4 de julho de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Sobre ser fácil

Sexta-feira à noite, uma amiga minha me liga e diz: “Brena, preciso de um conselho.” Depois que eu comecei a escrever pra área de Relacionamentos & Sexo da Capitolina, isso é algo que meus amigos têm me pedido bastante — conselhos. Podem pedir, gente. E como esse é um conselho que eu acho especialmente bom, resolvi dar aqui pra todo mundo.

Enfim, minha amiga em questão estava ficando com um cara, ou eles tinham ficado três vezes. Ela não sabia muito bem qual dos dois, mas a gente sabia a diferença entre o gerúndio e o passado. Eis que eles tinham se encontrado na praia na sexta de manhã e o cara estava chamando ela pra ir num bar de noite, com os amigos em comum deles. Ela estava se perguntando se deveria ir. Como eles já tinham se visto naquele dia, ela estava com medo de parecer fácil, dos amigos acharem que ela estava muito a fim, tão a fim que toparia ver o cara duas vezes no mesmo dia.

Eu perguntei pra ela: “Mas você quer ir?” Ela me disse: “Quero.” Então vai, óbvio. Qual é o problema de estar muito a fim? Estar muito a fim é tão bom.

Existe essa ideia por aí de que a gente tem que jogar duro, não pode ser fácil, não pode ficar sem fazer um pouco de doce, não pode dar de primeira. Se você faz essas coisas os caras vão achar que você é fácil e não vão querer nada sério com você, vão achar que você não presta, que você é piranha, rodada, vulgar e por aí vai.

Tô muito cansada desses caras. Quem disse que a gente sempre precisa querer algo sério? Mulheres também querem envolvimentos casuais.

Tirando isso, o que realmente me aflige é essa coisa da dificuldade. Por que se relacionar com os outros tem que ser complicado? Tem uma pichação aqui perto de casa que diz “Coisas belas são difíceis”. Na primeira vez que eu li, suspirei, balancei a cabeça pra cima e pra baixo e pensei: “Isso mesmo, uma pena.”

Mas agora tendo a discordar, coisas belas são fáceis, sejamos fáceis. Você quer sair com um cara? Saia. Você quer dar pra ele de primeira? Dê. Você quer beijar ele? Beije. Pro outro lado vale também. Não quer? Diga. Parou de gostar? Acabe. Sim é sim, não é não.

É um sentimento gostoso, quando a gente começa as coisas. Bom, acho que vale a pena tentar.

Na minha humilde opinião, qualquer cara que ache que uma mulher que toma atitude não vale a pena pra se ter algo sério é um cara com quem não vale a pena ter algo sério. Simples. Porque é um cara que acha que pode mais exclusivamente por ser homem.

É uma relação de poder. O fato de só os caras poderem ter atitude, essa ideia de que as meninas sempre têm que ficar esperando, isso é enlouquecedor. E além disso, reforça a posição das mulheres enquanto objetos a serem conquistados sempre, mas que não podem fazer nada. Isso tira nossa agência.

Por isso digo: vamos fazer, vamos tomar as atitudes, vamos facilitar e mandar um beijo e tchau pra quem não facilita pra gente. De difícil já basta a vida.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

  • Alessandra Guerra

    Coisa linda de se ler.

  • M. Sayuri

    “(…) qualquer cara que ache que uma mulher que toma atitude não vale a pena pra se ter algo sério é um cara com quem não vale a pena ter algo sério.”

    “reforça a posição das mulheres enquanto objetos a serem conquistados sempre, mas que não podem fazer nada.” é o que eu sempre digo para minhas amigas. Elas se preocupam tanto em não ser ‘fáceis’ e é algo tão triste 🙁 amei o post, aliás

  • limamanda

    Ahh, Capitolinas, se um dia eu não admirar vocês não serei eu ou provavelmente estarei numa crise de identidade ou consciência. Obrigada por tudo, suas lindas.

  • Natália

    Sem contar que se o cara chamou ela, né… É porque ele queria que ela fosse!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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