12 de julho de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Sobre pessoas que se afastam por causa de namoros
Ilustração de Isadora Marília

Ilustração de Isadora Marília

Aconteceu no começo do namoro. Por ciúme o namorado havia pedido a sua amada para parar de falar com tal amigo. A menina batia o pé, sempre dizendo que amigos eram mais importantes que namorados e que esse tal amigo era muito importante para ela. O namorado começou a ser mais agressivo, toda vez que tal amigo curtia alguma coisa dela, reclamava no chat no Facebook. E em cada foto marcada, os olhos viravam e a frase “porque você ainda fala com Fulano, você sabe que eu não gosto dele” ecoava e logo virava uma discussão. Ela já estava cansada e um belo dia, excluiu tal amigo. E ele, que a amava, percebeu e perguntou o motivo dela fez isso. Com vergonha de falar de que foi ciúmes do parceiro, inventou uma desculpa. E num belo dia, quando o encontrou na rua junto com seu namorado, o ignorou. Até hoje ela se arrepende do que fez.

Esta história é real e aconteceu comigo. Então começo o texto mostrando que  já estive do outro lado. Do lado do amigo que se afasta do outro por causa do namorado. Para começar, um relacionamento se faz com duas pessoas e é necessário entender que certas coisas serão sacrificadas e isso é natural. O tempo será dividido, segredos contados, seu relacionamento será como um brinquedo novo: você vai querer apenas brincar com ele por um bom tempo. É normal isso. Você vai querer fazer isso e que o outro responda suas expectativas. Mas quando começa a ficar abusivo?

Aqui na própria Capitolina existe um texto sobre relacionamentos abusivos. Quando este parceiro começa a exigir que você pare de ver certas pessoas porque sente ciúme, ou preconceito, ou não se sente à vontade ou tem um sentimento de posse, ou etc, isso pode ser um sinal de alerta. Porque ele pode não estar entendendo esta troca, querendo algo unilateral. Porque quando você não quer andar mais com seus amigos para evitar confusão, a única pessoa prejudicada é você neste namoro.

 Quem já não viu seu amigo se afastar por causa de relacionamentos amorosos? É progressivo, começa com semanas sem se falar, depois com convites de saídas recusadas, palavras secas e por fim, um vácuo na amizade que era próxima. Ao mesmo tempo em que isso acontece, incansáveis fotos do casal começam a lotar seu feed de notícias.

 A pergunta lógica é: Por que as pessoas fazem isso? Por que elas se permitem a isso? Cada um tem seu motivo real, mas em resumo é para não perder a pessoa. Temos uma solidão dentro da gente que nos é ensinada deste sempre e que só é curada se estivermos com alguém. É um crime se você tiver 17 anos e nunca tiver beijado na boca, por exemplo.

 Quando finalmente você passa por todas as etapas do namoro, cria uma dependência para uma felicidade, aquela do início do relacionamento. Para o “não morrer sozinha com 28 cachorros poodles”. Então, sem perceber, as pessoas acabam cedendo certas exigências sem perceber o que estão fazendo. E por fim se afastam de todos os amigos.

 Não importa a intensidade da amizade. Pode ser uma amizade quase irmão, uma mais ou menos ou uma de dez anos… E não ache você que seu amigo não vai sentir esse afastamento. Vai ter uma hora que ele vai olhar para trás e sentir sua falta. Mas saiba você que será posto numa balança e talvez não ganhe. E isso dói. Muito. Em ambas as partes.

 Não é em toda relação que o outro lado pede afastamento. Às vezes a própria pessoa amiga se sente à vontade de fazer isso, pelo motivo de não ficar sozinha, por acha que amor é doação total ao outro. Em ambos os casos, a dor é a mesma.

 E quando chega a este ponto, o que se deve fazer? Seja compreensiva, primeiramente, ao tentar conversar. Saiba que mesmo que seja o namorado que tenha pedido ou a pessoa que tenha optado, isso pode soar agressivo à pessoa envolvida. Um amigo certa vez comentou comigo que sabia que se afastava das pessoas e para ele estava bom assim. Tem pessoas que se sentem confortáveis em fazer este tipo de coisa, que colocam sim um relacionamento amoroso num pedestal maior que o da amizade. Falar isso para a pessoa com um tom mais seco, por exemplo, pode soar como ofensa.  

 Se você ama a pessoa, é difícil, mas a deixe ir. É bom ter um diálogo, um sinal de que você está lá para o que der e vier, mas saiba que a opção foi dele. Em alguns casos, a pessoa percebe a tempo e consegue correr atrás do perdido, mas em outros a pessoa não recupera. O que realmente importa é que se ele for seu amigo de verdade, ele voltará. E quando isso acontecer, aí sim, converse com ele do modo verdadeiro que é necessário. Na maioria dos casos, isso não volta a se repetir.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos