20 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Sobre ser filha de coração

Por motivos que sempre tentei descobrir, minha adoção sempre foi um assunto do qual corri. Não pensava, não discutia, não tentei entender, não consegui aceitar. Rejeição sempre foi um problema na minha vida. Me ver enquanto uma pessoa que foi rejeitada desde o ventre foi e ainda é uma questão na minha vida. Muitas vezes me peguei chorando em aniversários já que o pesadelo vinha e assombrava novamente. Por que comigo? Por que me recusar o leite materno? O que fiz pare merecer o desprezo do “Tirem daqui” verbalizado ao meu nascimento?

Minha mãe adotiva nunca escondeu sobre esse episódio de minha vida. Ela preferiu não mentir para assim termos uma relação saudável desde cedo sobre esse aspecto. Sobre eu ser uma filha do coração, como ela mesma fala. De início, foi confuso. Era complicado para mim, enquanto criança, entender que haviam pessoas que entregavam seus filhos para outros. Mainha – como chamo minha mãe adotiva – sempre me lembrou da situação financeira precária que minha mãe biológica tinha em sua vida. “Ela não teria condições de criar você e nem preparo psicológico para isso”. Essa foi uma das justificativas que recebi. Nunca estive infeliz na minha família adotiva, pelo contrário, foi nela que encontrei compreensão. Porém, os questionamentos acerca da rejeição sempre rondaram minha vida. Minha dificuldade em largar o passado é algo constante. Sempre andou comigo. E esse episódio em particular é um dos que nunca consegui deixar se esvair no vento.

Quando criança, nas brincadeiras de Big Brother, eu era a primeira a ser eliminada; era a primeira a ser queimada no queimado; era a última a ganhar dupla. Me vi inúmeras vezes nem lá, nem cá. Estando sempre do lado de fora. Sem ser vista, sem ter companhia, sem ganhar um sorriso sincero dos familiares que tinham minha idade. Aliás, foi deles que em uma festa ouvi um “Não vou tirar com x porque não é da família”. É, sempre ficou óbvio que eu não me encaixava muito bem ali. Só era olhar para os cabelos lisos e reluzentes e o meu crespo. Não dividíamos o mesmo sangue, e como aquilo doía. Porque desde cedo eu experimentei o que era não se encaixar em lugar nenhum. Seja por estar em uma família adotiva, seja por não me identificar com o gênero que me foi designado.

Cresci com o sentimento de dependência em relação a eles, e por isso me frustrava. Me frustrava porque havia criado a concepção que, por ser uma família, minha segurança devia estar neles, mas hoje sei que não. Precisei andar com minhas próprias pernas. Precisei levantar meu queixo e enfrentar meus problemas sozinha e, quando diziam “não”, eu gritava meu “sim”. E dessa forma levo minha vida até aqui.

Precocemente, me descobri Maria Clara. Descobri minhas peculiaridades, meus gostos, criei minhas opiniões e hoje as defendo. Sou a pessoa mais singular da família. Em meio ao usual senso comum, me destaco por minhas posições, meu visual, meu ser. Meu simples viver. Ironicamente, hoje me vejo compreendida dentro da família. Hoje, eu me vejo sendo aceita de forma unânime por todos. Foi a partir daí que criei a conclusão de que não iria ser aceita e compreendida por eles até eu mesma fazer isso em relação a mim. Precisei me aceitar, me compreender e abrir o meu sorriso, para daí ver os braços abertos. Mas não fiz isso por eles, fiz isso por mim. Porque só assim finalmente pude encontrar a paz.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Gisele Rocha

    linda demais

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