3 de abril de 2015 | Edição #13 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Sobre o tempo

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”
(Santo Agostinho, Confissões)

Às indagações do filósofo Santo Agostinho, o Houaiss responderia, de maneira bem direta e assertiva, que tempo é o “período sem interrupções no qual os acontecimentos ocorrem; a continuidade que corresponde à duração das coisas (presente, passado e futuro); aquilo que se consegue medir através dos dias, dos meses ou dos anos”. Mas há quem se satisfaça com essa explicação? Sei lá, eu não me convenço. Pra mim não existe questão metafísica mais fascinante e angustiante que o tempo, e sob tantos aspectos diferentes que fica quase impossível listar todos, mas vamos tentar.

Meu interesse pessoal pelo assunto advém do fato de que o tempo controla tudo. Do instante em que somos concebidos ao instante em que morremos, estamos 100% à mercê dele, e tudo que podemos fazer é tentar aproveitar ao máximo a viagem. O tempo é a grande unidade de medida da vida: em torno dele organizamos nossos dias, damos conta de nossos relacionamentos, acompanhamos o progresso de nossas etapas de aprendizagem, marcamos nossa estadia em determinados locais. E nessa equação vida/tempo o que mais me chama atenção é a questão da memória. Quanto mais tempo passamos aqui na terra mais memórias acumulamos, e ao mesmo tempo mais propensos estamos a esquecê-las, o que pra mim se configura como uma grande crueldade. Eu morro de medo de esquecer as coisas, e não só as práticas, como o horário do meu médico na semana que vem, mas também e muito especialmente as impalpáveis, como a sensação do chão de ardósia do playground do primeiro prédio onde morei.

Já que infelizmente não podemos dar << na vida pra assistir aos melhores momentos, sou a favor de que capturemos as memórias da melhor maneira possível, mesmo sabendo que a reconstrução nunca equivalerá à realidade. Fotos, vídeos, diários e até mesmo ficção – o que for preciso para que o passado siga iluminando o presente. Não que eu seja uma pessoa saudosista ou excessivamente nostálgica, mas sou do time que acha que somos um acúmulo daquilo que veio antes, e sendo assim gosto de ter o passado sempre por perto. Na graduação, li um livro chamado Potiki, da autora neozelandesa (e Maori) Patricia Grace, e fiquei muito encantada com as suas descrições da maneira como os Maori enxergam o tempo – não como uma linha reta e sem retorno, mas como uma espiral, algo sagrado e maleável, do qual fazem parte parte tanto os vivos quanto os mortos. Algumas tribos indígenas brasileiras também têm noções diferentes de temporalidade, ou simplesmente não entendem o conceito. E, mesmo que pra nós seja difícil capturar essas ideias, pra mim já basta que elas existam e que me perturbem.

Outra coisa que me encanta é a parte científica, mais precisamente a Teoria da Relatividade de Einstein, de onde deriva a teoria da dilatação do tempo, responsável por aquela sequência maravilhosa e assustadora de Interestelar em que dois personagens passam alguns minutinhos num planeta e, quando retornam à espaçonave, o companheiro de missão que ficou trás havia esperado por eles durante mais de uma década. Isso é possível porque Eisntein descobriu que o tempo passa mais lentamente para um corpo que está em movimento, e também em campos gravitacionais mais fortes. Isso não faz a menor diferença aqui na Terra, onde a velocidade e a duração das viagens são limitadas, e a força gravitacional, constante, mas se fosse possível passar um ano dentro de uma espaçonave que se desloca a 1,07 bilhão de km/h e depois voltar para a Terra, as pessoas que ficaram por aqui estariam dez anos mais velhas! No filme, o que acontece é que o planeta visitado pelos astronautas é bem próximo do buraco negro que eles estão investigando, e portanto tem um campo gravitacional bem mais forte, fazendo que o tempo passe bem mais devagar. Que isso seja uma verdade física, passível de comprovação matemática, fode com a minha cabecinha.

Uma aplicação prática dessa teoria é a calibragem dos satélites de GPS, que nos ajudam a navegar aqui embaixo. Sabe-se que a velocidade de 14 mil km/h dos satélites faz seus relógios internos atrasarem 7 milionésimos de segundo por dia em relação aos relógios da Terra. Também é sabido que eles sentem menos a gravidade (pois estão a 20 mil km de altitude), e que por isso adiantam 45 milionésimos de segundo por dia. Somando as duas variáveis, ocorre um adiantamento de 38 milionésimos por dia, que precisa ser acertado no relógio do satélite. Quer dizer, se não fosse a teoria de Einstein, o sistema acumularia um erro de localização de cerca de 10 km por dia.

Bem legal, né? E aquela sensação de que a cada ano o tempo passa mais rápido? Há algumas explicações possíveis, segundo cientistas. Primeiro o aceleramento geral da vida na contemporaneidade – todas as nossas experiências giram em torno de economizar tempo, para que em tese pudéssemos gastá-lo fazendo algo que nos desse prazer, mas a verdade é que apenas aceleramos mais pra fazer mais coisas, e assim nos desconectamos cada vez mais das experiências que marcariam de maneira mais acentuada o tempo. A outra questão, que está ligada a essa, é a de que à medida em que o tempo vai passando, vamos tendo cada vez menos memórias inéditas, como o primeiro beijo, a primeira viagem e o primeiro ano do ensino médio, e sem esses grandes acontecimentos para marcar o espaço entre uma memória e outra, acabamos com a sensação de que o tempo acelera.

Ou seja: o melhor jeito de se dar mais tempo aqui na Terra, ou pelo menos a sensação de que o tempo não está voando e escorrendo pelos seus dedinhos, é não parar de ter primeiras vezes. Lembro sempre aquela frase cliché, mas tão importante: “Quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?”

Se faz muito tempo, ou você nem consegue lembrar, é sinal de que é preciso se mexer.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

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