20 de setembro de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Julia Oliveira
Sobre essa história de Manic Pixie Dream Girl

Lá pelos quinze anos, eu me dei conta de que eu nunca seria a Scarlett Johanson. Não que, antes, eu tivesse muitas esperanças de que isso fosse acontecer, afinal, meu eu pré-adolescente era, pra ser gentil, bem estranho. Porém, tendo crescido exposta demais a essas conversinhas de meritocracia, ainda tinha uma pontinha de esperança de que, com o esforço suficiente, “vai que, né…”.

Foi pouco depois de entrar no ensino médio que finalmente caiu a ficha: não ia dar pra passar dos 1,53m, não comer é um pouco inviável se você quer seguir nesse história de ficar viva, cabelos não acordam lisos de um dia pro outro e minha cara nunca teria aquela diagramação show que o rostinho da ScarJo tem. Eu ia ter que aprender a ser euzinha mesmo.

Então lá estava eu, no meio da adolescência, aceitando que, bem, não ia rolar mudar essa situação de não ser bonita. E, não conseguindo mudar essa situação de não ser bonita, não ia dar pra mudar várias outras situações, sendo a principal delas, a situação de não ser o que os meninos curtem. O que tinha para aquele momento, então, era ser meio esquista e ficar sem dar beijinhos mesmo, fazer o quê ¯\_(?)_/¯

“Lisa, você nunca vai arrumar um marido sendo sarcástica.” “Tá certo, sem marido.”

Assim fui levando a vida. Ao mesmo tempo, resolvi procurar apoio naquela coisa ridícula de pelo menos eu sou inteligente. Eu podia até não ser bonita, mas, na minha cabecinha, diferentemente das meninas que o eram, eu lia Gabriel García Marquez aos treze e gostava de cinema feito no leste europeu. Se os meninos não sabiam apreciar uma garota tão genial assim, problema deles!

Todo esse processo de pseudo-autoconhecimento aconteceu lá por 2009. No final daquele mesmo ano, lançaram 500 Dias Com Ela, hit do cinema meio alterna. Caso você, querida leitora, não tenha visto, o filme, apesar de ter o nome de Summer no título original, conta a história de Tom. Tom é um cara sensível, gente boa, meio descoladinho, que se apaixona demais porque ouviu muito The Smiths na adolescência. Coisas da vida. Tom, então, conhece Summer, a moça do título, interpretada pela Zooey Deschanel. Ela é bonita. Mas não é a Scarlett Johanson. É um bonito meio diferente, sabe? Ela também ouve The Smiths, é desajeitada, gosta de coisas inteligentes e faz vários comentários sagazes. Summer não é uma garota comum. E Tom ama Summer por não ser uma garota comum.

Ser a Summer parecia bem mais fácil que ser a Scarlett Johanson. Tá certo que ser a Zooey Deschanel também não era lá muito fácil – fisicamente, era quase tão dificil quanto. Mas o negócio na Summer, pelo visto, é que ser bonita não era o principal, e sim todo aquele conjunto engraçada-fofa-inteligente-esquisita. E eu já era meio alterna. Eu já assistia, lia e ouvia umas coisas meio cabeçudas e tinha um senso de humor de uma menina categoria “amiga de meninos”. Eu até gostava de vestidos rodadinhos! Era tudo o que eu tinha pedido aos céus: finalmente, eu poderia ser a musa inspiradora de alguém sendo (quase) eu mesma!

Acontece que a Summer não foi a primeira Summer da cultura pop. Não só não foi a primeira, como faz parte de uma categoria de personagens femininas que já existem há algum tempo por aí, mas que tomaram força nos últimos vinte anos: a manic pixie dream girl. O nome é comprido e meio difícil de traduzir, mas é algo como garota duende meio doidinha dos sonhos. Desde Annie Hall até Penny Lane, passando Claire Colburn e Ramona Flowers, são várias as protagonistas que se encaixam, menos ou mais, na fórmula. Entendeu nada? Pois bem, trata-se dessa personagem que não é como as outras garotas. Ela é estranha, mas ainda é fofa. Ela gosta de coisas diferentes. Ela é meio perdidinha, e a imperfeição dela é o que dá o toque especial.

Soa realmente vantajoso para nós mortais que não podemos ser a Scarlett Johanson, né? Acontece que outra caracteristica definidora da MPDG (vamos de apelido porque o termo é longo) é que ela não realmente existe. Calma, existir ela até existe. Mas ela quase não é uma pessoa. Como foi dito lá em cima, a história de “500 Dias” é a história de Tom, não de Summer. Summer está no filme não como alguém, mas como quase um cenário para a narrativa de Tom. Ela não tem história própria – nós até sabemos da separação de seus pais, de seus ex-namorados e de alguma coisinha aqui e a ali sobre como ela apareceu na vida de Tom, mas não o que ela sente, quem são seus amigos e quais são suas expectativas e planos – e tudo o que vemos sobre ela é colocado para, de alguma forma, contar a história de Tom. Basicamente, Summer poderia ser até coisa da cabeça de Tom, já que só a vemos pelo olhar dele.

Assim, a MPDG pode até parecer um grande avanço em relação à femme fatale, afinal, ela é interessante por seu conjunto, e não só por sua beleza. O problema está no fato de que esse tal conjunto continua sendo uma série de idealizações masculinas. É a mulher ainda no papel de musa, existindo com a única função de inspirar um cara a mudar sua própria visão sobre a vida blá blá blá.

Depois de algum tempo, meu eu cansado de costurar vestidinhos rodados e já meio incomodado com essa história de ser controlavemente esquisita o tempo inteiro se deu conta de que a coisa toda de querer ser a Summer também era meio estranha. Afinal, essa função de musa, seja dentro do padrão ou levemente fora, é chata para caramba. Usar roupas fofas é divertidíssimo, ouvir Smiths também, mas fazer alguma dessas coisas – ou qualquer coisa – para agradar o olhar masculino é um trabalhão que não compensa em nada. E acaba sendo bem mais legal ser esquista, esquisita mesmo, feito a Lisa Simpson da cena lá de cima, com seu “all right, no husband”.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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