27 de dezembro de 2015 | Ano 2, Edição #21 | Texto: e | Ilustração: Sarah Roque
Sobre muitos deuses e as energias que eles representam
politeistas-SarahRoque

As religiões politeístas são chamadas assim pois consideram que existe mais de uma divindade. Muitas religiões mais antigas (que podem também ser chamadas históricas) são assim, mas por conta do crescimento do cristianismo passaram a ser chamadas de religiões “pagãs”, junto com qualquer outra crença que fosse muito diferente da cristã.

As politeístas, em especial, eram (e ainda são) vistas como inferiores e por muito tempo nem eram chamadas de religiões, e sim consideradas magia por, entre outras coisas, não acreditar em um deus único. A gente já falou um pouco sobre isso, no ano passado.

Por causa dessa generalização, jogando diversas religiões diferentes dentro de um mesmo nome, a gente pode considerar três divisões maiores pra entender melhor: o politeísmo histórico, que fala de religiões antigas consideradas importantes para a história ocidental, as religiões indígenas, folclóricas e étnicas (o que abrange muita, mas muita coisa diferente, mas menos estudada pela história eurocêntrica) e o neopaganismo, que seriam as reconstruções de religiões pagãs históricas já extintas (a wicca, por exemplo, entraria nesse grupo).

Uma característica muito presente em religiões politeístas era a forte relação com elementos da natureza, que eram personificados nas figuras míticas das crenças. Isso era presente na Grécia Antiga, onde os deuses tinham características humanas, mas eram também representativos de elementos da natureza, como Poseidon, deus dos mares, e o próprio Zeus, deus dos céus ou dos trovões. No Egito Antigo, assim como na Roma Antiga, as religiões também eram politeístas e seguiam a lógica de representar elementos da natureza e da vida cotidiana na forma de divindades.

Essa relação também estava presente nas américas, com os povos pré-colombianos e suas religiões, que também se baseavam nas relações com a natureza. Nos povos astecas, por exemplo, a mistura de tradições agrícolas e bárbaras se traduzia em deuses responsáveis pela agricultura e colheita, e tinha como figura central o deus que representava o Sol.

A maioria dessas religiões, no entanto, é considerada extinta. No entanto, pensar que não existem mais religiões politeístas é um erro muito grande e mostra como a nossa cultura e nossa própria história ainda é muito moldada em torno dos preceitos judaico-cristãos. Na própria escola, é comum ouvirmos de professores que as religiões evoluíram do politeísmo para o monoteísmo, como se um fosse melhor do que o outro, quando na verdade se tratam apenas de formas diferentes de entender o mundo. Só que uma, no entanto, se tornou dominante no ocidente, e, para manter sua posição, acaba por inferiorizar as outras.

Uma religião 100% brasileira

No Brasil, as religiões de matrizes africanas têm um papel de destaque.
Trazido para o nosso país pelos africanos escravizados, o candomblé durante muito tempo foi considerado feitiçaria e teve a sua prática perseguida, proibida e criminalizada por anos, hoje em dia o preconceito ainda é grande e apenas 0,3% da população brasileira (cerca de 600 mil pessoas) se declara praticante da religião, segundo dados do último censo IBGE. Mas os números não batem com a quantidades de “simpatizantes” que oferecem flores no mar para Iemanjá na virada do ano, por exemplo. Por isso organizações culturais afro-brasileiras, como a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab), dizem que o número real chega a 70 milhões de brasileiros.

O candomblé como se conhece hoje é considerado uma religião 100% brasileira e diferente de qualquer outra existente em outros países, já que ele se formou aqui através da união dos cultos e saberes de negros provenientes de regiões e etnias diversas da África. Trancafiados dentro de uma mesma senzala houve muita troca cultural e com um pouco de informação de cada um surgiu então este novo culto. Atualmente as nações (raíz, região de onde veio o candomblé) mais presentes são as Ketu, Jeje e Angola e, apesar das inúmeras especificidades entre si, tem em comum o fato de cultivarem divindades que estão ligadas às energias da natureza e/ou às forças dos animais. Quem nunca ouviu falar de Iansã, a deusa dos raios e ventos? Ou de Oxum, a mãe das águas doces?

Essas divindades são os orixás, também chamados de inquices ou voduns dependendo da nação, e diferente dos santos da igreja católica, eles têm defeitos assim como nós: são temperamentais, briguentos, vaidosos, ciumentos, maternais. Cada um tem uma personalidade diferente, geralmente associada a um elemento da natureza que representam, e todos eles têm uma história, uma mitologia, que explica o porquê de serem o que são.

Enquanto na África as raízes do candomblé eram totalmente patriarcais, aqui no Brasil a coisa se tornou diferente e a religião ganhou características matriarcais, sendo lideradas por várias mães de santo que foram pioneiras em preservar as tradições dos nossos ancestrais africanos com a criação dos primeiros terreiros de candomblé em fins do século XVIII.

Júlia Freitas
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Júlia Freitas, jornalista em busca do mestrado perfeito, se interessa por tantas áreas que não sabe por onde começar. Típico de libriana. Militante afrofeminista e dos movimentos sociais, morou em Nova Iorque e lá estudou de tudo um pouco. Mas o dendê corre na veia e ela voltou pra Bahia. Por enquanto.

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
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Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

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