reabilitação de pacientes após um AVC). Porém nessa época um novo conceito foi proposto: a prevenção quaternária.

Essa quarta forma de prevenção se baseia num princípio básico da medicina: primeiro não causar dano. Ela busca minimizar os problemas causados pela hipermedicalização, ou seja, pelos exames, diagnósticos e tratamentos exagerados.

Vamos supor que uma pessoa jovem, saudável e sem nenhuma queixa no momento vá ao médico pedindo para fazer um “check up geral”. Vamos supor que esse médico peça, por exemplo, um simples exame de sangue. E aí no resultado vem uma alteração. Esse resultado pode ser um sinal de alguma doença ou, mais provavelmente, pode ser um erro do laboratório, uma variação transitória no sangue, ou até mesmo uma alteração que seja do próprio organismo da pessoa, que nunca vai representar nenhum prejuízo para ela e que ela nunca nem saberia que tinha.

É importante lembrar que qualquer exame tem um percentual de erros e que os valores de referência são baseados na maior parte da população, mas que existem pessoas fora da faixa que não necessariamente têm alguma doença. Qualquer variação laboratorial deve ser sempre associada ao contexto geral de saúde do paciente. Médicos devem tratar pessoas, não exames.

Voltando ao exemplo anterior, tente se imaginar nessa situação. Se recebesse um resultado alterado inesperado, você ficaria angustiada e com medo, certo? Já partiria para o Google e veria todas as possíveis causas horríveis e gravíssimas para aquilo, não é? Pois é, a maioria das pessoas também. Aí já vemos o primeiro dano causado por um exame desnecessário: a ansiedade.

Vamos supor que diante desse exame alterado, o médico decida pedir mais exames para investigar. E que alguns desses exames sejam mais invasivos, com maiores riscos. E aí durante algum deles essa pessoa sofre uma complicação – uma infecção, por exemplo. Vai precisar tomar antibióticos para tratar. Aí vamos supor que ela é alérgica ao antibiótico sem saber, faz uma reação grave e precisa ser internada. Quantos problemas já foram causados por aquele simples exame de sangue?

Esse exemplo pode ser extremo, mas serve bem para ilustrar a situação. Nenhum procedimento médico é isento de riscos. Por isso é sempre necessário avaliar se os possíveis benefícios fazem valer a pena correr esses riscos. Exames devem sim ser solicitados, mas somente se houver indicação – ou seja, quando os estudos já tiverem comprovado que os benefícios superam os riscos.

Um exemplo disso é o exame de rastreio para câncer de próstata. Antigamente era recomendado para todos os homens acima de 50 anos, mas as pesquisas mais recentes mostraram que fazer isso não estava diminuindo a mortalidade por câncer de próstata, só estava causando mais danos aos pacientes com as complicações de investigações desnecessárias. Por isso atualmente o Ministério da Saúde não recomenda mais esse rastreio para todo mundo, somente nos casos em que o homem já apresenta alguma queixa específica.

Já o exame de Papanicolau (o preventivo ginecológico, que rastreia câncer de colo de útero) continua sendo recomendado para mulheres entre 25 e 64 anos – porque já se comprovou por vários estudos que nessa população ele tem impacto na redução da mortalidade por câncer de colo.

Então da próxima vez em que alguém recomendar um “check up”, não dê bola. Hábitos de vida saudáveis, como fazer exercícios e ter uma dieta equilibrada, são muito mais eficazes para manter uma boa saúde do que fazer um monte de exames desnecessários.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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