21 de junho de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: e | Ilustração:
Sobre se relacionar com irmãos (ou fazer deles amigos que moram com você)
Ilustração de Beatriz H. M. Leite
Ilustração de Beatriz H. M. Leite

Ilustração de Beatriz H. M. Leite

Texto de Sofia Soter e Natália Lobo

Esta matéria tem o relato de duas colaboradoras da área de relacionamentos. Escolhemos escrever juntas porque tivemos experiências de convívio com nossos irmãos muito diferentes ao longo tempo, mas principalmente porque acreditamos que ter um amigo morando debaixo do mesmo teto é uma das melhores coisas que pode acontecer em nossas vidas. O primeiro relato é da Natália, e o segundo, da Sofia.

1.
Eu sempre achei a ideia de ser filha única meio estranha. Por mais que, na minha infância, eu e meu irmão brigássemos muito (e quando eu digo “muito”, estou falando de brigas com saldos como óculos quebrados e hematomas na cabeça, então, sim, as brigas não eram nem um pouco lights). Apesar de tudo, meu irmão sempre representou, para mim, alguém com quem eu tinha um vínculo tão forte que nada poderia separar. Não é como uma amizade, que pode acabar por diversos motivos, ou como meus pais, que são pessoas de uma importância que nem dá pra falar, mas que eu sei que provavelmente vou ter que aprender a viver sem eles um dia. Irmãos parecem ser seres que sempre vão estar ali, independentemente do nível de intimidade que você tenha com eles.

E por muito tempo a minha relação com meu irmão foi tudo, menos amigável. Mudar o canal da televisão já era o bastante pra transformar a sala de casa praticamente num ringue de boxe. Ele é consideravelmente mais velho do que eu, então nós nunca conseguimos ser próximos o bastante para sermos amigos. Até que eu entrei na faculdade, e mudei muito meu modo de agir e de ver as coisas, o que nos tornou mais parecidos e nos aproximou muito.

Mas o que eu quero dizer com tudo isso é: eu sei que brigamos muito com nosso irmãos. Que muitas vezes agimos como dois estranhos que vivem debaixo do mesmo teto. Que não nos entendemos e descontamos raiva (às vezes, de forma gratuita) neles; se você não tem, ou nem sempre teve, uma relação boa com seus irmãos (o que, convenhamos, é bem normal), você sabe do que eu estou falando.

Agora, o que eu percebi depois de algum tempo, foi que ele provavelmente é a pessoa mais parecida comigo que existe no mundo. Pensa comigo: ele cresceu no mesmo ambiente que você, muito provavelmente vocês estudaram na mesma escola, vocês viajaram pros mesmos lugares, comeram as mesmas coisas, conhecem muitas pessoas em comum, passam as datas mais “importantes” do ano juntos, e passam muito tempo de seus dias juntos (por mais que, provavelmente, cada um se isole no seu quarto).

Talvez ele te entenda em um nível que você nunca imaginou. Sabe aquela coisa que seus pais (ou sua avó, ou seus tios ou quem quer que seja) sempre fizeram, e você sempre odiou e pensava que só você odiava? Então, é bem possível que seu irmão pense a mesma coisa sobre isso. Inclusive, tem altas chances de ele ser aquela pessoa que te entende sem você precisar falar nada.

Apesar disso, eu sei que é difícil criar uma relação amigável em um terreno onde sempre ocorreu mais guerra do que amor. Mas, com um pouquinho de paciência e engolindo um pouquinho do seu orgulho (que, ó, é um exercício ótimo pra praticar em quase todos aspectos da vida), você pode se aproximar dele! Tenta mostrar uma banda que você acha que ele talvez goste ou chamar pra ir ao cinema ver um filme que ele quer ver. Pode ser estranho no começo, mas imagina que legal ter um amigo dentro da sua casa, o tempo todo?


(Natália e Caio)

2.
Ao contrário da Natália, eu sou a irmã mais velha. Durante quase seis anos, fui filha única (e neta única, e sobrinha única) e, portanto, a criança mais amada e adorada da família, mimada até dizer chega, e perfeitamente contente no meu papel de única e especial – até que minha mãe engravidou. Minha mãe jura que o ciúme era pouco, culminando em uma declaração minha de que eu antes queria uma irmã, mas, vendo a barriga de quase nove meses, tinha desistido; mesmo assim, qualquer traço de ciúme, desgosto ou desistência voou pela janela para nunca mais voltar no segundo em que vi minha irmã recém-nascida, praticamente só bochechas e uma touca ridícula, nos braços da minha mãe.

Desse momento em diante, descobri que minha vocação verdadeira era ser irmã mais velha, e que minha irmã tinha nascido para o lugar de criança mais amada e adorada e mimada da família. Todas as fotos que tenho com ela provam isso: estou quase invariavelmente com a cara mais apaixonada e maravilhada do mundo, enquanto ela olha com ar blasé e de leve desprezo para a câmera (não por falta de amor, mas por essa pressuposição do amor dado, inerente às irmãs mais novas). Desse momento em diante, também, eu e minha irmã viramos inseparáveis.

Não brigamos quase nunca na vida (e, quando brigamos, foi por razões completamente bobas; exemplo: o dia em que ela, com seus 3 ou 4 anos, resolveu jogar todos os meus VHS na lixeira da cozinha enquanto eu lia no quarto), mas conversamos muito, sempre, e com velocidade e vocabulário que deixa confusa qualquer pessoa que acompanhe os papos (até nossos respectivos namorados já desistiram de tentar entender quando estamos falando uma com a outra). Temos hábitos de ver algumas séries juntas (Gossip Girl, por exemplo, enquanto ainda passava, e, atualmente, Pretty Little Liars), e choramos sem parar abraçadas vendo filmes (especialmente o último Harry Potter e o primeiro ‘Jogos Vorazes’). Descobrimos desde cedo que ter irmã é a melhor forma de se livrar de situações possivelmente difíceis: primeiro pedaço de bolo no aniversário já está sempre garantido, sem aquele momento de tensão da escolha; temos sempre o apoio uma da outra quando as conversas familiares começam a pender para um lado mais complicado; quando precisamos de alguma coisa – seja ajuda num trabalho da escola ou da faculdade, companhia para fazer algo chato, ou alguém pra ouvir uma daquelas reclamações que ficam entaladas na garganta o dia inteiro –, sempre temos a quem recorrer.

Ser irmã mais velha é um dos aspectos mais importantes e marcantes da minha identidade. Crescer com uma irmã mais nova me ensinou muita coisa, em especial um tipo de amor quase maternal muito único por um ser humano, e que tenho um instinto fortíssimo de cuidar dos outros (que se espalha para todas as minhas outras relações). E me ensinou também que ser amiga da irmã é uma das coisas mais incríveis do mundo, porque, no fim do dia, você vai ter uma amiga que te entende melhor do que quase qualquer outra pessoa, e que, ainda por cima, talvez ainda more debaixo do mesmo teto que você.

                      (Sofia e Teresa)

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Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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