6 de setembro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Sobre sentir que pertence a algo através da musica

Desde que a sociedade começou a evoluir e os centros urbanos começaram a crescer, há uma tendência natural de quase todo jovem procurar agrupar-se com pessoas com quem ele se identifique de alguma maneira. Essa ideia de grupos é presente, principalmente, na transição entre a infância e a vida adulta. Ser jovem já não é fácil; nada melhor do que, enquanto se passa por essa fase tão confusa, na qual se busca a própria identidade e tenta afirmar-se enquanto pessoa para a sociedade, juntar-se a pessoas com quem a gente se identifica, que admira e que contém as características que queremos para nós mesmos.

Uma coisa que influencia muito esse surgimento de grupos é que, conforme o jovem cresce, a convivência com a família deixa de ser tão intensa. É aquela história de que enquanto sua família passa o dia fora trabalhando, você acaba ficando grande parte do tempo sem ela e, para não ficar sozinho, você começa a formar uma amizade com pessoas da sua escola, rua, prédio etc. Ao passar a ter outras influências no seu dia a dia, é natural que você busque outras referências, que não seus familiares, enquanto caminha para a vida adulta.

Ao nos juntarmos com pessoas que tenham interesses em comum com a gente, as responsabilidades passam a ser mais fáceis de lidar. É aquela sensação de que qualquer trabalho fica mais leve e engraçado se feito com amigos. Alguns dos parâmetros que unem esses grupos podem ser: o estilo de vida, lugares que costumam frequentar, filmes, séries e, principalmente, a razão pela qual eu estou escrevendo esse texto: a música.

Quando somos pequenos, muito do que molda nosso gosto musical é reflexo do que os nossos pais ouvem; é o que estamos acostumados a ouvir em casa, com eles. Ao crescermos um pouco, desde o fim de nossa infância até meados da nossa adolescência, é comum termos uma mesma turma de amigos e, assim, acabamos gostando do mesmo tipo de música que eles. Também é comum acharmos que aquele estilo musical não tem muito a ver com a gente, mas acabamos ouvindo da mesma maneira. Muitas vezes, o medo de assumir que não gosta de tal artista e ser julgado pelos amigos é maior do que a vontade de procurar por novos tipos de música. Por um tempo, acabamos nos contentando com isso, talvez por ter medo de dar uma chance para novas bandas, talvez por ter receio de que seus amigos deixem de ser seus amigos se o seu estilo mudar. E aí você cresce um pouco e, por um milagre do destino ou apenas acaso, conhece aquela pessoa que te apresenta aquela banda e, de repente, tudo muda.

Ao conhecer essa banda, as portas para um novo mundo se abrem, um mundo com bandas que têm letras que fazem todo o sentido para a fase que você está passando naquele momento, bandas que têm melodias que parecem atingir diretamente a sua alma e te deixam arrepiado por inteiro; tudo que você ouviu anteriormente parece ruim, parece fraco. E, com essa nova banda, você descobre diversas outras novas bandas.

Esse sentimento de pertencimento musical faz com que a gente se sinta parte de algo. Quando eu tinha 13 anos, meus pais se separaram. Eu estava entrando na adolescência, e foi uma fase muito difícil e confusa para mim. Ao mesmo tempo que eu tinha que lidar com as responsabilidades da escola, eu me sentia culpada pela separação dos meus pais e não conseguia falar direito sobre isso com ninguém. Tudo mudou quando eu conheci algumas bandas que, diferente de tudo que eu tinha ouvido anteriormente, fizeram com que eu sentisse que eles cantavam diretamente para mim; era como se eles elaborassem e transformassem em palavras tudo o que eu queria dizer, e isso foi como uma terapia, e não é nem exagero da minha parte dizer isso. Descobrir bandas que pareciam me entender e que me davam forças para enfrentar a minha vida, principalmente naquele momento tão delicado, fez toda a diferença e reflete na minha personalidade até hoje; eu sou uma pessoa muito ligada à música, daquelas que não conseguem passar um dia que seja sem ouvir algo.

Fato é, essa sensação de pertencimento gerada pela música nos faz sentir que há alguém no mundo nos representando; é quase uma espécie de hino para você e pessoas que se identificam com aquele artista. Ao adentrar nesse novo universo, você descobre não só um estilo musical inteiro, mas também a sensação de que há alguém no mundo que, além de entender os seus problemas, é capaz de transformá-los em música. E tem coisa melhor do que sentir que alguém te entende, do que sentir que alguém usa uma coisa tão incrível como a música para transmitir pensamentos iguaizinhos aos seus?

 

Marina Monaco
  • Colaboradora de Música
  • Social Media
  • Audiovisual

Marina tem 25 anos, mora em São Paulo, é formada em Audiovisual e cursa Produção Cultural. É apaixonada pela cor amarela, por girassóis e pela Disney. Ouve música o dia inteiro, passa mais tempo do que deveria vendo séries e é viciada em Harry Potter (sua casa é Corvinal, mas reconhece que tem uma parte Lufa-Lufa).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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