24 de março de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Clara Tibery Rende
Sobre ser mulher trans e se tornar pedagoga

Desde quando comecei a fazer meu cursinho pré-­vestibular, muito rondava minha mente em relação a qual curso me contemplaria, qual curso eu poderia me ver fazendo e nele me sentindo completa. Muitas opções foram cogitadas, mas a pedagogia sempre foi uma das que mais se destacou. Eu muito me perguntei, durante esse tempo de decisão, sobre o que eu almejava para minha futura profissão. Um bom salário? Uma boa perspectiva dentro do mercado? Realização própria? Foram inúmeras questões que apareceram, fazendo­-me questionar o que eu desejava pro meu futuro e como eu me via nele. Porém, eu havia me esquecido de um delimitador importante e que mudava toda a conjuntura: eu sou uma mulher trans. E ser mulher trans, infelizmente, não me permite ter sonhos.

“O que irei fazer agora?” “Como levarei minha vida?” “Só me restará a prostituição?” Outras perguntas foram postas no lugar das anteriores. Passei a questionar não meu futuro, mas como eu sobreviveria em um cotidiano que nos coloca na margem. Duro! A mudança é brusca. Você passa a parar de sonhar e se torna consciente de que o mais importante é tentar viver. Tentar viver em uma sociedade que nos mata não só na pele, mas também estruturalmente.

Dentro desse processo e vivendo enquanto militante, me vi sendo pedagógica. Me vi sendo didática e interessada em mostrar novas óticas a partir da exposição de minhas vivências para as pessoas. Isso era importante. Essas pessoas — o grande senso comum, a grande massa — não estão acostumadas ou familiarizadas com as questões trans e, por isso, eu me via extremamente interessada em mostrar essa nova perspectiva e querer trazer questionamentos e reflexões que viriam a fazê­-los enxergar coisas que, até então, eram totalmente invisíveis no dia a dia.

Isso é pedagogia! Isso é agregar conhecimento, é trazer realidade, é mostrar um novo mundo totalmente desconhecido para aquele número de pessoas. Vi a pedagogia enquanto fator de mudança em um possível futuro meu, e o mais importante foi justamente ter me permitido ver um futuro na minha vida. Isso é um passo importante. É algo que eu gostaria que mais mulheres trans e travestis tivessem.

Sei que enfrentarei preconceito, afinal, o curso e toda sua estrutura ainda são, infelizmente, muito relacionados ao conservadorismo. Porém, a importância de ocupar esses espaços e trazer novas nuances para seu ambiente é uma ideia preenchedora. Para mim, para o movimento e para a educação. Educação essa que hoje ainda é precária no que tange a pautar a libertação, o respeito e a pluralidade do ser humano. Educação também é ensinar a entender o outro e é isso que eu, enquanto militante, sempre busquei fazer: que entendessem as vivências alheias para além das nossas.

Vivemos processos durante toda nossa vida e meu processo atual é sobre ser mulher trans e tornar­-me pedagoga.

Nada assusta mais que uma mulher trans negra com um diploma

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Gabi

    Boa sorte nessa nova etapa da sua vida, você irá se tornar uma ótima profissional! Posso afirmar isso com certeza, pois acompanho sua militância e seus textos, e eles simplesmente me ajudam muito, são esclarecedores e transbordam amor e liberdade! Você merece toda a felicidade e amor do mundo!! <3

  • M. Sayuri

    “Você passa a parar de sonhar e se torna consciente de que o mais importante é tentar viver.” Texto inspirador, Maria! Receba tudo meu apoio e boa sorte nessa nova etapa <3

  • Noruniru

    Clara, você é realmente maravilhosa. Só a sua presença já vai quebrar preconceitos! Beijos e sucesso!

  • Amanda Gomes

    Oi, Clara, como faço para me comunicar pessoalmente com você? Sou estudante de direito e estou montando um seminário sobre a transfobia, acho que um depoimento seu seria ótimo. Parabéns pela força e coragem!! Vou deixar meu twitter aqui, caso possa me ajudar, maandysG_ na espera de uma resposta!! <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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