14 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: and | Ilustração:
Sobre não pertencer
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

É muito comum sentirmos que não pertencemos a lugar algum. Às vezes, parece que sempre seremos assim, sozinhas, deslocadas. Por horas, parece até que somos erradas no mundo. Mas pensar isso é uma bobagem tremenda. A verdade é que todo mundo se sente assim na vida. Sempre passamos por momentos de deslocamentos e isso é normal. Conversando sobre esse sentimento na Capitolina, percebemos que, na verdade, ele é muito mais comum do que pensávamos. Por isso, a Beatriz Trevisan e eu contaremos um pouco mais de nossas experiências, mostrando que: ei, tudo bem se sentir assim. Isso não quer dizer que você é pior ou melhor que ninguém, não quer dizer que você é errada ou que não tem lugar no mundo. Não se sentir pertencente a algum lugar não precisa, nem deve, ser um problema.

Beatriz Trevisan:

Eu sempre tive, e tenho até hoje, com meus 20 anos, a nítida sensação de que eu não pertenço talvez a lugar nenhum. Tem vezes que é uma sensação em um âmbito um pouco menor, como, por exemplo, dentro do universo da minha faculdade ou da minha casa, mas tem dias em que é como se eu não me encaixasse nesse universo. Começa da minha aparência: alguns dias é como se eu simplesmente não conseguisse me misturar com as outras pessoas. Eu sempre sinto que eu estou chamando muita atenção, não por ser diferente no sentido de ter um estilo ou uma beleza diferente, é só como se eu não conseguisse me misturar, como se minha espécie não fosse a mesma espécie dos outros seres humanos. É uma sensação muito esquisita. E às vezes ela sai da dimensão da aparência e fica um pouco mais profunda que isso. É como se ninguém mesmo no mundo fosse me entender. Como se eu nunca fosse me encaixar em nenhum grupo, nenhuma posição política, em nenhum mundo de pessoas que não eu mesma, só ao meu próprio, simplesmente porque meu conjunto de ideias e experiências são ideias e experiências que ninguém nunca teve iguais e nunca terá. E aí eu me sinto assim, meio triste, meio incompreendida, porque me sinto sozinha. Sinto medo de ninguém nunca me entender. De eu mesma não me entender.

Mas a verdade é que provavelmente ninguém tem as mesmas ideias e experiências que as nossas mesmo. Acho que ninguém tem. Mas isso não é motivo para nos sentirmos mal. Não só porque isso significa que somos indivíduos únicos, também porque isso faz as pessoas se aproximarem, complementarem, acrescentarem mais umas às outras. Além disso, ninguém tem que nos entender além de nós mesmas. Se conseguirmos que todos nos entendam, ótimo. Mas antes de tudo, devemos dar prioridade a nós mesmas nos conhecermos e compreendermos. Qualquer pessoa que nos faça sentir mal por algo que gostamos ou fazemos (a menos que, obviamente, isso faça mal a alguém) não está com a razão. Não há motivo para sentir vergonha por pensar diferente dos outros ou de fazer as coisas de outro jeito, porque ninguém é exatamente igual. E se nós conseguirmos nos concentrar em conhecer a nós mesmas, e conseguirmos nos compreender um pouquinho melhor (porque eu acho que se nos compreendêssemos completamente não teríamos mais nada a aprender sobre nós mesmas e isso seria chato!), não vamos fazer tanta questão de que outras pessoas nos entendam. Se nos bastarmos, formos completas sozinhas, será bem mais fácil a convivência com os outros, porque não daremos tanta importância para a expectativa deles quanto a nós. E aí todas as relações, as individuais e as interpessoais, se tornam menos desgastantes. Claro que ter isso na cabeça é diferente de colocar na prática. Estou falando isso tudo mas também estou muuuito no começo do caminho. Mas é isso que é: um caminho. Um processo. E é possível chegar lá.

Clara Browne:

Eu escrevi e reescrevi esse texto inúmeras vezes. Pensei em falar da minha experiência de quando cheguei em São Paulo e não me sentia da cidade, ao mesmo tempo em que, quando eu voltava para a minha cidade natal nas férias, meus amigos e familiares faziam questão de apontar que eu não era de lá. Pensei em falar de como até hoje meu sotaque é uma mistura confusa e como todo mundo acaba comentando a mesma coisa: Nossa, mas seu sotaque é estranho, de onde você é? Depois, pensei em contar da minha experiência no último ano de colégio, quando já não me sentia mais àquele lugar. Ou de quando voltei para assistir o projeto de teatro no ano seguinte em que parei de ajudar e percebi que aquele não era mais o meu lugar. Também pensei em falar de como meus melhores amigos, de repente, pareceram estranhos pra mim. De como eu me sentia horrível perto deles, como se eu estivesse mentindo sobre quem eu era ou como se eles ignorassem a minha presença. Pensei em falar de como me senti abandonada, apesar de que, praticamente, quem abandonou eles fui eu – pois fui eu quem me afastei, por mais que eles me ligassem e me chamassem para sair, por mais que às vezes doesse vê-los juntos e felizes, enquanto eu estava tão afastada.

Tem dias que parece que eu sou mesmo da Terra de Ninguém, um lugar longínquo e triste. População? Eu. Mas sei que isso é apenas uma forma de tentar explicar esse sentimento abstrato (abstrato no sentido de sem nome, porque todos os sentimentos são abstratos, né) de não pertencer. E esse sentimento pode se dar de diversas formas. Como disse anteriormente, pode ser pela mudança literal de cidade, pode ser na sua relação com os amigos, com os familiares, pode ser seu jeito de pensar que parece diferente daqueles que estão a sua volta, pode ser sua aparência diferente das de com quem você convive ou mesmo os gostos e interesses. São milhares de coisas que podem te levar a se sentir assim não pertencente.

Mas depois de quase uma vida inteira me sentindo de lugar algum, o que percebi é que todo mundo se sente assim. Porque não pertencer não tem a ver com nada além do que a mudança. Todas as vezes que esse sentimento bateu forte em mim foram em momentos de grandes mudanças: quando fui morar em outra cidade, quando estava no último ano do colégio, quando passei a me interessar por assuntos diferentes dos meus amigos, etc, etc, etc. Aqui, na verdade, só dei exemplos mais concretos, mas todas as vezes que passei também por mudanças interiores, esse sentimento veio à tona (talvez, até muito mais do que quando foi algo mais palpável). Mas o que quero dizer é que a mudança é inevitável. Ela é o rumo natural das coisas e não adianta tentar se adiantar para derrotar o universo antes.

É como se você estivesse segurando um dente-de-leão na sua mão. E, aflita, você pensa no que desejar para ele. Como se aquele seu sopro fosse definir todo o seu futuro, realizar todos os seus desejos. Mas, enquanto você pensa, o vento surpreende e sopra todo o seu futuro sem que antes você consiga pensar em qualquer coisa. Agora, você está apenas com aquele cabo verde e inútil nas mãos. Não adianta tentar voltar atrás, se esforçar para buscar todas as plumas – elas se foram ao vento, se espalharam pelo mundo. Primeiro, talvez, vem o desespero. O que fazer agora? Num momento, você tinha tudo em suas mãos; agora perdeu todas as suas chances. Então, você se apega ao caule, àquele passado. É quando, finalmente, você percebe: aquela ideia de futuro que já não cabe mais a você. Largue o caule no chão, ele não te serve pra nada. No céu, o sol brilha e esquenta o seu rosto. A brisa brinca com seus cabelos. E, dentro de si, algo cresce. Algo que não é sentimento: é você mesma. Você está inteira e é isso o que importa. O resto é consequência. Você está inteira e pertence ao mundo todo.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

  • Larissa Karinne Inácio

    oii Clara não e só voce que sente assim viu eu me sinto também é como se também não ouvesse lugar pra min, as vezes tendo ser quem eu não sou pra agradar outros ,eu comecei ver que minha melhor amiga e diferente de min,ela só fala de como ela istu aquilo eu acabei separando dela mais e intendo um pouco ,já não sei que fazer se sentir sozinha e tão dificil ,mais eu que me afasto das pessoa mais como vou ser alguém que elas querem e complicado

    • Clara

      Oi, Larissa. É, infelizmente, isso é muito comum. Às vezes, vale a pena conversar com a sua amiga e abrir o jogo pra ela. Mas também tem horas que o melhor é deixar rolar e seguir em frente. Pode ter um momento em que a gente se sinta mais sozinha, mas logo depois também encontramos novos lugares onde nos sentimos acolhidas!

  • victória

    ô gente, mas vocês acham que isso acontece com as pessoas que acontece por quê? eu tenho reparado que tem gente que não se parece com os outros tanto quanto eu mas eles não têm necessidade de se encontrar, ou nem ao mesmo se sentem não pertencentes; não ligam. por que a gente liga então?
    será que isso seria um pouco de insegurança? egocentrismo? 🙁

    • Clara

      Victória, particularmente, acredito que todo mundo passar por isso, porque todo mundo passa por mudanças. Pra mim, esse sentimento de não pertencer tem a ver com isso: mudar. O que não tem necessariamente a ver com você se parecer mais com os outros ou não, entende? Esse sentimento é muito mais ligado a mudanças internas por quais você passa – e como elas influenciam a sua forma de lidar com o mundo. Mas tem gente que transpassa mais esse sentimento do que outros. De qualquer forma, cada um tem um jeito de lidar com isso e, muitas vezes, pode ser tomando essa atitude de não ligar (apesar de, no fundo, se importar sim).

  • julia

    Mas que matéria maravilhosa! Estava aqui vagando pelo site da revista quando me deparo com esse título… Acho que me encontrei com essas palavras de vcs no momento certo da minha vida. Pra mim, o problema de não pertencer é que me sinto muito sozinha e, como estou nesse período de mudança, era a fase que mais precisava me apoiar em alguma coisa pra conseguir continuar seguindo minha vida de forma retilinea. Só agora estou conseguindo enxergar de forma clara que a vida, na verdade, é um emaranhado de caminhos e essa insegurança e sentimento de não pertencimento são as milhares de possibilidades se abrindo bem na nossa frente, fazendo com que fujamos da nossa zona de conforto e pertencimento.
    Muito obrigada! Fico muito tranquila em saber que há pessoas que se sentem “deslocadas” no mundo assim como eu (: não estamos sozinhas Hahahah
    Bjos

  • Jéssica Reisner

    Me identifiquei demais com esse texto! Tenho 18 anos e por muitos anos meus pais tem mudado de cidade e essas mudanças me impediram de criar vínculos pessoais. E mesmo quando eu consigo maior conhecimento de outras pessoas me sinto tão diferente e deslocada. Obrigada por postar isso e me ajudar a aceitar que ser (ou apenas sentir-se) diferente é algo mais normal do que pensamos.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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