7 de maio de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Sobre pessoas e máquinas: estamos mais próximos ou mais distantes?
Ilustração: Heleni Andrade

Ilustração: Heleni Andrade

Em outubro de 2013 o Facebook anunciou que já passava da marca do 1,2 bilhão de usuários no mundo inteiro. Isso significa que se formássemos um país exclusivamente de pessoas logadas na rede social, ele teria gente o suficiente para bater de frente com a Índia, dona da segunda maior população do mundo.

Além do Facebook, outras redes sociais como o WhatsApp (com 500 milhões de usuários) o Instagram (150 milhões) e o Tumblr (mais de 120 milhões), ganham mais seguidores a cada dia. O apelo dessas redes sociais varia – indo desde possibilitar a comunicação mais rápida com um grupo de amigos até reblogar postagens inutilmente bacaninhas – mas todas vendem mais ou menos a mesma ideia: nos manter sempre entretidos com conteúdos gerados – ou repassados – por pessoas próximas ou com interesses em comum e, com isso, criar conexões.

Diferentemente do que acontecia há poucos anos atrás, hoje a nossa capacidade de estar na internet não se limita mais à tela do computador de nossos quartos. Por causa dos celulares e tablets, perpetuamente em estado de 3G – ou 4G, pros mais sortudos – estamos o tempo todo conectados. Que atire a primeira pedra aquela que nunca foi para a cama conversando pelo chat do Facebook, que dormiu com o celular sob o travesseiro ou até o levou para o banheiro. Mesmo quando não estamos realmente conferindo o post daquele amigo metido a estrela ou compartilhando um vídeo super maneiro com gatos dançarinos (pessoalmente prefiro cachorros), com frequência pensamos em coisas como: Será que aquele meu comentário super elaborado ganhou os “curtis” que merecia? Como está indo aquela discussão que deixei pela metade para ir assistir a Girls?

Pois é, a partir do momento em que se entra para o mundo virtual, você esquece como era viver antes dele. Saltou no ponto errado e agora não sabe como chegar na casa da sua amiga? Bam! É só ligar a função GPS no Google Maps e seguir as instruções. Cansou de carregar livros pesados cada vez que viaja? Pronto! Com o Kindle você pode ter centenas de livros sem peso adicional. Esqueceu qual é o nome do ator que sempre faz escolhas horríveis de filmes e que a internet não perdoa? Puff! O oráculo Google descobre para você a qualquer momento! (Aliás, é o Nicolas Cage, sempre o Nicolas Cage).

O lar do bom e velho Nic é a internet.

As tecnologias digitais e as redes sociais criaram tantas vantagens e se tornaram tão divertidas de usar que muita gente, ou talvez uma boa maioria, não consegue mais distinguir onde começa e onde termina a vida virtual e a vida “real” ou off-line. É aquela história de sempre: pessoas olhando para as telinhas do celular a qualquer segundo ocioso disponível, colegas de trabalho conversando por e-mail ainda que estejam na mesma sala, amigos socializando com pessoas do outro lado do mundo, mas deixando no vácuo quem está ali do lado.

Enquanto que boa parte dos exemplos mencionados aqui são prosaicos e quase sempre bobinhos, em alguns lugares do mundo, como no Japão, o problema do afastamento total do contato humano – não causado, mas potencializado pelo conforto das tecnologias – tem até nome próprio e é considerado um problema de saúde pública por lá: Hikikomori. Na China, adolescentes jogadores de videogame compulsivos podem ser internados à força por seus próprios pais em campos de “reabilitação”. Segundo relatos, alguns casos extremos chegavam ao ponto de jogar por dias seguidos, vestindo fraldas (!) para não precisarem fazer pausas para ir ao banheiro. Vou deixar aqui o link de um mini documentário que fala sobre isso, mas fica o alerta: ele pode ser chocante para algumas pessoas.

A discussão não é de hoje. A mesma internet que prometeu – e cumpre, vejam bem – unir os distantes, é aquela que pode se tornar tão sedutora a ponto de tornar o “mundo de fora” mais sem-graça em comparação ao virtual– e, por isso, afasta quem está por perto.

Mas então, o que fazer com ela?

We finish each other’s… sandwiches!

Além da função óbvia de nos manter em contato com aqueles que nos são queridos quando estamos viajando ou morando em um lugar distante, as redes sociais podem nos fazer conhecer pessoas com gostos semelhantes – e que não teríamos como descobrir se não fosse por ela.

Começou lááá nos tempos do Orkut, com as infames comunidades. (Mentira, se fôssemos pensar em como começou mesmo teríamos que falar das jurássicas salas de chat por IRC ou mesmo dos games MUD, mas essa discussão fica para outro dia.)

Em meados da primeira década do século XXI, o caos orkutiano estava armado e era praticamente impossível conhecer alguém que não compartilhasse no mesmo perfil seu gosto por dormir mais do que a cama, com as piadas que viriam a se tornar as mães dos memes (só eu lembro da “Anão vestido de palhaço mata oito”?). Tinha comunidade para tudo: aquelas em que você podia conversar sobre sua paixão sobre Naruto, ou sobre sua fixação pelo Vasco, ou sobre fotografias históricas, ou sobre o “mais novo” filme do Homem-Aranha. Enfim, a imaginação e o gosto eram o limite. E procurar por comunidades era uma tarefa sua.

Isso foi antes do aperfeiçoamento brutal dos algoritmos de pesquisa e sugestão das redes. Sabe quando você está revendo o clipe de “Let it Go” no YouTube e aí um texto sugere que você pode curtir também a “Do you want to build a snowman?” (Desculpem, eu falo muito de Frozen). Então, isso é porque – em resumo – os programadores responsáveis criaram fórmulas que permitem, através do que você já assistiu (e por quanto tempo, se favoritou, compartilhou ou positivou) ranquear determinadas tags como passíveis do seu interesse. Mais do que oferecer exatamente mais do mesmo, ele vai começar a fazer associações. Assim, se você viu um vídeo inteiro associado a palavras-chave como “Disney” e “Neve”, é bem possível que o YouTube comece a sugerir vídeos sobre crianças brincando de guerra de bola de neve ou canções de A Pequena Sereia. Em outras palavras, ele passa a afunilar a periferia do seu grupo de interesses para lhe oferecer mais daquilo que já sabe que você gosta.

Se a função, por um lado é muito útil para poupar tempo na hora de procurar ao que assistir no Netflix ou que novo livro experimentar segundo o Goodreads, por outro ele cria uma situação que, para alguns críticos, começa a tornar o acesso a conteúdos novos uma tarefa mais difícil.

Ironicamente, a internet se torna um espaço que, em vez de favorecer a abertura para novos discursos, reitera mais do mesmo: quem disse que, só porque eu gosto de Frozen, não posso ter interesse por, digamos, realismo mágico em Borges ou pelo Nosferatu do Expressionismo Alemão? Ou que, só porque favoritei um livro sobre a representação do samba na mídia brasileira do século XX, eu goste mais desse estilo musical do que de heavy metal? Aliás, mesmo se o algoritmo acertar em cheio (o que é raro), a pluralidade de pontos de vistas e potencial visibilidade dele na rede não deveriam ser suas características mais valiosas?

Hm, será que o Nosferatu quer brincar na neve? Foto: reprodução.

Será que o Nosferatu quer brincar na neve? Foto: reprodução.

Não é tão difícil encontrar nossa “tribo” na internet. O equilíbrio dessa busca fica em algum ponto entre a nossa vontade de encontrar aceitação e afeto, e a necessidade de nos mantermos abertos para vozes dissonantes das nossas. Gosto de acreditar que seja uma meta plenamente possível, ainda que talvez tenhamos que repensar em algum momento na maneira como vemos nossas relações dentro e fora da web.

Não há lugar como a internet da gente

O conceito de amizade se alterou muito com a história. Para o filósofo grego Aristóteles, amizade (ou phillia) é apenas mais um dos três tipos de amor, um sentimento de utilidade, prazer ou admiração reservado não apenas às pessoas mais queridas no sentido atual da palavra, mas também àqueles por quem temos apreço em graus e funções variadas. Nesse sentido amplo, seria considerado phillia a camaradagem empática entre colegas de classe que compartilham uma rotina, entre chefes de Estado de nações parceiras ou entre um aluno e um professor modelo. É um pouco diferente do conceito moderno, encontrado no dicionário Aurélio por exemplo: “Sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por laços de família ou por atração sexual.”

Dito tudo isso, a ideia de amizade, pelo menos nos termos das redes sociais, não parece entrar exatamente na definição do verbete. Sejamos sinceras: daqueles seus mil “amigos” do Facebook, quantos você conhece de verdade? Por quantos você tem um “sentimento fiel de afeição ou ternura”? (Se esse número alcançar a terceira casa decimal você provavelmente poderá se considerar uma pessoa muito sortuda.)

É por essas e outras que o sociólogo Zygmunt Bauman defende que a internet forma redes, mas não comunidades. A diferença é que, enquanto as comunidades são anteriores a nós mesmos – nossa família, nosso bairro, nossa etnia – e são profundamente enraizadas em nossa identidade, as redes são maleáveis e bastante flexíveis.

É aquela coisa: fulaninho fez um comentário que não gostei no Twitter? Bye-bye, fora da minha lista. Enjoei do fã-clube do cantor gatinho ou da série de TV? É só sair dos grupos de discussão.

Ainda que não seja impossível quebrar vínculos com as comunidades (como é o caso daquela pessoa que decide nunca mais falar com os pais abusivos, por exemplo), é sempre uma atitude mais dolorosa, pois exige o desgaste psicológico do enfrentamento cara a cara. Na internet, por outro lado, encerrar para sempre – ou tão para sempre quanto o “para sempre” dura na rede – um relacionamento exige apenas o clique de um ou dois botões, tudo a distância, na comodidade fria de caracteres piscando numa tela. É um ato unilateral, quase sempre individualista.

É nesse sentido que talvez resida o afastamento mais lesivo potencializado pelas novas tecnologias: a insustentável leveza das relações e a ilusão de sua autossuficiência.

Uma rede social como o Facebook sinaliza a quantidade de “amigos” que você tem (e quanto mais, melhor!), mas negligencia a qualidade dessas relações. Mas, antes de entender isso como exclusivamente negativo, talvez seja mais útil pensar em como nos adaptar ao mundo dos zeros e uns sem perder o calor humano. Quem sabe as amizades numéricas exibidas em nossos perfis sejam apenas mais um tipo a ser estudado no futuro? Quase nada é bom ou ruim por si só: se essas relações vão se tornar danosas ou construtivas depende muito mais de como todo o resto do grupo se adapta a ela do que das características virtuais ou “reais” da própria relação.

Mas e aí? Afasta ou aproxima?

Muitas amizades que começam no reino dos bytes tornam-se intensas e firmes o suficiente para se estenderem ao universo das pessoas de carne e osso. Por outro lado, relações “reais”, entre colegas de turma ou parentes distantes, podem ser mantidas com muito mais facilidade via internet. Esse intercâmbio existe.

Para bem ou para mal, transitamos todos os dias nos limites do digital e a tendência é que isso apenas se intensifique daqui para frente.  Minha opinião é: ainda está para ser criada uma máquina que consiga substituir nossa necessidade por contato humano, pelo tato, pelo olho a olho. Mas a vida é rápida, o tempo é cada vez mais escasso e é sempre melhor uma conversa por e-mail do que nenhuma conversa.

Esse artigo não tem conclusão óbvia e nem poderia. Trata-se de um debate que não vai terminar hoje e muita água ainda vai rolar antes de conseguirmos compreender e nos adaptar completamente a tudo o que os computadores podem nos oferecer. Felizmente, quase tudo que é complexo demais para ser definido em termos maniqueístas de “bom” ou “mau” vale a pena ser explorado.

E para você? Estamos mais próximos ou mais distantes?

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • Giovana Faviano

    Amei o texto. Amei a ilustração. Concordo em tudo com o texto! Tudo no mundo pode ser bom ou ruim, só depende do nosso ponto de vista e do que fazemos com o que temos em mãos!

  • Eduarda Silva Thomaznática

    Kkk amei !! Tbm adoro Frozen !! Adorei o texto !! Parabéns !!

  • Nathália Do Vale

    Sem palavras para definir o quanto amei esse texto!

  • Marcelo

    Mais distantes que 10 anos atrás, mais próximos que 20 anos atrás, ou mais

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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