5 de junho de 2014 | Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Sobre peitos, amigos, cirurgias plásticas, o que falam por aí e estar bem consigo mesma: um relato pessoal
Ilustração: Verônica Vilela.

Ilustração: Verônica Vilela.

Eu sempre tive muito peito. Desde os oito anos sabia disso. Lembro-me de quando eu viajava para minha cidade natal e ia com a minha antiga escola para um acampamento que tinha anualmente; quando minhas antigas professoras achavam que eu já não estava perto para ouvir, sempre comentavam de como eu tinha seios desenvolvidos. Mas eu ouvia. Sempre ouvia e me envergonhava. Eu não queria ser diferente, não queria que comentassem de mim, muito menos com aquele tom de choque que faz tudo virar fofoca.

Mas os anos se passavam e meus seios cresciam mais e mais e mais. Aos 13 anos, eu fazia de tudo para escondê-los e quando reclamava deles para minhas amigas, elas me ignoravam. Diziam que eu não tinha do que reclamar, diziam ter inveja de mim porque todas tinham pouco busto, menos eu. Elas começavam a falar dos problemas de não ter peito e ainda me chamavam de sortuda, porque “garotos preferem peitão”. Mas eu não preferia. Eu odiava ter que carregar aquelas duas coisas comigo. Mas minhas amigas riam de mim e voltavam a falar que “garotos adoram peitos” e não me deixavam falar mais nada. Eu ficava irritada. Primeiro porque elas, minhas amigas, me ignoravam. Segundo porque, apesar da aparente preferência dos garotos, eu era a única entre elas que não me relacionava com os garotos – o que fazia aquele brilhante argumento, além de estúpido (pois sou eu que devo estar feliz com meu corpo, não os outros), inválido. Terceiro porque o que devia ser o ponto principal era como EU me sentia, não o que os outros pensavam de mim.

Eu odiava meus seios. Mas por quê?

O primeiro motivo sempre foi o fato de isso me diferenciar tanto das outras meninas. Sempre fui muito tímida e não queria ser diferente. Pelo menos, não de uma forma que não desse para tirar ou esconder em alguns momentos. Eu não me incomodava em usar roupas diferentes, acessórios, pintar as unhas de um jeito “estranho”, de usar peruca (porque, sim, teve uma fase que eu gostava de usar perucas), pintar o cabelo, etc. Tudo isso eu podia tirar a qualquer momento, podia mudar. Mas meu corpo não havia jeito, era impossível trocar ou esconder.

O segundo motivo era porque o padrão que eu tinha era de seios pequenos. Minha mãe sempre teve pouco peito, assim como todas as minhas amigas. Todas as mulheres com quem eu convivia eram pequenas. Tinham mãos, pés, cintura, ombros, braços, coxas, peitos pequenos. E eu era o contrário disso, eu era grande. Sempre tive coxa, braço, eu era mais alta que minhas amigas, tinha mais barriga, mais peito. Toda a referência que eu tinha era o contrário do que eu era. E aquilo era desesperador. Eu me olhava no espelho e não conseguia gostar da minha imagem, mas especialmente dos meus seios bizarramente grandes.

Procurei em revistas, mas todas elas só falavam das vantagens dos peitões: os homens gostam. Esta parecia a única coisa boa na minha anatomia e eu não estava nem aí para isso. Eu não queria que os homens olhassem pra mim! Eu só queria me sentir bem. E eu não conseguia estar confiante quando estranhos na rua comentavam algo sobre meus seios, quando ouvia aquelas antigas professoras tornando minha anatomia uma fofoca, quando meus próprios amigos olhavam não para mim, mas para uma parte do meu corpo.

Ainda havia um terceiro motivo: ter muito peito dói. As costas não suportam o peso; eu vivia com dor na coluna. Quando ia dormir, tinha que colocar um travesseiro entre os seios porque o peso me machucava. Correr, pular, dançar, plantar bananeira, deitar: nada disso é confortável quando se tem a genética que eu tenho.

Além disso, como eu queria esconder meu corpo, criei o hábito de manter uma péssima postura, o que só fez com que minhas costas doessem mais. Comecei a usar muito casaco nesta época também. Era mais fácil para cobrir meu corpo, sem contar que era uma tortura comprar qualquer outro tipo de roupa. Blusas, vestidos, biquínis, sutiãs. Nada fechava, ficava espaço entre os botões, o decote ficava muito promíscuo (e tudo bem ser assim, era só que EU não queria, eu queria passar despercebida com o meu corpo), parecia que eu tinha ainda mais busto do que o real, o tamanho GG ficava pequeno, etc. Era mais fácil usar casaco.

Mas no Brasil não dá para usar roupa quente o ano todo. Então eu usava aquelas camisas com corte básico e uma frase engraçadinha ou algum desenho estampado no centro. Uma delas era rosa (minha única blusa rosa, lembro-me bem) com uma estampa de uma boneca tocando guitarra no centro. Eu adorava esta blusa, mas não consegui mais usar como antes depois de um dia. Meus amigos viviam discutindo se a boneca tocava uma guitarra ou um baixo e, neste dia fatídico, eu me irritei e disse: “Gente, eu sei que vocês só fazem isso para olhar pros meus peitos”. Os garotos se calaram. Até que um, reticente, falou algo, mas desistiu no meio. Já cansada daquilo, mandei ele falar de uma vez. Ele deu um suspiro e me disse: “Não dá pra não olhar pros seus peitos; todos os caras comentam”.

Eu fiquei brava, irritada, com raiva, mas também com vergonha. Já bastava não conseguir comprar roupas, ter dores nas costas todos os dias, não conseguir fazer atividade física direito, ter que ouvir minhas amigas invalidarem minhas reclamações. Os homens na rua já diziam pra mim “eita, peitão”, me chamando de diversos nomes que não vou mencionar. Eu não precisava que meus colegas fizessem o mesmo. E não apenas meus colegas, mas meus amigos. Aqueles caras em quem eu realmente confiava, quem eu gostava.

Foi mais ou menos nessa época que decidi que queria operar.

Redução mamária não é um dos procedimentos mais complicados dentre as cirurgias plásticas existentes, mas ainda assim é uma operação e tem seus riscos e custos. Depois de muito conversar com meus pais, eles concordaram com a minha decisão. Precisamos juntar muito dinheiro (porque, infelizmente, essas operações são muito caras – de uma forma desnecessária, acredito eu), entramos com plano de saúde, mostramos que a operação era por uma questão de saúde, etc. Conseguimos que o plano cobrisse boa parte dos custos, fui ao médico, conversamos muito e agendamos minha operação.

Eu estava no terceiro ano do Ensino Médio quando fui pela primeira vez ao consultório médico. O doutor me disse que era incomum operar garotas com menos de 18 anos, porque ainda se está em fase de crescimento. Mas como o meu corpo era mais desenvolvido para a minha idade e os meus seios realmente atrapalhavam minha saúde – eu já não conseguia fazer direito certas atividades físicas e já tinha um começo de lordose –, ele decidiu me operar. Mesmo que não pudesse retirar tanto de meus seios, por causa das glândulas mamárias.

Eu fiquei muito feliz! Mal conseguia me conter ao pensar que tiraria aquele peso das minhas costas, literalmente. Tive algumas consultas, tirei fotos, vi o projeto de meus novos seios. E em julho de 2010 fiz redução mamária. Cheguei no hospital bem cedo, fui anestesiada e operada. Não houve problema algum durante o procedimento, tudo certo e lindo. Acordei já no quarto onde ia passar a noite, com meu pai vendo Star Trek dublado na televisão. Eu ainda estava meio grogue por causa da anestesia, sem conseguir me comunicar muito bem.

No dia seguinte, a enfermeira me tirou da cama e me deu um banho de chuveirinho. Eu ainda estava dormindo e estava muito frio. Reclamei algo, mas a moça não ligou. Tudo aquilo me pareceu violento, como se tanto fizesse como eu estava – e eu estava desnorteada e com frio. Quando a enfermeira terminou o meu banho, me tirou do box do banheiro: foi quando me vi nua pela primeira vez depois da operação.

De repente, achei que não tinha mais seios. Eles estavam tão pequenos! E cheios de pontos pretos horríveis para cicatrização! Aquela imagem no espelho não era eu, era outra pessoa. Foi a primeira vez que entendi que meu corpo fazia parte de quem eu era e, tardiamente, percebi que eu não era uma garota de seios pequenos. Fiquei desesperada, me perguntando “Mas o que é que eu fui fazer?”.

Fui para casa sem contar a ninguém o que havia percebido tarde demais. Tive que ficar na cama por alguns dias, sem poder me deitar por completo, sem conseguir levantar os braços ou levantar peso. Minha mãe tinha que me dar banho, as pessoas tinham que carregar coisas para mim, precisava de ajuda para colocar roupas, eu me sentia uma inválida. Além de que nos primeiros dias, ainda havia os drenos pendurados em mim.

Eu não me sentia bem, não era eu. Eu era independente e peituda, não tinha nada que ver com aquela garota que havia reduzido as mamas. De repente, esqueci de todos os motivos que tinham me levado à operação, comecei a achar que tinha feito tudo aquilo por uma questão estética e me sentia horrível por isso. Nada daquilo condizia com algo que eu faria e, mesmo assim, eu havia feito. E não era possível voltar atrás.

Mas aos poucos fui me recuperando da cirurgia. Tirei os drenos, já podia levantar os braços, depois de um tempo já podia até carregar peso. Ia com frequência ao médico, para tirar os pontos e ele dizia que eu estava me recuperando rápido. Pouco a pouco, percebi que, na verdade, era exatamente aquilo o que eu queria.

Depois de tirar todos os pontos, pude me ver direito pela primeira vez. Ainda havia uma cicatriz, é claro, mas ela não era nada (inclusive, hoje em dia, mal se notam os resquícios da operação). Percebi que, na verdade, eu ainda tinha bastante peito, mas agora era algo proporcional ao meu corpo. Minhas costas já não doíam mais como antes, as camisas fechavam em mim, os tamanhos G e GG cabiam em meus seios. Demorou um tempo, mas percebi que a escolha de operar foi a melhor para mim.

É claro que eu ainda tinha alguns hábitos antigos, claro que havia outras coisas no meu corpo que não me deixavam completamente confortável. Mas, agora, meus seios já não eram um problema. Eu gostava deles. Conseguia usar decotes, camisas de botão, sutiãs que não parecem de avó (apesar de estes serem os mais confortáveis), biquínis. Já não me importava com as estampas das camisetas ou se os homens olhavam para os meus peitos ou não. Eu não sentia mais dor física ou psicológica.

Tive sorte de não ter problemas na cirurgia (até porque pesquisei muito antes), tive sorte de meus pais me apoiarem, de meus amigos me ajudarem durante a recuperação e de, no final, gostar da minha nova imagem. Porque isso é o principal: gostar de si mesma.

Hoje em dia, conheço outras garotas que fizeram cirurgias plásticas, assim como conheço garotas que perceberam que, em seus casos, não era preciso uma medida tão drástica, apenas aprender a lidar com aquilo que não gostavam. Estão todas felizes. Pois, às vezes, é possível converter as coisas que você não gosta em coisas que gosta (foi o que fiz com as minhas coxas e braços grandes que minhas amigas não têm e com minhas gordurinhas espalhadas pelo corpo), mas outras não adianta. E, se for este o caso, se aquilo que você não gosta te causa dor (seja física, seja psicológica), a cirurgia plástica não é uma má ideia. Pesquise com calma, discuta com pessoas próximas e com médicos esta possibilidade, pesquise os preços e formas de pagamento, pergunte ao plano de saúde (caso você tenha um) o quanto do valor é possível que ele cubra. Pense bem se é isto mesmo o que você quer e, seja qual for a decisão tomada, vá em frente. Esta não é uma decisão fácil de se fazer.

E lembre-se sempre que o importante não é o que os outros vão achar de você, mas como você se sente. Tudo bem você operar por uma questão estética, tudo bem você operar por uma questão de saúde. O fundamental é você estar confortável com seu corpo. Sempre.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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