13 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: and | Ilustração: Sarah Roque
Sobre essa coisa de comida orgânica e sementes malignas

Quando se fala em comida orgânica, logo pensamos em comida livre do famoso agrotóxico, mas acontece que não é só isso. Alimento orgânico é todo aquele em que não se utiliza uma série de compostos, como adubos químicos, antibióticos, hormônios e drogas veterinárias, que são comumente utilizados em animais, etc. Ou seja, são isentos também de outros subprodutos que muito fazem mal para nosso organismo, como metais pesados e nitritos (o que os produtores utilizam para deixar aquele bife que a gente compra no mercado com a cor vermelhinha), entre tantas outras coisas que deixamos passar despercebido, ou sequer sabemos que um alimento pode conter.

O alimento orgânico é classificado como tal de acordo com a Agricultura Orgânica, que em nossa Legislação tem como objetivo, entre outras coisas, valorizar o produtor orgânico e salientar a importância da produção orgânica como medida sustentável e benéfica à saúde não só do produtor (aquele que ficaria manipulando diretamente uma série de compostos químicos prejudiciais), como também a do consumidor e do meio ambiente.

Não há dúvida de que a alimentação orgânica é a melhor opção para todos nós. Existem diversas pesquisas e reportagens que nos mostram como as mudanças no hábito alimentar e a inclusão de orgânicos na dieta melhoraram rapidamente a saúde de diversas famílias, mas, mesmo com tudo isso, por que ainda é tão difícil ter acesso a esses alimentos?

Para entendermos melhor essa questão, precisamos saber como os orgânicos são produzidos e o que os difere dos alimentos convencionais no momento da produção. O conceito de produtividade é uma ideia importante a ser trabalhada aqui, já que antes o mesmo envolvia a produção por área, e hoje é por área e tempo. Ou seja, nos últimos anos os agricultores e cientistas vêm buscando formas de cultivar alimentos de forma precoce e considerada produtiva.

Quando pensamos na área animal, a questão é bem gritante. Seus pais já devem ter comentado que na década de 1980 um frango de granja demorava muito mais tempo pra ser produzido, em torno de sessenta dias, e hoje demora 45 (ou menos)? Alguma coisa aconteceu, certo? E essas alterações não se aplicam apenas a frangos, mas a ovos, peixes, legumes, frutas, verduras e diversos outros alimentos.

Há quem reproduza esse mito de que o modelo de produção em longa escala aliado a utilização de agrotóxicos e o desenvolvimento da biotecnologia será o fim da fome mundial, mas já explicamos aqui que não é bem assim. Bem ou mal, você provavelmente já ouviu falar da empresa Monsanto, que é produtora de sementes transgênicas e atualmente a grande líder do monopólio agrícola nacional, certo? Então provavelmente tem uma ideia do que são os transgênicos, considerados com razão o Lorde Voldemort dos alimentos.

Bom, esse negócio de transgenia que gera tanta polêmica funciona mais ou menos assim: você pega uma espécie de milho, que carrega um código genético de milhares de anos e altera um negocinho de nada nesse código (olhaí eu sendo muito científica!). Essa alteração vai torná-lo resistente a determinado agrotóxico (que, por uma incrível coincidência, é aquele que você vende, o RoundUp) e principalmente, vai possibilitar que você tenha a patente desse código. Afinal, você descarregou muitos dinheiros e energias nisso, desenvolveu pesquisas, nada mais justo. A REAL É QUE: o milhozinho lá que demorou milhares de anos pra se formar na natureza agora é seu. Ok… não é exatamente seu, mas aquele código genético com a alteração é.

Acontece que, em primeiro lugar, a gente não sabe exatamente quais são os efeitos dessa alteraçãozinha no nosso corpitcho. E por quê? Simplesmente porque o esforço empregado em desenvolver essa tecnologia pra ganhar muitos dinheiros com isso é bem maior do que o estudo das suas consequências. Depois, essa plantinha geneticamente modificada vai permitir maior produtividade, o que torna tudo mais barato e consequentemente desestimula pequenos produtores e a produção orgânica.

Outra bizarrice criada pela Monsatan é o que eles chamam de “terminator seeds” ou sementes exterminadoras. Você deve imaginar que nada de bom deve sair desse nome, né? Acertou. Essa foi uma tecnologia desenvolvida pra que as sementes fossem estéreis. Ou seja, você planta, colhe e o plantio não gera outras sementes. Isso, graças à deusa, fracassou. Mas ainda assim os produtores são obrigados a assinar um contrato para que não utilizem as sementes de novo no próximo plantio porque, afinal, são patente da Monsanto.

Mas como desgraça pouca é bobagem, lá vem mais má notícia. Essas sementes do mal são uma baita ameaça à biodiversidade, isso porque se a polinização que se dá pelos ventos e outros agentes polinizadores carrega consigo aquela sementinha até alguma plantação orgânica, tchã rã, contaminação na certa! Como essa transgênica é mais adaptável, as variedades selvagens e nativas dessa plantinha da qual estamos falando passam a correr o risco de serem eliminadas. É por isso que os transgênicos não são só uma ameaça ao produtor e ao consumidor, mas também à própria natureza!

Diz a lenda que antes dos transgênicos existiam milhares de espécies de milho.

Diz a lenda que antes dos transgênicos existiam milhares de espécies de milho.

Parece muito absurdo mesmo – e é! Mas infelizmente, o exemplo do milho é real. O salgadinho, o sucrilhos, a cerveja, a ração do cachorro. É tudo o mesmo milho, e esse todo milho é produzido assim. E a gente come. E agora a gente não vai ter sequer direito de saber o que é transgênico e o que não é.

É possível compreender melhor a questão da Monsanto e a produção agrícola mundial e nacional, assistindo ao documentário O Mundo Segundo a Monsanto, que mostra como o poder deles é capaz de amenizar epidemias de suicídio, casos de bairros inteiros contaminados, e botar as pesquisas contrárias aos agrotóxicos e transgênicos todas pra debaixo do pano. E isso tudo faz esse comercial deles parecer MUITO assustador:

Além disso, essa multinacional querida nos deu mais um exemplo do seu poder de monopólio vetando a distribuição de uma cartilha do Ministério da Agricultura que pretendia valorizar a produção dos orgânicos e orientar o consumidor a escolher os mesmos. Até que ponto chega esse poder? Estamos realmente livres para escolher?

Daí, como a gente já disse, o alimento orgânico ou o alimento limpo é acessível apenas às camadas mais favorecidas, enquanto a população pobre continua se alimentando de, como alguns cientistas chamam, “substâncias comestíveis” ou “geralmente consideradas seguras”, o que a longo prazo pode causar problemas de saúde e, consequentemente, gera custos governamentais com tratamentos, medicamentos e hospitalização.E tudo isso poderia ser evitado com uma alimentação limpa e de qualidade.

Em meio a dinheiro, brigas de poder e nenhum senso ético de autoridades que tentamos ter uma alimentação limpa e acessível a todos. É preciso que o alimento comece a ser tratado como questão de saúde e política, e não apenas financeira, pra que os pequenos produtores tenham mais autonomia pra plantar e todos nós, pra escolher o que vamos colocar na mesa. Seguimos a caminhada, em passo de formiguinhas lentas em plantações orgânicas, mas seguimos.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

Jade Cavalhieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Boneca trouxa inveterada que perde muito tempo reclamando e clamando direito à preguiça. É escorpiana com ascendente em áries e ama mostarda de uma forma não muito saudável. Se identifica com nuvens cirrocumulos e alguma parte dentro dela ainda quer ser astronauta.

  • Jade

    Olha eu não sou à favor dos trangênicos, mas ver a transgênia como uma coisa horrível que só trás malefícios é bastante maniqueísta da sua parte ainda mais como jornalista. Hoje em dia pode-se produzir vacinas comestíveis (por exemplo, a banana transgênica que ter os antígenos de uma vacina, assim uma população mais carente pode ter fácil acesso ao produto) e até mesmo uma árvore que produz 40 frutos diferentes. Desculpa, mas se você acha que esses avanços são maléficos à sociedade, acho que você precisa ver o outro lado da moeda.
    Os seres humanos veem modificando a natureza desde as primeiras técnicas de agricultura. Por séculos selecionamos as galinhas que põem mais ovos por dia (o que é desgastante para a coitada) e colocando na panela as que não, assim como selecionamos o milho. O milho de antigamente só tinha uma fileira na sua espiga e, nós humanos, selecionamos as que tinham mais fileiras. Uma coisa que ninguém sabe é que por muito tempo os fazendeiros modificavam uma planta colocando radiação UV, sem controle nenhum do que pode ocorrer após a modificação. Com os transgênicos, é muito mais seguro fazer essa mutação, pois é no gene exato e não ocorre surpresas. Eu que estudo biologia posso afirmar que o ÚNICO contra dos transgênicos é a alergia (no caso, se colocar um gene de camarão num tempero de miojo, óbvio que quem tem alergia ao camarão vai atacar, por isso eu apoio a identificação dos produtos).
    Claro que os cientistas estão indo longe demais patenteando coisas vivas, mas infelizmente são empresas que controlam essa maravilhosa tecnologia e, logo, a mesma será usada como a empresa bem entender. A tecnologia transgênica é maravilhosa, mas não culpe as pessoas que a usam de modo horrível por isso, toda invenção pode salvar vidas ou tirá-las, depende de quem a usa.
    Achava que esta era a primeira revista feminina que realmente valia a pena dar uma chance, mas assim como as outras vocês só propagam senso comum e decepção.

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Olá, Jade!
      Sentimos muito que você tenha se decepcionado com a revista e alegue que ela apenas reproduz o senso comum por ter discordado de um artigo. Principalmente quando o dito “senso comum” geralmente celebra todo e qualquer avanço científico sem refletir sobre consequências em longo prazo, que é o que sempre tentamos fazer por aqui.
      As reflexões que procuramos levantar vão bastante além da constituição genética dos alimentos. O único malefício do transgênico é uma possível alergia? E o pequeno produtor? E o agricultor que se vê obrigado a comprar sementes e pesticidas de uma determinada multinacional? E os efeitos no solo ao longo das décadas? Os problemas de que falamos não se restringem à mesa do jantar.
      Outra coisa: acreditamos que existe um PEQUENO abismo de distância entre a seleção de melhores alimentos e a alteração genética dos mesmos.
      Por último, quando você diz que “não sou a favor dos transgênicos” e “a tecnologia transgênica é maravilhosa” no mesmo parágrafo, ficamos confusas.
      Obrigada pelo seu comentário.

      • Jade

        Em primeiro lugar eu queria pedir desculpas porque estava meio irritada quando escrevi aquele comentário e acabei ofendendo a sua revista. A Capitolina tem sim bons objetivos e não é uma total decepção.

        Por você ter aceitado o comentário e aberto a discussão, vou responder às suas perguntas:

        A transgenia não se resume só aos alimentos transgênicos, por exemplo os diabéticos se utilizam dessa técnica para produzir insulina no próprio corpo com uma bactéria trans que consegue produzir a própria insulina em vez de injetar uma pronta produzida por porcos, assim também como os mosquitos machos do Aedes aegypti trans de modo a diminuir a população do mosquito por carregar nos gametas um gene de defeito nas asas, e a engenharia genética é um campo muito grande pra se resumir em comida.

        Concordo com você que pode haver um malefício à longo prazo, mas sabe como podemos prever isso? Estudando a técnica. Infelizmente, como eu disse, os transgênicos são uma tecnologia dominada por grandes empresas e seus ideais (seja ele o capital, seja ele o bem estar social). Os estudos de transgênicos independentes (oriundos da universidade e institutos de pesquisas) são quase inexistentes, os estudos que existem são conduzidos pela iniciativa privada (Monsanto) que a propósito tem o monopólio de mercado do transgênico no Brasil e EUA que a propósito são os maiores produtores mundiais de transgênico, respectivamente soja e milho. E sobre os cientistas que tentam fazer estudos, eles tem suas verbas para pesquisas cortadas, os periódicos não publicam seus estudos, o que claramente cria um veto para a comunidade científica sobre o estudo do transgênico. Claramente é um problema científico e sim social!

        Lembrando que muitas pessoas achavam que o microondas poderia causar câncer e com as pesquisas científicas já mostraram não ter relações nem um ou outro. Como eu já falei acima, o problema não é da sociedade científica que coloca o capital acima de tudo e sim da política dessas multinacionais de deixar a população à deriva das suas próprias pesquisas. Eu digo e repito, acho a transgenia maravilhosa, mas assim como qualquer outra nova tecnologia ela precisa ser estudada e aprimorada. Gosto de ver como as pessoas estão pesquisando mais sobre o assunto, porém classificar como tecnologia de alto risco e “maligno” é bastante maniqueísta da parte de qualquer um.

  • Talita

    Adorei saber mais! tô tentando uma hortinha orgânica em casa e ando viciada nas leituras sobre o assunto.
    🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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