13 de janeiro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Sobre amor próprio e autonomia
Ilustração: Clara Browne

Em janeiro, a Capitolina tem um projeto para sermos mais felizes, livres e poderosas, é o #verãodopoder. Esse projeto não tem regras, cardápios, nem mesmo guias, é uma conversa entre amigas. Porque, ao contrário do que a maioria das revistas diz, ser feliz é uma questão relativa e individual. Cada uma de nossas colaboradoras tem desejos diferentes para essa estação e cada uma precisa encontrar seu próprio caminho para realizar seus objetivos. Por isso, hoje vamos falar sobre amor próprio, poder e autonomia.

Eu passei grande parte da minha adolescência planejando mudanças e me apegando a ideais. Basicamente, minha vida só iria começar depois que eu me tornasse outra pessoa mais magra, divertida e despreocupada. Queria ser uma garota legal que não liga pra comida, não tem crises de ansiedade e muito menos chora em público. Por mais que eu tentasse, eventualmente, fazia um bolo de caneca, saía da dieta e me sentia muito frustrada. Nunca seria aquela garota. Eu me importo demais com comida. Todos os intervalos em que lanchei um iogurte light, estava pensando apaixonadamente na esfiha de queijo da cantina. Comecei a pensar que era uma pessoa sem determinação, incapaz de me esforçar, porque, afinal, não deveria ser tão difícil seguir uma dieta – pelo menos era isso que as revistas me diziam. No meio de tanta impotência me afundava em hábitos ruins. Era jovem, mas já condenada, nunca seria a garota magra.

Foi um longo processo até entender que ser feliz, bonita e saudável não tem absolutamente nada a ver com ser magra e que, na verdade, essa ideia é doentia. Foi um processo ainda mais longo para entender que só eu sou responsável pela minha felicidade e isso exige um trabalho diário. Uma das coisas que os contos de fadas ou comédias românticas não nos dizem é  que é preciso de muita dedicação para ser feliz. Em geral, nem nossos pais e professores explicam isso, nos ensinam sobre muitos assuntos, mas não falam sobre a imensa necessidade de saber cuidar de si mesma. Pois é, a felicidade dá trabalho, não é um encontro que acontece por força do acaso e muito menos uma meta que se alcança com promessas de eternidade. É um cuidado diário mesmo. E o mais difícil: não tem guia, só você quem pode descobrir e decidir o que vai te fazer feliz.

Sem dúvida seria mais fácil se a felicidade chegasse de surpresa. É claro que às vezes isso acontece, conhecemos pessoas, ideias e lugares que nos fazem felizes. Mas há algo sensacional em se tornar responsável por si mesma. A partir do momento em que não esperamos por ordens, conselhos e sorte, tomamos a iniciativa de construir nossa própria felicidade. Amor próprio e autonomia são habilidades que caminham juntas. Quando desviamos dos ideais alheios sobre bem estar e buscamos pelo que realmente nos dá prazer, nos conhecemos melhor e ganhamos poder sobre nós mesmas. Só depois que abandonei meus ideais, pude amar a garota que sou e aprender a me cuidar.

Me cuidar não é seguir uma rotina de exercícios, comer iogurte light e evitar carboidrato. Me cuidar é perceber as minhas necessidades e vontades. Meu corpo necessita de muitas coisas, por exemplo, de prazer e liberdade. Bem estar e felicidade são sensações extremamente particulares. Beleza é um modo de ser e saúde é algo complexo e relativo. Sem dúvida há milhares de formas diferentes de saúde, prazer e beleza. Precisamos redefinir esses conceitos a partir de nossas próprias experiências e esquecer qualquer definição limitadora. Assim, ganhamos autonomia e poder sobre nossa felicidade.

No entanto, ser responsável pelo próprio bem estar, não quer dizer que precisamos ser felizes sempre e, muito menos, que vamos conquistar isso sem ajuda. Existem muitos problemas que estão fora do nosso alcance, às vezes nos sentimos tristes e desanimadas demais para conseguir fazer qualquer coisa. Não vamos nos iludir, a vida não acontece da maneira que desejamos, é bem mais imprevisível. O que estou defendendo nesse texto não é uma autoajuda pela força da mente, é um autocuidado que exige dedicação diária. A felicidade é um processo incerto, como já disse, demanda atenção, trabalho e amor próprio. Não basta decidir ser feliz para de fato ser. Dias e sensações ruins existem e nem sempre vamos saber lidar bem com isso. Se cuidar é também se permitir chorar e sofrer, entender que em alguns momentos estamos impotentes e, então, saber pedir ajuda. Pode ser colo de mãe, abraço dos amigos ou uma conversa com um profissional, um psicólogo ou terapeuta. Se amar é ser mais gentil consigo mesma, especialmente nas horas difíceis.

A felicidade não é ter uma vida perfeita, é uma disposição para se cuidar e sentir prazer. Ter autonomia também não é estar livre de obrigações, é, na verdade, mais uma responsabilidade. Todos nós temos limitações, cobranças e problemas, mas podemos lidar com isso de diferentes formas – e devemos ficar gratas quando temos o privilégio de fazer escolhas e assumir essa responsabilidade. No meio de um longo dia no colégio, você pode comer uma esfiha de queijo, rir com seus amigos, aprender algo novo, rabiscar no seu caderno, ler um livro maravilhoso no meio de uma aula chata, conversar com aquela pessoa que te faz mais feliz…

Mas por que estou falando sobre isso na coluna de Escola, Vestibular e Profissão? Porque acho que ser feliz depende de conhecimentos e saberes. Mais ainda, porque é muito difícil ser uma boa aluna ou profissional se não dormimos, comemos e vivemos bem. Não cabe a nós, capitolinas, te dizer o que é viver bem, nós estamos aqui apenas para te dar a mão e dizer que só você pode decidir isso. Você pode ser feliz como desejar. Vem com a gente no #verãodopoder? E aí, como você se cuida? E o que te faz mais feliz?

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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