8 de janeiro de 2016 | Saúde | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Sobre ser infinitas de nós mesmas
como rel abusivos interferem em nossa sau?de tanto fi?sica quanto mentalmente

(Você pode ler esse texto ao som de Sigur Rós, Saeglópur)

 

Acordo e te olho dormindo entre os lençóis e você é tão.

Faço um café e sento na cama e te olho e você continua sendo tão. Tão tudo isso dentro de mim que grita. Que quer ir embora e ao mesmo tempo procura desesperadamente motivos pra ficar. Quando é que a gente deve ficar? Dói ir embora e dói ficar. E agora?

E te olho de novo e você é tão. Poxa. Dentro de mim existe uma luz piscando que diz a-gente-podia-ser-muito-feliz-mas-eu-não-posso-ignorar-todas-as-coisas-que-eu-desconstrui-dentro-de-mim.

É.

Você se mexe na cama e é tão. Não sei o que fazer.

 

Fecho a aba da Netflix e respiro fundo. Mais um filme sobre como-ter-muito-amor-um-dia que me deixou pensando sobre várias coisas. Sobre os desencontros da vida, sobre as formas que a gente se relaciona com as pessoas. Não é fácil. Nunca me disseram que seria.

Na verdade, fui criada pra acreditar que só o amor que dói é amor. Se não tem sofrimento e uma grande história não pode ser amor. Se não sangra lá dentro, oras, como é que vai ser amor? Afinal, o amor machuca, dilacera, te tira o ar, te faz querer colocar a pessoa dentro de um potinho só pra você e… ALERTA. Isso não é amor. Isso é possessão, medo de rejeição e todas as coisas que nós somos condicionadas a acreditar que é normal. Afinal, como podemos entender o amor, essa coisa tão abstrata, tão impossível de se controlar, tão tudo isso que grita dentro de mim?

(Escrevo esse texto porque estou passando exatamente por isso nesse momento e da mesma forma que quero ser um colo, preciso de um colo que só a escrita vai me dar)

A primeira coisa que a gente precisa fazer é aceitar que: o amor não dói. Gostar de estar com alguém é pra ser libertador e não para aprisionar. É pra somar e não pra sumir. Sumir com você mesma. Se alguma coisa te diz que há algo errado, confia, há mesmo. Se você se sente agoniada de alguma forma, confia também, essa agonia tem causa, nome e contato de whatsapp. Lembra que o amor não dói. Lembra que a gente se sabota por medo de ficar sozinha porque a sociedade berra que é muito feio ser sozinha. Sozinha, sem filhos, sem companheiro, sem. Sem? O sem é muitas vezes ser zen. Sabe quando a gente descobre que está pronta pra se relacionar? Quando estamos em um relacionamento saúdavel com nós mesmas. Com nossos medos, aflições, prazeres, desejos. O resto é delírio romântico. A gente não pode aceitar que essas loucuras-de-amor-são-normais-porque-quem-gosta-ultrapassa-os-limites-do-bom-senso porque é aí que nasce o relacionamento abusivo.

E é aí que perdemos nossa saúde mental e física. Quando tem alguma coisa errada a gente fica com dor de estômago, dor de cabeça, vontade de vomitar e parece que tudo vai desabar a qualquer momento. Isso não pode ser a definição de um relacionamento saúdavel.

Quando eu percebi isso, aqui com meus 27 anos bem vividos, notei que a gente se engana por pouca coisa. Quando o Charlie falou que a gente aceita o amor que acha que merece, ele estava certo. A gente às vezes acha que merece aquele sofrimento todo porque isso é amor. Mas não é. Pega aqui na minha mão e presta atenção: o amor é leve. O amor não machuca, o amor não compactua com loucuras de ciúme, o amor não sufoca, o amor não mata. Amor é leve, sincero e não machuca os outros.

E aí tudo começa a fazer sentido. Aí a gente começa a jogar fora relações tóxicas. E quando aquela tia pergunta dos namoradinhos, a gente abre um sorriso e nem responde porque deixa de importar. A gente larga toda aquela pressão de ter que ser de alguém porque a gente só precisa ser da gente. Sabe? Tudo o que é tóxico não é amor. Tudo o que coloca em cheque a sua saúde mental e física não é amor. E a gente merece ser feliz. Ninguém merece viver com um peso dentro do peito e achar que isso faz parte do pacote de ser-amada-por-alguém.

Escreve isso no espelho do seu banheiro, miga: se é tóxico, se machuca a si e aos outros, não é amor.

 

Tomo mais um gole de café e penso que tudo isso é tão.

Assustador.

E percebo que não posso ficar. Que amor não dói. Que amor não precisa encontrar motivos pra ficar porque ele não tem amarras. Não precisa. Se não encontra motivos pra ficar é porque já passou da hora de ir embora.

Te olho dormindo e você é tão.

Tão.

Mas me desculpa, eu sou muito mais. E estar em paz é tão.

Levanto da cama, dou um sorriso para o espelho e descubro que estou apaixonada. Por mim. E que amor não dói. Abro a porta e vou embora.

O mundo é tão grande, o amor é tão leve e eu sou infinita.

 

Ana Paula Andrade Piccini
  • Colaboradora de Saúde

Ana Paula, 27 anos, canceriana, enfermeira especialista em Urgência e Emergência, nutre um carinho imensurável pelo SUS e acredita que a saúde é muito mais do que a ausência de doença. Escritora de coração e desafi(n)os, ainda procura coragem para colocar no papel todas as ideias que dançam em sua mente. Acredita que as palavras salvam, inclusive já foi salva por elas várias vezes. Apaixonada por cinema, séries, livros e música.

  • Lua

    Ana, realmente é muito importante encontrar a felicidade e o amor dentro de nós mesmos antes de encontrar no outro, o triste é pensar as vezes que se depender disso, esse dia nunca vai chegar, não importa quantas coisas incríveis apareçam na sua vida.

    • semanablues

      Exatamente, Lua. Mas seguimos firmes porque merecemos a felicidade. Ninguém merece coração pesado, né? Grande beijo!

  • Viviane Vê

    texto lindo… ressoou com algumas agonias minhas a respeito de platonismos, e vivências afetivas enquanto mulher trans… obrigada demais, Ana, e que a escrita tenha lhe servido de colo. Forte abraço! <3

    • semanablues

      Arrepiada aqui com seu comentário, linda <3 Muito obrigada! E serviu de colo sim, assim como vocês terem se identificado com ele. Grande beijo!

  • Joy

    Nossa, que texto! Me identifiquei com tudo, com o café que estava bebendo no momento da leitura! E como é difícil mesmo… Mas acrescentaria que esse processo de deixar ir é doloroso mas deve acontece em respeito a tudo de bom que aconteceu durante a relação (pq coisas boas acontecem tb né?). Mas sem dúvida, em respeito a nós mesmas… É preciso deixar ir para que novas histórias aconteçam, para que o que for bom encontre espaço em nossas vidas… Gratidão pelo texto e seja feliz! :)

    • semanablues

      Poxa, que abraço que foi ler esse comentário. Nem me fale de como é doloroso deixar ir e ir embora de uma vez. Foi doloroso, tem sido doloroso. Mas necessário. Agora eu consigo respirar fundo e as coisas fazem mais sentido, sabe? Tá tudo bem e se não estiver tudo bem de verdade, vai ficar. Grande beijo! <3

  • Priscila Mendes

    A parte em itálico. É de quem?

    • semanablues

      É minha mesmo, Priscila. :)
      Sugere eu em primeira pessoa divagando sobre a situação em si.

  • Julise Arosio Pereira

    perfeito! só digo isso.

    • semanablues

      Obrigada, linda! :3

    • semanablues

      Obrigada, linda! :3

  • Gabriela Rios

    Me ajudou um tanto ? MUITO obrigada por escrever!

    • semanablues

      Linda, obrigada. Fico muito feliz em saber que ajudei de alguma forma. :3

  • Samyle s.

    Me lembrou muito um poema do Mário Quintana que acho que tem tudo a ver:

    “[…] Ah, então é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento.
    Como um pedaço de fita.
    Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço.
    Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
    E quando alguém briga então se diz: romperam-se os laços.
    Então o amor, a amizade são isso.
    Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
    Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.”

    Lindo texto 😉

    • semanablues

      Samyle, eu amo esse poema do Quintana. Sempre penso nele e em como a gente persiste no nó às vezes. Hora de desatar todos. Grande beijo e obrigada!

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Essas associações com As Vantagens de Ser Invisível me fizeram chorar

    • semanablues

      Juliana, me fazem chorar também. :~

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.