10 de maio de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: e | Ilustração:
Sobre (ainda) não ter tido relacionamentos
Ilustração de Clara Browne
Ilustração de Clara Browne

Ilustração de Clara Browne

 

Texto de Beatriz Trevisan e Natália Lobo.

Aquele nervoso de notar que seu grupo de amigos e amigas já está começando a falar sobre suas primeiras experiências, primeiro beijo, primeiro relacionamento amoroso, primeira vez fazendo sexo, é uma sensação que muita gente tem.

Muita. Muita mesmo.

É normal sentir que se está “atrasada” em relação aos amigos quando se é adolescente em um mundo que exige que sejamos experientes cada vez mais cedo – e que diz que na falta dessa experiência, somos inocentes e ingênuas. Justamente por ainda ser um tabu, o sexo pode ser uma experiência difícil de ser realizada mesmo muito depois de suas amigas já terem feito e compartilhado suas experiências com você. Sabemos porque passamos por isso.

Muitas vezes, por não termos experiências sexuais e amorosas quando nossas amigas já estão tendo – seja por conta de timidez, por falta de vontade ou por falta de oportunidade – isso parece o fim do mundo, pois ficamos ouvindo as histórias, as conversas e simplesmente não conseguimos participar. Às vezes, algumas pessoas vão tentar ditar nosso ritmo e dizer que nosso “tempo” é totalmente errado, que “Como assim você ainda é bv se já tem [insira idade aqui] anos? Eu perdi com [insira idade um pouco mais nova aqui] anos!”, e nos questionamos se isso não é verdade, se não estamos atrasadas de fato.

A questão é que dar início a essas experiências é um assunto que só diz respeito a você e deve acontecer quando você se sentir 100% confortável, não quando os outros acharem certo. Porque, em primeiro lugar, você deve respeitar a si mesma; se adaptar a um “certo” que não é seu sem se sentir confortável com isso é uma forma de não se respeitar. O importante é VOCÊ estar bem com o seu momento, sentir que está fazendo a coisa certa para você, independente do que todo mundo acha certo. Isso também vale para aquela história de que devemos achar a pessoa perfeita para ter as primeiras experiências, ou o contrário também – que já ouvimos –, de que o ideal é começar a experimentar com desconhecidos.  Você ainda vai ouvir um monte de coisas quando, na verdade, o ideal é a situação que você preferir! Nesse caso não tem mesmo certo e errado.

E, se você for puxar na memória, provavelmente já escondeu sua inexperiência, né? Já parou pra pensar em quantas pessoas também o fazem e não temos nem ideia? Que talvez não seja a única pessoa no mundo (ou na escola ou faculdade) que é bv, que nunca namorou, que é virgem? Nós estávamos nos lembrando de nossas experiências e uma das que surgiu foi que uma vez, na escola, uma de nós – entre as duas autoras desse post –, estava conversando na sala da escola e disse que não tinha ficado com ninguém na festa do dia anterior (mas na verdade nunca tinha ficado com ninguém na vida), e duas meninas começaram a zoar, fazendo imitações do tipo “aaaah, eu não posso beijar, sou uma santa!!!”, e depois descobriu que uma dessas meninas também nunca tinha beijado!

Ou seja, parece que só nós não passamos por tal coisa ainda, mas é que muitas pessoas também sentem a mesma vergonha ou embaraço que a gente e também têm dificuldades em lidar com isso. Só que na verdade isso é uma coisa muito boba, pois não ter dado início à sua vida amorosa ou sexual não é tudo! Você tem mais um milhão de gostos, tem suas próprias características que te tornam uma pessoa única, tem suas ideias, e não importa se está tendo essas experiências ou não, você é muito mais do que isso e não é isso que vai te tornar uma pessoa legal ou não. Uma pessoa realmente bacana com quem você queira se relacionar não vai ligar se você já beijou ou se é virgem, e vai querer te conhecer independente disso. Se ela se importar com essas baboseiras, dá um pé que ela não vale a pena (e você não ouviu isso da gente).

Você não precisa de desculpas para justificar seu suposto atraso; tem o seu tempo e pronto, pouco importa o que vão pensar. Não deixe que te façam sentir mal por ainda não ter começado, não precisa apressar as coisas para se encaixar no tempo dos outros, porque o mais importante aqui é como você se sente. Suas experiências estão acontecendo e, durante esse tempo, você ainda assim pode ir conhecendo o seu corpo de outras formas, pode explorar sua sexualidade e sua sensualidade da forma que achar melhor (aliás, não deixa ninguém te dizer o contrário!). Uma experiência que muitos condenam e poucos falam sobre, é a masturbação feminina, mas ela é ótima forma de conhecer seu corpo e te dar prazer, sem que essas coisas precisem depender de uma segunda pessoa. Não tem literalmente nada de errado com você por se relacionar mais tarde e nem com as outras pessoas, por se relacionarem mais cedo. Tempos diferentes para pessoas diferentes. É só isso.

E lembre-se sempre: vai com calma, você tem um milhão de anos ainda pela frente para se relacionar, para beijar, para namorar, para fazer sexo. Acredite: daqui a um tempo não vai importar com quantos anos perdeu o bv, isso nunca vai te definir. Ainda tem muitos anos pela frente, então pega leve consigo e desencane, porque você vai ver que essas experiências vão chegar, só que cada pessoa tem seu tempo, e talvez o seu só seja maior do que o dos seus amigos e amigas. E não tem problema algum nisso.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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  • Gabriela Clemente

    Olá meu nome é Gabriela, reparei que na sua biografia,tu faz faculdade de direito, estou em duvida sobre minha opção de futuro, o que achas da tua faculdade?

    • http://biadrill.tumblr.com/ Beatriz Trevisan

      Oi, Gabriela! Desculpa, eu só vi o seu comentário agora :( me chama no Facebook, vamos conversar sobre a faculdade!! <3

  • Ingrid Hydalgo Erbert

    Que ótimo texto, gostaria de ter lido algo parecido quando era mais nova, acho que me sentiria melhor. Ainda bem que já passou pra mim, mas tenho certeza que vai ajudar muitas migas que estão passando por isso.

  • Eduarda Ágatha

    Aí lembro do dia que perdi o BV, eu realmente gostava do garoto desde a 2ª série(estávamos no 7º), mas não queria beijar, mesmo assim minhas “amigas” disseram que eu iria, ele também era BV e éramos(e ainda somos) melhores amigos, então não rolou nervosismo e não foi ruim. Mas agora, eu penso que eu poderia não ter beijado até hoje, quase 3 anos depois, não acho algo tão legal, prefiro os romances fofinhos amorzinho nhénhénhé sdjnfj mas realmente, se eu pudesse voltar no tempo, me obrigaria a esperar mais um pouco.

  • PrimRose

    Gostei do texto. No começo estava escrito que muitas vezes a demora para ter relacionamentos é por conta dos tabus… Eu acho que não pq eu nunca tive alguém não por medo de ser julgada, ou para ser pura slá, é pq eu realmente não conheço ninguém legal com que eu queira me relacionar… Penso até em me casar virgem, mas é uma decisão q não tem nada haver com ninguém além de mim. No meio onde eu convivo o estranho é vc ainda ser virgem com 17 anos, vc tem mais valor se já teve várias experiências sexuais e tal, e eu não quero isso sabe, eu quero ter uma pessoa só e não ser julgada por isso, tipo ser a santinha sabe? Pq não é assim q eu vejo, tem um significado além, q é importante na minha vida.
    De qualquer forma, isso não foi uma reclamação estava apenas desabafando kkkk beijos!!

  • Guilherme

    Olá, sou homem e me identifiquei com o texto, acho que isso vale para os dois lados. Estou nessa mesma situação e concordo com o que foi dito.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.