9 de agosto de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Sobre mudanças e se afastar (ou não) dos amigos
Ilustração de Beatriz H. M. Leite

Ilustração de Beatriz H. M. Leite

Era uma vez, eu – com 9 aninhos! Eu tinha acabado de mudar de cidade, de Campinas para São Paulo, e estava indo morar em um prédio novo. A primeira vez que eu pisei lá, lembro de ouvir crianças da minha idade correndo e brincando e, por alguns meses, fiquei com muita vontade de descer e brincar também, mas eu era muito tímida. Só que quando eu fiz amigos lá, eu descobri que brincar no prédio era minha nova coisa favorita. Minhas férias eram literalmente ir para casa só para comer e dormir e, muitas vezes, jantávamos e almoçávamos qualquer coisa lá embaixo também. Era uma época incrível! Foi lá que eu morei por quase 7 anos e lá que fiz algumas das minhas melhores amigas. Nós éramos quatro, inseparáveis.

Em outro texto aqui da Capitolina, eu falei que eu tive por algum tempo dificuldade em fazer amigos na escola, então, ir para casa depois de um dia de aula era um alívio, porque lá eu tinha as minhas amigas e amigos com quem eu podia ser eu mesma. Era como se a minha casa tivesse se expandido à casa das pessoas que moravam lá e à toda a área comum do prédio. E sempre que eu queria brincar ou conversar, era só ligar para alguma das minhas amigas e em cinco minutos estávamos juntas.

Tudo isso para falar sobre quando, em um belo dia, meus pais disseram que a gente ia se mudar para o prédio onde eu moro hoje. Eu já tinha me mudado de escola e de cidade antes. Aliás, com 11 anos eu mudei para a escola em que eu acabei me formando e fiquei triste por deixar minha escola antiga, assim como fiquei quando me mudei de Campinas. Em ambos os lugares eu deixei amigos. Mas nunca tinha sido como foi ter que mudar desse prédio. Minhas melhores amigas estavam lá e iam continuar juntas, e eu ia ficar completamente sozinha. Acho que quase todo mundo já passou por isso, né? Se você está passando, não pare de ler que a história tem um final feliz.

Bom, teve muita choradeira. Eu não queria mudar! Eu não queria deixar minhas melhores amigas e não queria deixar aquele lugar pra trás! Eu tinha crescido lá, me divertido horrores, conhecido um monte de pessoas, ou seja, podia ser só um prédio,  mas era um lugar tão importante e cheio de pessoas importantes pra mim! Mas os meus pais me diziam que eu poderia voltar para vê-las quando quisesse (da minha casa atual para lá de carro são 15 minutos e de ônibus no máximo 25), que elas poderiam vir em casa também e que nossa amizade não ia mudar.

Bom, é claro que a nossa amizade mudou. Quero dizer, eu nunca mais passei as férias inteiras brincando no prédio e voltando pra casa só para almoçar. Não estávamos mais juntas o tempo todo, mas, se você quer saber, hoje mesmo, no dia em que escrevi esse texto – e já já faz 5 anos que eu mudei de lá! – essas mesmas três amigas vieram aqui em casa me ver. E nos divertimos como sempre.

Quando eu me mudei, eu senti que ia ficar excluída, porque elas poderiam continuar se vendo sempre e não me veriam mais. Mas, no fim das contas, nós quatro continuamos sendo um grupo. E elas não passavam mais o tempo todo juntas, porque todas nós crescemos e cada uma foi fazer uma faculdade ou estudar uma coisa diferente, duas delas até se mudaram (mas ainda têm pais que moram naquele prédio, e, por isso, ainda se veem mais do que eu as vejo). Claro que a amizade delas comigo era diferente daquela entre elas. Me ver era mais raro e mais difícil. No começo era ainda mais difícil do que é hoje, mas nós fomos nos adaptando e a vida, naturalmente, foi mudando também. Pode ser que eu não as veja mais com tanta frequência, mas toda vez que nos vemos temos um milhão de coisas para contar. Passamos por experiências diferentes por não sermos mais tão grudadas, então aprendemos mais umas com as outras agora. E, hoje, o “passar o tempo todo lá embaixo juntas” não é mais um desejo não realizável, e é uma lembrança das mais gostosas que eu tenho. Transformou-se em uma memória que não é nada doída, em um passado que já não se encaixa mais na minha vida hoje, mas que, nem por isso, deixou de me marcar. Nunca é legal ter que se distanciar dos seus amigos com quem você convive bastante, eu sei muito bem. Mas vai se tornando mais fácil. Quando eu me formei também tive que passar pela mesma mudança. A diferença é que estávamos todos mudando juntos (e foi até mais fácil passar por isso quando eu já tinha tido a experiência e já sabia que não tinha sido uma catástrofe total!). Não foi a primeira e nem será a última vez que isso vai acontecer. Mas o importante é saber que não precisamos ter medo de nossa amizade mudar. É claro que, nessas mudanças, eu acabei perdendo contato com muita gente, mas também perdi contato com muita gente sem me mudar de escola ou cidade ou prédio. As amizades que valem a pena, a gente tem que acreditar que vai conseguir manter. Nenhuma amizade se mantém exatamente igual para sempre, então o que você deve fazer é entender a sua mudança para longe dos seus amigos como qualquer outra mudança natural que você sofreria. Nunca aconteceu de um amigo ou amiga começar a namorar e a amizade de vocês mudar, por exemplo? É a mesma coisa, às vezes a amizade acaba de vez por uma coisa dessas, às vezes apenas muda. E foi isso que aconteceu comigo e minhas amigas. Mudou.

Se você quer muito continuar com seus amigos e amigas depois de uma mudança dessas, o importante é mostrar que tem interesse em fazê-lo, porque é claro que eles estão confortáveis, pois não passaram por nenhuma mudança tão grande. E podem não saber como te procurar ou achar que, se você não procurou, é porque se mudou e se esqueceu deles. Tente ligar sempre, mandar mensagens no Facebook, contar suas novidades. Se fizer tempo que você não fala com uma dessas pessoas e der saudades, poste uma foto com ela com um textinho dizendo que sente a sua falta. Se você não é de postar muito nas redes sociais, por que não mandar por mensagem? Ou, quem sabe, mandar uma carta? Com certeza a pessoa vai ficar super feliz. Se vocês não moram tão longe, tente visitar ou marcar coisas sempre que possível (e isso vale também se você está do outro lado, e é uma amiga sua que está mudando) e, se mudou de cidade, convide seus amigos para passar uns dias com você ou se convide para passar uns tempos na casa de um deles também! Não se sinta mal por ter que se esforçar um pouco para manter a amizade no início, se é isso mesmo que você quer. E, naturalmente, vocês vão aprendendo a lidar com as mudanças que a amizade de vocês sofreu. As coisas mudam o tempo todo e você não percebe porque você vai se adaptando a elas aos pouquinhos. Se você pensar na sua amizade com seu amigo mais antigo com quem ainda tem contato, e comparar com o que vocês têm hoje, vai ver que a amizade não tem mais absolutamente nada a ver com o que era antes. Mas, no dia a dia, provavelmente, não parecia que estava mudando. Quando a mudança é assim tão brusca, é natural que seja mais difícil se adaptar. Mas tente não pensar tão pro futuro assim, tente pensar em um dia após o outro e você vai ver que, quando menos esperar, vai ter se acostumado às mudanças nas suas amizades e a lembrança de como era antes não será mais tão dolorida, será uma lembrança gostosa. Não desanime se, de um grupo grande de amigos, você perder o contato com alguns. Se esforce para manter aqueles que você quer muito manter. Talvez com alguns a amizade enfraqueça, mas, em alguns casos, pode muito bem fortalecer. Se minhas amigas estavam aqui comigo hoje, é porque em algum momento nós todas nos esforçamos para nos manter unidas. Em alguns momentos pareceu que não ia dar, mas como eu (e provavelmente elas também) queria muito que essa amizade ficasse viva, encontramos um jeito. E você encontrará também.

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Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

  • Bianca Xavier

    Caramba, que bonito. 🙂

  • Querida Anônima

    Queria que vocês da revista escrevessem uma matéria que falasse mais sobre amizade, no quesito de não conseguir fazer amigos, ou de quem não teve tempo suficiente de criar laços com as pessoas. Eu, por exemplo, não tive tempo de criar laços com as pessoas nem nada. Me sinto sozinha, principalmente por que mudei de cidade faz pouco tempo, e não consigo, por que me sinto muito diferente. De resto, o texto é muito inspirador.

    • http://biadrill.tumblr.com/ Beatriz Trevisan

      Querida Anônima (hahaha!), nós da área de Relacionamentos ficamos felizes e gostamos muito da sua sugestão e pretendemos escrever sobre isso. Realmente, mudar de cidade é mais difícil para quem demora mais para criar laços ou tem mais dificuldade em mantê-los, acho que seria super legal ter isso como pauta. Obrigada!

  • Pingback: Alguns medos inevitáveis | Capitolina()

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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