24 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3, Estilo | Texto: , , e | Ilustração:
Sobre pelos e aceitação
Ilustração: Bárbara Fernandes
Ilustração: Bárbara Fernandes

Ilustração: Bárbara Fernandes

Introdução por Gabriella Beira, com colaboração de Helena Zelic, Taís Bravo e Rebecca Raia

É difícil dizer quando nosso pelos começam a ser mal vistos e mal falados pelas pessoas ao nosso redor. Talvez comece na puberdade, fase depois da qual adquirimos mais pelos e aqueles que já temos engrossam um pouco e se tornam mais aparentes. A maioria das garotas cresce achando que manter seus pelos é sinal de falta de higiene de ou de vaidade, mas será que é isso mesmo? Os pelos do nosso corpo são naturais e desempenham algumas funções importantes, como ajudar a manter a temperatura do corpo, proteger do atrito, reter impurezas do ar e gotículas de suor. Então por que depilamos? As mulheres se depilam principalmente porque em nossa sociedade há um pensamento generalizado (e falacioso, diga-se de passagem) de que os pelos – somente os femininos, que curioso – se mantidos, são nojentos, o que está muito baseado no mercado de cosméticos e, consequentemente, nas mídias, que pretendem impor (e vender) um padrão de beleza anti-natural. Então não se deixe enganar quando te disserem que a depilação foi uma “evolução” necessária ou alguma balela supostamente baseada na diferença biológica entre os corpos femininos e masculinos: a depilação é nada mais nada menos que uma prática cultural, imposta e reforçada pelo mercado e pela mídia.

Além de passarmos praticamente nosso tempo todo escondidas por baixo das roupas para não mostrar os pelos não depilados, quando temos a iniciativa de deixá-los a mostra sofremos muito preconceito. O dilema ainda é muito grande e é preciso combater as falsas premissas que apoiam a manutenção da prática. Nós, da Capitolina, acreditamos que essa escolha deve ser sua e SÓ sua, não importa o que os outros digam. O mais importante é: não se sinta jamais pressionada a depilar se não quiser. Não precisa seguir regras! Se quiser deixar sua monocelha poderosa estilo Frida Khalo e depilar outras partes, sem problemas! Pra conversar sobre isso, as colaboradoras Helena, Taís e Rebecca fizeram relatos pessoais de como lidam com a depilação, confira!

Helena Zelic:
Ter pelos dá vergonha, né? Quando eu tinha uns 12 anos, começaram a nascer os meus. Eu fazia aula de natação na época, e morria de vergonha. Cortava os pelinhos com uma tesoura, porque até de pedir uma gilete para minha mãe eu tinha vergonha. Com o tempo, comecei a usar gilete, a usar cera quente. Aquilo doía. Já tive câimbra na perna de tanta dor. Hoje penso: não sei porque fazia aquilo tudo. Mentira. Sei sim. Era porque não sabia lidar com o fato de ter pelos em um mundo de mulheres sem pelo. Quero dizer: um mundo de mulheres com pelos escondidos. Eu nunca tinha visto na mídia algum sovaco feminino com pelos. Nunca, nunquinha. “Ah, mas fede!”, “ah, mas é nojento!”, “ah, mas é coisa de homem!” Precisa ter um empurrãozinho de coragem, mas no final das contas é bom pensar que queremos poder ser como somos, sem a nóia do “puts, estou peluda, nao posso ir à praia! Não posso usar regata! Não posso levantar os braços! Não posso viver!”

Ué, se os homens podem ter, a gente pode também – pelos, por que não tê-los?

Taís Bravo:
Eu sempre tive muito pelo. Minha mãe diz que eu nasci tão “cabeludinha” que juntavam os pelos da sobrancelha com o do cabelo. Eu nasci assim e, por algum motivo, passei anos acreditando que isso era algo ruim. Eu tomava a palavra “peluda” como uma ofensa – e veja bem, é só uma palavra, as palavras tem o peso que escolhemos para elas.

Até que um dia foi mesmo: Eu estava em um desses centros depilatórios, esse tipo de lugar já me incomodava há um tempo, não me sentia nada confortável naquele ambiente cheio de salas minúsculas, mulheres uniformizadas de branco, cheiro de cera e plaquinhas mentirosas que diziam mentiras opressoras como “com a depilação sua pele fica mais limpa e bonita”. Mas bem, eu estava lá, mesmo detestando, porque acreditava que precisava depilar meu buço (para o resto do corpo eu já usava gilete, porque acho mais prático e não tenho tanto dinheiro pra gastar com isso), estava lá, encarando o teto, esperando a hora que a cera quente ia encostar na minha pele, quando a moça soltou: “você é bem peluda, hein, não pensa em depilar tudo?” O tudo a que ela se referia são meus outros pelos faciais. Eu fiquei ofendida. Não sei se era a intenção, mas seguindo a lógica que eu deveria depilar tudo, ser peluda era, sim, um defeito, uma ofensa. Eu disse que não, não queria. Na volta pra casa, com o buço vermelho e depilado, fiquei pensando sobre estar me sentindo ofendida. A moça não tinha culpa, se eu já escolhia me depilar, era porque também acreditava que ser peluda era um defeito, ela só estava me propondo acabar logo com o defeito.

Acontece que eu não acho razoável considerar algo que nasce naturalmente, insistentemente, em meu corpo como um defeito. Quem inventa os defeitos são os seres humanos, a natureza simplesmente é. Mas mesmo entendendo isso, continua me incomodando às vezes alguns pelos e outras defeitos inventados. Eu nunca mais voltei em um centro de depilação, não queria engolir aquele incomodo de novo, tão exposta, com uma cera sendo arrancada da cara. Não queria gastar meu dinheiro, pior ainda, financiar um lugar que lucra inventando esses defeitos. Eu ainda me depilo, mas sou eu que faço, quando quero e do modo que me causa menos dor/incômodo. Hoje eu estava tirando os pelos do meu buço e em nenhum momento senti que ser peluda é ser feia, mas continuei, por enquanto.

Esse documentário ajudou muito no meu processo de aceitação: http://vimeo.com/76152590


Rebecca Raia:
Os pelos que mais me incomodam são os do rosto e do braço. Meus pelos são grossos e escuros e minha preocupação em removê-los foi especialmente motividada pelo bullying na escola, onde me chamavam de macaca.

Então comecei o doloroso processo de remoção: gilete, cera quente e laser. Não me arrependo de ter começado a raspar os pelos do braço – mas não recomendo que ninguém faça o mesmo. Os pelos do meu rosto me incomodavam porque tinha medo de ser rejeitada por causa deles, por isso foi atrás de depilação a laser com a esperança de eliminar os pelos e penugens que crescem até no meu queixo (os pelos diminuiram, mas nunca foram embora).

Foi só quando estive em um relacionamento com alguém que não rejeitava meus pelos que aprendi a aceitar que eles existem e provavelmente estão aqui para ficar. Escrevi no começo do mês um texto sobre pessoas que controlam nosso corpo e acredito que o ultimo parágrafo é relacionado com o nosso assunto aqui:

“Talvez o maior segredo seja criar o seu próprio padrão. Sabe por quê? Porque você faz o seu padrão ser belo, ser lindo e, acima de tudo, ser aceito. O primeiro passo para que o espelho te mostre coisas lindas é olhar para ele sem deixar que as vozes (família, amigos, trabalho, mídia) falem com você. Ali, naquele momento em que só você olha pro seu corpo, não tenha pressa. Olhe com atenção, porque esse é o seu corpo. Isso ninguém tira de você. O orgulho de ser quem você é pode não mudar as cercas, prisões e grades que você vai encontrar, mas certamente vai mudar lá no seu íntimo a sua imagem corporal e a sua segurança de vestir esse corpo que te pertence.”

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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