4 de abril de 2016 | Sem categoria | Texto: | Ilustração:
Sobre Jesus em torradas e cérebros em Deus

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O cérebro humano é um dos objetos mais complexos que existem em todo o Universo que conhecemos. Este órgão, que não pesa mais do que 2% do peso de um adulto, que contém em torno de 86 bilhões de neurônios, é o responsável pela criação deste texto, da compreensão do mesmo, da lembrança do sentido de metafísica e metalinguagem que surgem no inconsciente do leitor enquanto ele termina de ler esta frase e pela coordenação da sua respiração que em momento algum parou enquanto lê este parágrafo. Ufa!

Dentre todas as habilidades que as conexões entre neurônios diferentes podem nos oferecer, uma das capacidades interessantes do cérebro de animais é a capacidade de reconhecimento de padrões. Já reparou como em várias cenas de filme vemos pessoas embaixo das nuvens tentando adivinhar quais desenhos aparecem nessas formações globulosas de água condensada? Como tem tanta gente dizendo que viu o rosto de Jesus Cristo na torrada no café da manhã? E o que dizer das borras de chá, que segundo alguns podem prever toda a sua vida? Tais eventos são chamados de apofenia, caracterizada como um fenômeno errôneo de reconhecimento de padrões pois conectam dados aleatórios e sem causalidade aparente. No entanto, não é só em céus nebulosos e torradas que podemos encontrar tal fenômeno cognitivo.

 

O nome Capela Sistina por acaso lembra algo?

 

Em sua pintura da Capela Sistina no Vaticano, considerada uma de suas obras primas, Michelangelo parece colocar mais em evidência do que apenas seus corpos belos (e irreais) e histórias bíblicas. De acordo com a visão do ginecologista Frank Meshberger, que publicou um paper sobre o assunto em 1990, as personagens que compõe o afresco A Criação de Adão, Deus e seus anjos recriam nada menos do que um… cérebro! A fissura Silviana, uma fissura que divide o lobo frontal dos lobos parietais e temporais é representada pela protuberância da capa de um dos anjos e da túnica utilizada por Deus. Os anjos que suportam Deus representam uma estrutura similar ao tronco encefálico. O pé de um dos anjos que se encontra atrás da faixa verde representaria a glândula pituitária. A faixa em si, uma artéria vertebral. Estaria por acaso Michelangelo insinuando que Deus seria a metonímia da inteligência humana em si?

A ideia é sedutora, pois lembremo-nos que Michelangelo era um exímio anatomista e estava habituado a realizar dissecções em cadáveres sem a autorização do Vaticano, razão pela qual o mesmo destruiu todas suas anotações e trabalhos sobre este assunto. Por esta perda lastimável, não temos nos dias de hoje anotações precisas da intenção do artista, e não podemos ter a voz do próprio para explicar as similitudes entre peças anatômicas e suas pinturas. Nos resta então apenas especulações e curiosidades.

Estaria Michelangelo escondendo peças de seus estudos condenados pela Igreja em obras comandadas pela mesma? Seria, no mínimo, um pequeno prazer gozado pelo o artista em vingança ao silenciamento de seus estudos.

 

O debate é polêmico: envolve neurocientistas, médicos, anatomistas, químicos, ginecologistas, historiadores da arte e leigos. Não apenas o afresco A Criação de Adão foi inspecionado: em 2004, uma dupla de brasileiros de São Paulo, Gilson Barreto e Marcelo G. de Oliveira, respectivamente médico e químico, publicaram um livro onde vasculharam grande parte das representações da Capela Sistina em busca de peças anatômicas camufladas. Mais recente, em 2010, um grupo da prestigiada John Hopkins publicou na revista Neurosurgery um artigo de análise do afresco Separação da Luz e das Trevas, onde se teria uma visão ventral do tronco encefálico na figura de Deus. Em 2013, outro trabalho brasileiro, desta vez no Journal of Morphology, que discute de forma geral se essas coincidências são meramente devaneios ou se são propositais do renascentista.

Na oposição, temos uma turma que defende que são meros eventos de apofenia, onde o observador tenta tirar mais do que é oferecido da pintura. Pode ser que, no fundo, Michelangelo não tinha a intenção de revelar peças anatômicas em seus quadros, mas que, ou por mera coincidência ou por estar habituado à realizar dissecções, as peças submergiram de forma inconsciente em seu imaginário.

Verdade ou não, anatomia ou pura imaginação: o debate, acima de tudo, provoca interesse. O interesse vem do fato de ser criada uma tênue relação entre dois domínios que aparentam ser separados, Ciência e Arte, mas que na verdade se apresentam quase como amantes discretos (às vezes, bem explícitos). Se observamos um indivíduo olhando atentamente para a Natureza ao seu redor, a paixão pela curiosidade em seus olhos não será o suficiente para discriminá-lo de um artista que tenta prever uma palheta de cores para seu próximo quadro ou se é um cientista tentando classificar a fauna e a flora do local em questão. O mesmo é válido para Michelangelo: ao pintar a Capela Sistina, estaria ele utilizando os olhos metódicos e aguçados de um anatomista ou os olhos dotados de sensibilidade e astúcia de um artista?

Nunca teremos uma resposta definitiva para toda esta discussão, mas não há nenhum problema. A Ciência não tem a audácia de ter a resposta para tudo neste Universo e a Arte é aberta o suficiente para nos dar diversas interpretações sobre uma mesma obra.

Que apreciemos somente, então, esta maravilhosa composição feito pelo mestre italiano.

 

Para saber mais:

Barreto, G. and Oliveira, MG. A arte secreta de Michelangelo: uma lição de anatomia na Capela Sistina. São Paulo: ARX, 2004.

Kickhöfel, E. H. P. (2004). Uma falsa lição de anatomia ou de um simples caso de impregnação teórica dos fatos. Scientiae Studia, 2(3), 427-443.

 

 

 

 

Eduarda Streit Morsch
  • Colaboradora de Ciências

Eduarda Streit Morsch nasceu em terras cariocas, embora de vez em quando se sinta meio alienígena, pra falar a verdade. Estuda Biofísica na UFRJ e sonha em ser neurocientista e professora universitária. Sendo seu maior ídolo Leonardo da Vinci, de vez em quando E.S.Morsch tenta rabiscar algumas coisas pra dizer que é artista e cartunista também. E ah, adora escrever e ler (sua pilha de livros esperando para serem lidos é incrivelmente maior do que sua própria altura).

  • Mariana Moraes

    Esse assunto é realmente fascinante, primeiro por considerar as obras de Michelangelo incríveis e por realmente ser possível fazer uma ponte sobre suas habilidades com a anatomia e a possível aparição de órgãos em suas obras.

    Mas ali quando você cita: “Estaria por acaso Michelangelo insinuando que Deus seria a metonímia da inteligência humana em si?” já li artigos de historiadores e até alguns livros de religiões que dizem ter ocorrido um equívoco na interpretação sobre a existência ~real~ de um deus e que na verdade insistimos em buscar deus nas alturas quando na verdade seria a ascensão intelectual do ser do tipo o segredo se esconde dentro. E usavam citações usadas ao longo da história e que apontavam um ideia comum, como: o reino de deus está entre vós, conhece-te a ti mesmo ou não sabeis que sois deuses? É algo interessante de se ler, até pela questão de que muitos documentos e trabalhos foram perdidos com o passar de tempo. Ótimo texto aliás, haha! 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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