13 de dezembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Sobre ser filha de pais separados

*Nós da Capitolina apoiamos todas famílias: as com pai e mãe, mãe e mãe, só pai, dois pais… mas seria dificil escrever exemplificando todos os tipos de familia no texto, então só menciono casais heteros, como meus pais.

Escrevi há um tempo sobre ser filha de mãe solteira. Sou filha de mãe solteira porque meus pais se divorciaram quando eu tinha quatro anos. Antigamente, pensava que esse divórcio não me afetava porque eu era muito pequena para lembrar e estava acostumada a terem pais separados. Hoje, com 24 anos, penso diferente.

Crescemos com a ideia de um lar ser o lugar onde nossos dois pais moram juntos. Aceitar que nossos pais, que em algum momento se amaram e casaram, agora não querem mais estar juntos é difícil. Filhos de pais divorciados são frutos desse amor frustrado.

Claro que a frustação desse amor nos afeta. A partir do momento que nossos pais se divorciam, começa uma vida dividida: finais de semana, feriados, férias. Páscoa na casa de uma vó, Natal na casa da outra. Pizza no domingo a noite com o pai e voltar para a casa da mãe para na segunda estar ir logo cedo para a escola. Conviver com a tristeza de quem você mais convive e com a de quem você menos vê, ouvir as conversas susurradas e tristes no telefone, as visitas dos parentes preocupados…

De repente tem alguém novo.

Uma pessoa nova que parece já fazer parte da rotina do teu pai/mãe – porque, normalmente, espera-se um tempo para apresentar essa pessoa para os filhos. Alguém que se comporta com seu pai como sua mãe se comportava – com intimidade, afeto e carinho nos olhos. Ou mais doloroso: alguém com quem seu pai se comporta como nunca se comportou com sua mãe – com intimidade, afeto e carinho nos olhos. Agora alguém vai ser parte da sua vida sem você ter pedido.

Não sei exatamente do que era meu medo, mas quando criança e até na adolescencia, não gostava da ideia que minha mãe poderia namorar ou casar com outra pessoa. Eventualmente, isso aconteceu. Mas eu nunca me senti confortável – às vezes com motivo (crianças têm certa sensibilidade) e às vezes sem motivo nenhum. Hoje acho que aceito muito melhor – mas, também, estou fora de casa e não preciso conviver com o parceiro da minha mãe.

Aceito melhor porque agora entendo que ficar sozinha é chato, namorar é gostoso e não existe ninguém que me substituiria na vida da minha mãe. Entender isso foi árduo e foi mais fácil de escrever do que passar por isso. Mas imagino que as coisas teriam sido mais fáceis em casa se eu tivesse aprendido a importância de novos parceiros depois de um divórcio antes.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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