25 de abril de 2014 | Ano 1, Cinema & TV, Edição #1 | Texto: | Ilustração:
Sobre garotas e gatos: a identidade em “Girls”
Ilustração: Isadora M. Almeida

Ilustração: Isadora M. Almeida

A adolescência é uma época de muito narcisismo. Com essa afirmação, eu não pretendo trazer à tona aquela ideia de quarentões que escrevem para a revista Time e acreditam que os “jovens” (não há como expressar o meu ódio pela “coisificação” desse adjetivo) e suas maléficas selfies e smartphones são o câncer do mundo. Esses anos são naturalmente egocêntricos porque somos colocados frente a frente com diversas questões de identidade, e, ao perceber que não fazemos a menor ideia de quem somos, olhamos para dentro de nós mesmos e tentamos construir um mundo onde toda aquela bagunça faça sentido. Não é a única época em que faremos isso, mas é, de certo, a primeira e a mais importante.

Normalmente deixamos a adolescência com uma ideia, mesmo que vaga, de quem somos. Definimos alguns certos e errados, alguns gostos e desgostos, alguns “nunca mais” e outros “talvez um dia”. Mas aí vem a parte que nunca esperamos: a transição para um adulto.

Somos forçados a sair de um estado de conforto, eternidade e liberdade para tentar nos adaptar às regras que, do nada, passaram a existir. Aqui não há espaço para o seu mundo, apenas para o mundo construído pelos outros. E assim, de repente, você não sabe mais nada, e percebe que todos os seus sonhos estão mais distantes do que nunca.

E é a loucura dos jovens adultos que a controversa Girls retrata. Quatro nova-iorquinas que estão tentando ficar em pé após terem ambas as pernas destroçadas e provavelmente transformadas no café da manhã de Hannibal Lecter. Ou pelo menos é assim que suas mentes intensas percebem a realidade

Admito que demorei MUITO para começar a assistir a essa série. Eu, como muitas de vocês, tinha ouvido as piores coisas possíveis sobre sua criadora, Lena Dunham, e seu aparente racismo e eurocentrismo. Mas um dia, só de curiosidade, decidi colocar as preconcepções de lado e tentar. E acabei não me arrependendo.

Girls é uma série que, realmente, tem os seus problemas – um exemplo é a falta de diversidade racial no grupo de personagens de destaque, o que não condiz com o cenário da moderna Nova York. Porém, ao mesmo tempo, é uma série brutalmente honesta, de um jeito que eu vi pouquíssimas vezes, principalmente quando se trata de programas americanos de sucesso. Hannah, Marnie, Shoshanna e Jessa levam vidas ordinárias, mas cheias de caos cotidiano. Uma delas decide virar babá e se envolve com um homem casado, já a outra sonha em perder a virgindade, enquanto a personagem interpretada pela criadora da série, Hannah, está tentando encontrar um bom emprego após seus pais anunciarem que não irão mais sustentá-la.

Elas, assim como grande parte dos jovens adultos americanos de classe média, acabaram de se formar e estão percebendo que o mundo não apresenta portas escancaradas: se elas querem espaço, precisam conquistá-lo. Mas como fazer isso, se elas mal sabem quem são, o que querem e qual caminho tomar?

Em português simples: elas fazem muita merda. E se submetem a coisas que não deveriam, à medida que tentam encaixar sua concepção de vida no Grande Mundo de Todos. O retrato que a série constrói das garotas e das pessoas em suas vidas é extremamente neutro e genuíno, mostrando todas as facetas imagináveis de cada personagem. Não há julgamentos; assim como pessoas reais, é impossível categorizá-las somente como “boas” ou “más”, “legais” ou “chatas”, “certas” ou “erradas”, etc. Alguns dizem que é impossível amar as personagens de Girls, mas eu acho que é tão complicado gostar de uma delas quanto é difícil gostar completamente de uma pessoa após muitos anos de convívio diário. Resumindo, é algo que requer um pouquinho de esforço. E é isso que torna a série tão especial.

Você não encontrará uma lição de moral ao final de cada episódio de 30 minutos, mas apenas alguns pré-adultos tentando se encontrar (ou encontrar alguém), fazendo coisas que gritam vergonha alheia, e, às vezes, compartilhando momentos bobos que transpiram joie de vivre e nos trazem conforto. É como se colocassem fragmentos de uma vida ordinária à mostra.
Por mais privilegiadas que sejam as protagonistas de Girls, a visão crua (e muitas vezes nua) apresentada em todos os episódios da série é algo um tanto inovador. A série evoca um senso de liberdade para todos que, como eu, conseguem se encontrar nas personagens e nas situações nada idealizadas que elas enfrentam.

Nos Estados Unidos, muito mais do que no Brasil, essa parcela da população (recentemente formados em universidades, prestes a ingressar em um mercado de trabalho saturado, e extremamente endividados devido aos seus anos em uma das salgadíssimas faculdades americanas) é ridicularizada e considerada “preguiçosa” e “acomodada” por seus antecessores, que tiveram que se firmar em um mundo muito mais estável, menos apressado e com espaço de sobra.

Uma pesquisa recente mostrou que os Millennials – como são chamados aqueles pertencentes à geração Y, na faixa dos 18 aos 33 anos – têm os níveis mais altos de estresse e ansiedade de toda a população. Hannah, uma das protagonistas de Girls, sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo desde que era adolescente. O termo “quarter life crisis” (para nós, algo como “crise da meia meia-idade”) já é mencionado desde 2004, e surgiu para descrever essa nova crise enfrentada por uma geração que enfrenta a transição da adolescência e suas infinitas possibilidades para a fase adulta em que sobram dívidas e falta tempo.

Os Millennials passaram a vida inteira ouvindo que existe uma idade certa pra tudo – 22 anos, emprego bom; 25, namoro; 27, casamento; 30, bebês –, por isso entram em pânico sempre que perdem algum desses prazos, acreditando que não estão fazendo o bastante para a sua vida se aproximar do ideal de perfeição. Como eliminar a ansiedade com uma mente que funciona desse jeito?

Girls pode não ser “a voz de uma geração”, mas certamente é um retrato fiel de uma porção um tanto mal interpretada e injustiçada dela. Não são adultos falando do que não conhecem, e sim uma Millennial mostrando como é estar em sua pele. Essa não só é uma das primeiras representações honestas da geração Y, como também é fruto do ponto de vista de uma mulher – daí o seu título –, o que torna a série ainda mais impactante e, honestamente, imperdível.

É impossível negar que mídia produzida por mulheres é geralmente muito diferente daquela produzida por homens – e, se nós considerarmos o fato de que homens compõem 91% dos diretores e 85% dos roteiristas dos principais filmes produzidos, é muito diferente de quase tudo. Uma pesquisa feita pela New York Film Academy com base nos principais 250 filmes de 2012 mostrou que há um aumento de 10,6% na quantidade de personagens femininas quando uma mulher dirige um filme, e um acréscimo de 8,3% quando ela o escreve. E como disse uma das pesquisadoras do Centro de Estudos Sobre Mulheres na TV e no Cinema da San Diego State University, Martha Lauzen, no documentário Miss Representation: “Quando você tem uma maior diversidade nos bastidores, não somente se produz maior diversidade de personagens femininas na tela, mas se obtém um diferente tipo de personagem feminina.”
Um dos pontos que mais causou polêmica em Girls foi a presença de um grande número de cenas de nudez, principalmente envolvendo a personagem interpretada pela criadora da série. Mesmo tendo um corpo fora do padrão midiático, Hannah se sente extremamente confortável nua – até mesmo mais do que sua amiga Marnie, que, apesar de ser magra, é insegura em relação ao corpo, fazendo coisas como cobrir os seus seios com as mãos durante o sexo.

A presença desse contraste em Girls mostra uma sensibilidade ainda maior por parte de sua criadora. Ela reconhece a importância de uma personagem que se aceita mesmo estando fora dos padrões, mas também sente a necessidade de mostrar que ninguém está imune à insegurança, e que tê-la não faz de você uma pessoa pior.

Outro aspecto interessante da nudez em Girls é que, além de mostrar corpos mais distantes dos presentes na TV e mais semelhantes à média da população, ela nem sempre tem um cunho sexual: vemos as garotas tomando banho e conversando, trocando de roupa, etc. E mesmo quando são retratadas cenas de sexo, não há idealização das ações ou daqueles envolvidos. Afinal, sexo de verdade pode ter momentos constrangedores, e nossos corpos não parecem esculturas perfeitas o tempo todo.

É claro que nós sabemos que cenas de filmes e séries não correspondem à realidade, mas em um mundo onde a mídia tem um papel tão importante na definição de nossos desejos e até mesmo da nossa autoimagem, é reconfortante ver que a vida de ninguém é perfeita, que o corpo de ninguém é perfeito. “Perfeito” não existe. E se não fosse pela perspectiva de mulheres nos bastidores de Girls, a hipersexualização e a objetificação dos corpos femininos na televisão talvez não tivessem sido vistas como problemáticas. Perderíamos tudo que diferencia a experiência de uma jovem adulta da de um jovem adulto.

Como alguém no Tumblr brilhantemente escreveu, e eu traduzo: “Nós somos adultos, mas tipo… Gatos adultos. Alguém provavelmente deveria tomar conta de nós, mas quase podemos nos virar sozinhos.” Até que a gente se descubra, aprenda a se cuidar e consiga autonomia para trilhar a vida adulta, ainda vai tropeçar em muitas pedras, levar arranhões e passar alguns dias sem leite.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

  • Ral

    Olha, amei amei amei esse texto. Eu fico de cara com o quanto Girls é subestimada. Pra mim, é o retrato mais cru(el) de uma fase que infelizmente não é dada o devido destaque.

    E queria saber qual é o episódio favorito de vocês. Eu por exemplo sou completamente apaixonado pelo 2×05, aquele em que a Hannah passa uns dias na casa de um médico. Gente, aquilo é uma obra-prima. <3

    • bareis

      Ahhhhh, obrigada mesmo! É como eu falei, eu acho que até tem os seus problemas, mas é uma série que vale muito a pena assistir não só pela trama quanto pelo o que ela representa.

      Eu gosto muuuito do 1×07, eu acho que ele foi o primeiro episódio que eu REALMENTE amei, mas não sei dizer com certeza se ele é mesmo o meu favorito. Também gosto muito desse que você citou, acho que ele tem um tom meio diferente do resto da série que é muito legal (:

  • Helen

    Só uma coisinha: acho que o “quarter life crisis” seria mais uma “crise do quarto de vida”; a “crise da meia meia-idade” é a “mid-life crisis” 😉

    • bareis

      Eu acho que os dois termos dão na mesma, não dão? Porque se a crise da meia-idade/mid-life é o que as pessoas tem em torno dos 40, 50 anos, a crise da meia meia idade (metade da meia-idade) é o que elas têm aos 20, 25. (:

      • Helen

        Você tem razão! Na hora eu só li “crise da meia-idade”, não vi que era da “meia meia-idade”. Totalmente desatenção minha… Sorry! 🙂

  • nina

    Adorei o texto. Mas eu assisti a primeira temporada e não curti. Não por causa das cenas de nudez (acho todas as meninas lindas e na boa, nunca acho que nudez é necessária, haha). Mas não me tocou, talvez porque os problemas que elas enfrentam sejam diferentes dos que eu tive/tenho. Daí não consigo achar isso tudo. De qualquer forma, é interessante ver uma garota meio fora dos padrões se expor. Meio porque ela não é a magrinha e talz, mas do grupo da série ela é a única não magra. Mas ainda é branca de classe média, etc etc, e chata pra caramba, rs.E como tem pouca mulher por trás de projetos desse tipo, é sempre legal ter mais mesmo.
    Adam e Shoshanna foram os personagens que mais curti, talvez se tivesse mais deles eu teria resistido mais um pouco.

    Achei a análise muito boa, btw 😉

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  • Amanda

    Eu não consegui assistir. Assisti alguns episodios aleatorios, e não gostei. Daí baixei a primeira temporada toda para ver se conseguia entender a série.. parei nos primeiros minutos do 1×02. Não rolou, não consigo me identificar com a Hannah de jeito nenhum, tenho vontade de gritar “acorda menina” para ela entender que o mundo é muito mais do que o umbigo dela. Eu juro que tentei. Mas não deu.

  • Thanee

    Eu comecei a ver Girls também depois de MUITO tempo, e adorei! Eu já estou com 29 anos, mas sei bem o que é passar por todos esses dilemas, e dúvidas, e o calvário que é se encontrar. Também demorei pelos mesmos motivos que você, me incomodam as posições da Lena Dunham, mas sempre ouvi falar da série, e as colegas feministas sempre falando, dei o braço a torcer. E me amarrei! Entrou na minha lista! Mas ainda sinto falta de representação em Girls. Muita falta!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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