11 de junho de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Sobre a arte de ser escritora, uma entrevista com Aline Valek
Ilustração: Isadora Maríllia

A Capitolina existe porque um grupo de garotas resolveu se unir e criar uma revista diferente das publicações da grande mídia que não as representavam. Se hoje estamos crescendo e conquistando mais espaço, é porque acreditamos em nossa vontade, confiamos que poderíamos criar com nossas próprias mãos algo valioso. Nosso projeto, então, quer mais do que ser um veículo de leitura para garotas adolescentes; nós queremos que você, leitora, também acredite que pode realizar seus desejos. Principalmente, queremos sempre relembrar que não é preciso esperar a vida de verdade começar; não é preciso esperar “crescer”, se formar ou conquistar algum rótulo para começar a ser quem você quer ser. Pensando nisso, resolvi fazer algo diferente para a coluna de Artes: em vez de analisar ou apresentar um trabalho artístico, resolvi conversar com uma artista sobre os caminhos, dificuldades e possibilidades que envolvem a criação artística. O resultado é essa entrevista com a maravilhosa escritora, Aline Valek:

Taís: Aline, conta pra gente, como você começou a escrever e como foi o processo até você se identificar como escritora? Se definir como escritora é algo desafiador, porque, bem ou mal, todo mundo escreve. E aí fica aquela dúvida sobre o que difere alguém que escreve textos casuais no Facebook de alguém que tem a escrita como ofício. Qual sua opinião sobre isso?

Aline: Existe uma dificuldade em se definir o que é essa entidade mística aparentemente tão distante de nós, “o escritor”. E é difícil porque de fato é um negócio muito subjetivo e que as pessoas ainda fazem questão de revestir com uma boa camada de glamourização. Quem é escritor? É quem escreve? Quem escreve bem? Bem pra quem? É quem publica o que escreve? Ou quem é publicado por editora? É quem ganha dinheiro escrevendo?

Então eu relutei um pouco para começar a me apresentar como “escritora”. Por mais que eu já escrevesse há algum tempo, eu continuava a me apresentar como redatora (o que eu fazia para ganhar dinheiro até então). Por um lado, eu não me achava merecedora do “título”; por outro, eu tinha uma vergonhazinha de me dizer escritora e as pessoas entenderem como um sinônimo de “pessoa que não trabalha”.
– Eu sou escritora.
– Legal. Mas você trabalha com o quê?
Climão.

Uma vez, conversando sobre isso com uma amiga escritora, a Olivia Maia, ela me disse que achava que “ser escritora” não quer dizer que você seja uma gênia, ou que vá escrever o grande romance da literatura brasileira, ou que não vá passar por várias dificuldades na hora de escrever. Ela disse que “ser escritora quer dizer que você sabe o que está fazendo, que domina o texto, que sabe organizar o pensamento na escrita”.

Mas isso não é fácil. Chegar nesse nível de domínio exige muito trabalho e é talvez a parte de “ser escritor” que as pessoas não enxergam, porque acreditam que a pessoa “nasce” com esse dom. Que é um “talento” que vem pronto. Então eu lembro de outra frase, esta dita por Thomas Mann: “Um escritor é alguém para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas.” E é mais difícil porque a pessoa, não tendo nascido escritora, precisa suar e escrever muito, sem parar, até que o seu trabalho fique cada vez melhor.
Quando me apropriei do “título” de escritora foi justamente por entender que eu estava comprometida com esse trabalho. E também por entender que esse “título”, no final das contas, não significa nada. Que o que importa não é quem eu sou ou o que digo ser; mas aquilo que eu faço.

Então, se há uma diferença entre quem escreve casualmente e quem escreve como ofício é só a teimosia. Porque realmente não há nada “sagrado” ou especial em ser escritora. É só alguém que, mesmo vendo que é tão difícil escrever (sobretudo viver da escrita), não vai desistir e vai continuar fazendo aquilo até que fique cada vez melhor.

Taís: Atualmente, os jornais, revistas, editoras e sites pagam cada vez menos os seus profissionais, então, viver da escrita parece quase impossível, né? Que conselhos você daria para quem é jovem e sonha em ter a literatura como profissão?

Aline: Tive um professor, que trabalha como editor literário, que uma vez disse que a literatura tem um componente de doença, porque mostra uma incompatibilidade do autor pelo que é estabelecido em nosso mundo. Só sendo meio desajustado mesmo pra fazer isso da vida.

Por isso acho que quem procura a vida de escritor atrás de dinheiro ou fama tem grandes chances de estatelar a cara no chão. Porque quem está nessa até tentaria trabalhar com outra coisa, se fosse possível, se não fosse essa profunda obsessão em escrever para conseguir suportar a realidade. É como eu disse aqui: escrever é o que me possibilita atravessar o mundo sem me afogar.
Não é impossível ganhar dinheiro escrevendo, mas viver disso, ou pior, ganhar muito dinheiro com isso, é a exceção da regra; pouca gente consegue. Se a pessoa está pensando em uma carreira em que possa ganhar dinheiro de forma estável, mais ou menos confortável, com garantias e remuneração proporcionais ao seu esforço, melhor procurar outra carreira.

Meu conselho para quem pensa na literatura como profissão é: se puder não escrever, não escreva. Pode parecer meio pessimista, mas o que quero dizer com isso é que, se você for teimosa o suficiente para continuar escrevendo enquanto você pode simplesmente não escrever, então você já terá feito o mais difícil.

Taís: Foi a partir desse contexto que você criou o projeto “Pague a autora”? Por que é importante que os leitores paguem a escritora?

Aline: Ainda estou tentando aprender como equacionar essas duas coisas tão distantes: escrever e pagar as contas.

Daí a criatividade que uso na escrita tem que ser usada de outras maneiras. Nesse malabarismo cotidiano, tento buscar várias formas de viabilizar o meu trabalho para que ele continue acontecendo. O “Pague a autora” surgiu assim, de uma necessidade e de uma ideia. Se eu tenho vários leitores que sempre dizem que gostam do que eu escrevo, será que eles me ajudariam financeiramente para que eu fizesse mais desses textos que eles gostam?

Porque é desproporcional o esforço que é trabalhar como autora independente e o que se ganha com isso. Quando eu abri a possibilidade dos meus leitores me ajudarem, esse abismo diminuiu um pouquinho. É muito importante ter esse retorno, esse gesto de pessoas me dizendo que o meu trabalho vale alguma coisa.

Acho superimportante as pessoas apoiarem e pagarem as pessoas que criam e produzem arte. Porque com isso o público está reconhecendo um trabalho, algo que custou tempo, dinheiro e esforço para existir. Isso também me ajuda a me perceber como escritora. Ao ver que meu trabalho é algo concreto, sólido, que tem valor, a responsabilidade aumenta e, com isso, a sensação de que esse é realmente meu trabalho, de que sou realmente uma escritora.

Taís: Você escreveu um texto sobre a dificuldade de manter um blog que me fez pensar sobre como o Facebook limita nossas experiências e produções em uma economia de likes. Pra quem está começando a publicar na internet isso pode ser terrível, afinal, se ninguém curtiu seu texto, é porque ele está ruim. Ou pelo menos é isso que pensamos quando somos movidos por esses números. Mas, como você diz, o poder criativo de um texto não tem nada a ver com likes. Como essa tendência te afeta? A newsletter foi um modo mais interessante e afetivo que você encontrou para publicar seus textos? Você acredita que há outras formas de publicações virtuais que desviam dessa economia dos likes e apostam numa relação mais profunda?

Aline: Primeiro essa economia de likes foi um obstáculo pra mim: se um texto não atingia muitos likes, eles não tinham tanto alcance, logo menos pessoas liam e mais eu sentia que tinha trabalhado à toa. Mas depois isso acabou virando uma oportunidade: porque a partir do momento que eu pensei em outras formas de fazer meus textos chegarem às pessoas (e daí surgiu a newsletter), mais eu comecei a perceber que, na real, os likes não importavam tanto. Que muito mais importante do que ter um texto com milhares de likes era saber que tinha alguém me lendo, sendo tocado por algo que escrevi e me dando um retorno mais íntimo, mais honesto, algo além do que uma simples reação mecânica de apertar um joinha.

Uma vez eu aprendi que uma história só está pronta quando é lida por alguém. Por isso confesso que ainda fico meio chateada quando vejo que um texto teve menos acessos ou repercussão. Fico achando que ele não conseguiu se desenvolver por completo. Mas hoje penso muito mais em como esses números de acessos, likes ou de comentários não conseguem dimensionar o verdadeiro impacto de um texto. Ok, esse texto foi visto por cem, não por dez mil pessoas, mas se essas cem pessoas foram profundamente tocadas por ele, é o suficiente pra mim.

Taís: A internet é um instrumento útil pra quem é artista – seja escritora, fotógrafa, ilustradora ou musicista – e está começando a expor/criar seu trabalho? Nesse aspecto criativo, o que você acredita que a internet tem de melhor? E de pior?

Aline: Assim como as coisas eram diferentes antes dessa “economia de likes“, assim elas continuam mudando. E essas mudanças, mesmo quando são ruins ou desvantajosas (como o Facebook dificultar a repercussão de um conteúdo), elas são positivas porque estimulam as pessoas a buscarem soluções, a criarem coisas novas, enfim, a usarem a criatividade. É pensar: as pessoas agora consomem muito conteúdo pelo celular, então como fazer para elas lerem meus textos? E tentar imaginar como nos adaptar a um cenário ou tirar vantagem dele para o nosso objetivo.

Por exemplo, há uma ferramenta chamada Wattpad que vários autores usam para publicar suas histórias em capítulos de uma forma que as pessoas consigam ler pelo computador ou pelo celular. No caso da pessoa usar pelo celular, ela recebe as notificações de quando o autor publicou um capítulo novo. Vários autores conseguiram formar um público grande por lá; tanto que chamaram a atenção de grandes editoras e até conseguiram publicar seus livros.

O artista precisa usar essa facilidade de acesso que a internet permite a favor do seu trabalho. Uma das melhores coisas que a internet permite é criar um público, como no caso de um autor que tenha milhares de leitores no Wattpad, ou alguém que use o Instagram ou as redes sociais para divulgar o trabalho, ou ainda alguém que busque um contato com seu público por um canal de vídeo ou um blog.

Há várias plataformas que são acessíveis para quem quer aproveitar esse poder da internet. Quem não quer ter o trabalho de fazer um blog, pode por exemplo recorrer ao Medium para publicar seus textos, aproveitando uma plataforma já existente e do público que circula por lá. Acompanho muitos quadrinistas pelo Medium, que aproveitam bem esse ambiente para seu trabalho chegar a mais pessoas (ou a pessoas diferentes).

A porteira da internet permite que a gente abra o nosso mundo para mais gente, mas numa multidão, na internet ou fora dela, sempre vai ter gente imbecil. Nem falo pelas críticas, o que é até interessante e válido quando você é artista, e algo bastante natural quando a gente mostra um trabalho; mas pela possibilidade de assédio, ameaças e agressividade a que você está sujeita na internet. Então, ao mesmo tempo em que é um ambiente cheio de possibilidades lindas, é também um ambiente que muita gente acha que pode fazer o que quiser sem consequências.

Outra dificuldade que vejo na internet é que às vezes ela tem a mesma lógica de uma mídia tradicional: só consegue se promover quem consegue investir. É o caso do Facebook, que restringe o alcance das publicações de uma página, a menos que ela pague para o site promover aquele conteúdo. Isso também tem um pouco a ver com o comportamento das pessoas online, que buscam o que já está consolidado em vez de se abrir para conhecer coisas novas. Claro que há a possibilidade de um artista que comece a carreira pela internet consiga bastante visibilidade, mas a tendência é sempre reforçar a visibilidade de quem já está consolidado pelas mídias tradicionais.

Essa característica de reforçar o que já está no topo, o famoso fica mais famoso, o rico fica mais rico etc., é algo que a internet simplesmente reflete, porque a nossa realidade fora dela é exatamente assim. O negócio é que todas as forças, mesmo na internet, vão no sentido de manter o estado atual das coisas. Mesmo com toda a abertura da internet para o novo, o comportamento das pessoas vai puxá-la para que ela mostre mais do mesmo, para que o que já tem muito espaço continue tendo muito espaço, para que as vozes dominantes continuem a dominar as narrativas.

Tanta mina fazendo coisas incríveis e muitas vezes não conseguem a mesma repercussão de quem está segurando o microfone há tempos. Então se homens brancos têm muito mais visibilidade na literatura, acabam ocupando mais espaços também na internet. A grande mudança de cenário, o grande “turning point”, é que a internet tem um espaço praticamente ilimitado; então quem ocupa aquele espaço dominante não está mais impedindo que alguém crie seu próprio espaço.

Taís: Historicamente, nós, mulheres, tivemos menos espaço e voz, por isso ainda conhecemos mais livros escritos por homens do que por mulheres. Você acredita que podemos usar a internet para fortalecer nossas vozes e ressignificar essa desigualdade histórica?

Aline: Ainda tem que fazer um esforço para superar a lacuna entre escritores e escritoras? Tem. E é um trabalho diário, porque já estamos em desvantagem há séculos. A internet não resolveu, por si só, essa desproporção. Mas se você acha uma brechinha, você agarra ela na unha e vai forçando até abri-la, até que a brechinha se torne uma janela, até que a janela se transforme numa passagem ampla, que finalmente mostre que você existe, que você tem voz, que você tem algo a escrever para quem quiser ler.

É como eu falei lá em cima sobre teimosia, sabe? Se tudo o que me deram foi um espacinho pequenininho, não importa. Em vez de desistir, a gente bate o pé para esse espacinho ficar do tamanho de cânion, de um tamanho que os outros não vão mais conseguir ignorar nossa presença.

Um passo importante também é valorizar as escritoras mulheres, falar sobre elas, resgatar os seus livros, as suas histórias e trajetórias. Há tantas escritoras incríveis das quais pouco se ouve falar. É importante buscar conhecer novas autoras, que não necessariamente serão “novas” desta geração, mas escritoras que viveram há muitos anos e cujo nome e obra praticamente se desconhece. Comprometer-se a ler mais mulheres não só é empoderador para resgatar o trabalho de pessoas que foram invisibilizadas por causa de seu gênero, mas também para quem lê entrar em contato com outra perspectiva de mundo, outra narrativa que não seja a masculina e branca. É empoderador para uma mulher ler mais mulheres não só pela possibilidade de conseguir se identificar com a leitura, mas quem sabe também pelo pensamento de “eu também posso escrever, eu também posso contar as minhas histórias”.


É isso, meninas, façam como a Aline e continuem teimando! ?

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos