6 de julho de 2014 | Edição #4 | Texto: and | Ilustração:
Uma sensação, duas perspectivas: sobre estar perdida no mundo
Ilustração: Clara Browne.

Ilustração: Clara Browne.

Existe uma sensação que, por ser difícil demais de descrever usando apenas uma palavra, nós da Capitolina definimos como: “sensação horrorosa de pequenez que dá naqueles momentos epifânicos em que percebemos que o mundo é gigante e que não conhecemos nada dele”. Ufa, é quase difícil dizer isso num fôlego só. Estamos começando com esses bastidores porque no instante em que bateram o olho nesse tema, a Beatriz Rodrigues e a Luiza Sposito se voluntariaram pra escrever sobre o assunto. Só não sabiam que as perspectivas seriam tão completamente diferentes. A Beatriz acha a sensação de fato assustadora, enquanto a Luiza acha que não há nada melhor. Abaixo, elas contam um pouco mais sobre suas impressões.

O primeiro encontro da Beatriz com o outro

A gente cresce idealizando os Estados Unidos, por um monte de motivos que cansamos de ouvir nas aulas de História e Geografia. E isso leva a um monte de consequências que também já cansamos de ouvir nessas mesmas aulas. Uma delas é um sonho generalizado de viajarmos pra lá, conhecermos o país, visitar a Estátua da Liberdade ou a Golden Gate Bridge.

Eu, particularmente, sempre quis fazer uma viagem para o exterior – seja pra Europa Ocidental, por causa de toda a influência cultural que a gente vê o tempo todo nas aulas de Artes e em outros lugares, seja para os Estados Unidos mesmo, porque, né, a única outra língua que eu falo é inglês. O único problema era que minha família não tinha grana pra isso. E eu não acreditava que conseguiria realizar essa vontade até crescer, estudar muito e conseguir um bom emprego que fosse capaz de custear uma viagem como eu sempre sonhei (isso é porque eu não tinha a Capitolina na minha vida pra me mostrar que existem outros jeitos de viajar sem gastar tanto!). Dramática que sou, me perguntava até se morreria sem sair do país.

A essa altura você talvez esteja se perguntando o motivo de eu falar sobre esse meu sonho sendo que esse tema foi publicado em Maio e esse mês estamos falando sobre viagens, mundo e paradeiro. Olha só, o ponto é que eu imaginava que assim que pusesse o pezinho na fronteira (ou na alfândega do país para o qual eu viajasse) me sentiria, automaticamente, conhecedora do novo país e de sua cultura. Que mais um pedacinho do mundo estaria desbloqueado na minha frente, que nem videogame mesmo, uma luzinha nova se acenderia no meu mapa e aí eu estaria livre do pensamento de “será que é que nem nos filmes mesmo?”.

Não foi bem assim.

Em Novembro do ano passado, eu tive a oportunidade de passar duas semanas nos Estados Unidos, tudo custeado pela escola em que eu estudava. E, embora tenha sido uma das melhores experiências da minha vida (ou até mesmo por causa disso), eu não consigo me livrar de uma sensação: O MUNDO É INFINITO E EU NUNCA VOU CONSEGUIR CONHECER NADA DELE!

Eu conheço algumas cidades daqui de Minas, conheço algumas cidades baianas, algumas cidades paulistanas, Brasília e Vitória, onde eu fui quando tinha um ano de idade e nem sei se conta nessa discussão. É, com certeza, muito mais do que muita gente conhece. E ainda assim não consigo afirmar que conheço o Brasil. Visitei quatro cidades estadounidenses em dois estados diferentes, desconsiderando os aeroportos pelos quais tive que passar, e definitivamente não posso afirmar que conheço os EUA. Acho que se eu passasse um ano fazendo mochilão na Europa não conseguiria afirmar que conheço o continente.

Toda a minha realidade geográfica é completamente desconhecida de bilhões de pessoas, e, ainda assim, é tudo o que eu tenho, tudo o que eu conheço, tudo em que eu consigo apoiar minhas opiniões sobre o mundo. Eu desconheço a realidade geográfica de bilhões de pessoas e provavelmente vou continuar desconhecendo. Nunca vou saber qual é a melhor sorveteria de uma cidade do interior de Bangladesh, nem o melhor lugar pra comprar anéis na Cidade do México, nem a melhor balada de Tóquio.

Essa sensação de completa insignificância no mundo é, para mim, apavorante – o que não a torna paralisante. Dá sim um friozinho na barriga de pensar nisso tudo, mas não é por causa disso que eu nunca mais vou viajar. Até porque a única pessoa que seria capaz de ver o mundo todo em uma noite é o Papai Noel!

O vício da Luiza

Na real, acho essa sensação maravilhosa. Talvez a melhor de todas. Arrisco dizer que sou quase emocionalmente dependente dessa sensação. Explico: cresci numa cidade mais ou menos pequena, e mesmo que minha família fosse bastante liberal, todos sempre sabiam onde eu estava e o que eu estava fazendo. No meu primeiro colégio, se eu brigasse com a minha melhor amiga, a diretora colocava a gente dentro de uma sala e deixava lá até que fizéssemos as pazes. As atendentes de todas as lojas me conheciam, os pais dos meus amigos e os amigos dos meus pais me conheciam. É uma delícia até certo ponto, e hoje eu até sinto falta dessa sensação de viver em comunidade, mas é preciso experimentar o outro lado. Acho que tomei minha primeira dose da “sensação de pequenez” quando vim morar no Rio, aos 18 anos. Me apaixonei instantaneamente pelo anonimato, e pela oportunidade de me reinventar completamente. Descobrir a cidade e ser descoberta por ela. Ainda assim, aqui era minha nova casa, e não demorou para que esse primeiro encantamento desse lugar ao conforto de pertencer a um lugar.

Pra mim, o verdadeiro barato é viajar para lugares muito distantes, sozinha. Meu primeiro dia totalmente só na Europa, voltando de Praga para Londres, foi o momento em que de fato eu entendi o que era ser pequena, ser ninguém – e o quanto isso é extasiante. Meu cronograma do mochilão estava atrasado em um dia, e eu não falava com a minha mãe há uns três. Estava no ônibus à caminho da estação de trem quando me dei conta de que, naquele exato momento, ninguém sabia onde eu estava. Os meus companheiros de ônibus sim, claro, mas pra eles eu não era ninguém. Entrei num desses estados de euforia e felicidade suprema que te deixam com uma cara monga, de quem não sabe se ri ou se chora, e desci do ônibus aos rodopios, ouvindo The Verve no iPod. Isso pra mim é felicidade: independência. Não importa que essa viagem tenha sido financiada pelos meus pais – eu a organizei. Eu que quis ter essa experiência, eu que escolhi as cidades, eu que fiz esse dinheiro render mais de duas semanas, eu que tomei conta de mim. Falei línguas que não sabia falar, perdi a vergonha de taaantas coisas, aprendi mais um monte. E isso pra mim só rola quando se está totalmente só em terras desconhecidas. É um exercício que eu praticamente obrigo todos os meus amigos a fazer, pelo menos uma vez na vida. Claro que viajar com uma galera é maravilhoso, mas é um tipo diferente de maravilhoso. Algumas epifanias exigem que você esteja só para acontecer.

No fim das contas, vou ser super piegas e dizer pra vocês que a sensação horrosa maravilhosa de pequenez que dá naqueles momentos epifânicos em que percebemos que o mundo é gigante e que não conhecemos nada dele nada mais é do que a sensação de independência, elevada à vigésima potência.

 

E vocês, o que acham? Contem pra gente nos comentários!

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos