10 de março de 2018 | Ano 4, Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Juliana Adlyn
Sobre deixar o grito ir
mudapriori

Você pode ouvir esse texto ao som de M83 – Wait

O relógio despenca suas horas pesadas às oito. Depois de emendar 24 horas seguidas de plantão, fecho a porta do meu apartamento. Tropeço em todas as caixas de mudança que encontro pelo caminho até conseguir alcançar o sofá recém-comprado.

Mais uma decepção. O celular não chama mais. Até quando, meu deus. Esse aperto no peito por sempre ser a que sempre cede mais, e por esse mesmo motivo ser sempre a que acaba sem nada nada no fim. Será que a gente não aprende nunca?

Dentro de mim há um grito que eu não sei mais gritar.

Se eu pudesse mandar um zap pra mim mesma aos 15, certamente diria: miga, se acalme. Que nada é pra já. Nem tinha deixado as fraldas ainda e já tinha todo o meu futuro planejado no meu subconsciente. Aquele combo da felicidade, né? Faculdade-conhecer-o-homem-da-minha-vida-casamento-no-campo-dois-filhos-três-cachorros-correndo-no-quintal-uma-casinha-com-cerca-branca-e-todos-os-clichês-que-você-pode-imaginar.

A gente cresce já ouvindo planos que traçaram para nós e de repente eles acabam virando os nossos objetivos também. Nossa família e amigos não fazem por mal, é que é muito mais seguro atravessar mares já conhecidos. Ninguém quer sugerir caminhos incertos. E aí as nossas prioridades se tornam prioridades que a gente nem mesmo sabe se quer. Entra naquela roda gigante da busca pela estabilidade financeira e emocional e fica lá girando sem parar, sem nem entender o motivo, só fica lá girando porque todo mundo tá girando também.

O que a gente não sabe, quando está atravessando a adolescência, é que a vida adulta é muito mais filha da puta do que a gente imagina. É tipo um season finale de Shonda Rhimes em looping. A política do país não ajuda, o mercado é muito caro, os boletos não param de chegar e lá do outro lado você vê todos esses conceitos de felicidade se jogarem de um penhasco.

Mas calma. Nem tudo está perdido.

Eu não acho nada saudável essa ideia de perfeição que a gente alimenta sem nem saber o motivo. Todas as vezes que eu cresci na vida foi em meio ao caos. O caos salva. Mas a gente precisa saber entrar dentro dele, nadar pelo caos, se afundar cada vez mais, até chegar lá no fim do poço mesmo pra conseguir encontrar a luz de novo. E essa luz aí só existe dentro de nós mesmos. A vida é mais ou menos isso aí.

Eu acho que todo mundo se machuca em alguns momentos e a gente precisa se machucar pra aprender. Aprender a ser melhor, aprender nossos limites, saber o que não queremos mais em nossas vidas.

Algumas das minhas prioridades afetivas mudaram muito com o tempo. Eu adoro pensar no tanto de amor que eu deixei naquela esquina do cursinho, quando o bonito de cachinhos passava e sorria pra mim. Ou no tanto de amor que eu deixei naqueles dias em São Paulo quando ouvi Beatles sentada no chão da cozinha com o outro então amor da minha vida.

Mas eles nunca deveriam ter sido a minha prioridade.

Sei lá. A gente merece vários amores da vida. Amadurecimento é isso. A gente tem que aprender a deixar ir quando não toca mais, por mais que doa. Dói hoje, mas amanhã (às vezes, na próxima semana) tudo bem. Relacionamento com a família às vezes vira relacionamento de raspão, mas ainda persiste. O que fazia a gente se abalar antes, acaba ficando mais leve mesmo que a gente às vezes queira gritar e não consiga. O grito faz parte da vida, a gente precisa saber administrar bem cada um deles e soltar todos que sentir que precisa deixar ir.

Então, senta aqui do meu lado e escuta isso: sua única prioridade precisa ser você mesma. Por mais egoísta que isso pareça ser. Precisa ser a sua saúde mental, os seus limites, seus sonhos. Porque, manas, nesse mundão somos nós por nós. Quem segura o grito no fim do dia é você, então, a decisão é sua. Só sua.

Okay?

Okay.

Abro uma garrafa de cerveja e tomo um gole. Tento fechar os olhos e tirar da cabeça as coisas boas daquele dia. Os pequenos mundos que eu consegui mudar aos poucos. A criança que foi embora pra casa bem. O senhor que me procurou no hospital só porque queria conversar um pouco. Prioridades. Começo a enumerar todas. O que me faz bem e o que não faz. O que precisa ir e o que não precisa. Afinal, alguns infinitos são maiores que outros. Deixo ir.

Saio na sacada e junto com o vento vem o grito. Grito.

Deixo o grito ir e de repente é tudo leve de novo.

O grito é o caos que salva. A vida é uma sucessão de gritos que a gente precisa dar pra continuar.

Continuemos, então.

Ana Paula Andrade Piccini
  • Colaboradora de Saúde

Ana Paula, 27 anos, canceriana, enfermeira especialista em Urgência e Emergência, nutre um carinho imensurável pelo SUS e acredita que a saúde é muito mais do que a ausência de doença. Escritora de coração e desafi(n)os, ainda procura coragem para colocar no papel todas as ideias que dançam em sua mente. Acredita que as palavras salvam, inclusive já foi salva por elas várias vezes. Apaixonada por cinema, séries, livros e música.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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