2 de agosto de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Julia Oliveira
Sobre sutiã, mamilos e liberdade
Ilustração: Julia Oliveira

Usar sutiã é um hábito que surge para as garotas de maneira tão automática que raramente paramos pra pensar no que ele significa. Quando crianças, meninas e meninos andam de peitos descobertos, todos melecados de picolé, rolando na areia e virando croquete, iguais e sem julgamentos. Mas aí soam doze badaladas sinistras no relógio e o príncipe bate à porta da sua casa. Em uma almofada de veludo está o seu primeiro sutiã. Agora você é oficialmente uma mocinha.

Muitas vezes o sutiã vem antes mesmo do desenvolvimento dos seios. Muitas vezes não é nem a menina que decide quando (e se) quer começar a usar sutiã. Muitas vezes o primeiro sutiã aparece na nossa vida mais ou menos assim:

Esse comercial, que fez muito sucesso na época que foi lançado e continua sendo revisitado até hoje como grande referência da publicidade, é extremamente triste: a protagonista é socialmente pressionada. Ela se sente constrangida e desconfortável com o próprio corpo ao observar que todas as suas colegas de escola usam sutiã, e ela não. Pra fechar com chave de cocô, depois que a garota veste o sutiã ainda rola uma cantada na rua!

É de chorar, mas é real: quando você é oficialmente mocinha, você também passa a ser oficialmente objetificada, oficialmente sexualizada. Os peitos, que deveriam ser tão corriqueiros e singelos, passam a ser um grande tabu. Aos olhos imundos da sociedade, mostrá-los é uma ofensa.

Basta abrir qualquer site de fofoca e digitar na busca “sutiã”, “seios” ou coisa que os valha. Pra quem não usa sutiã, esta é a pena:

Beyonce mostra demaisSelena GomezThaila AyalaKim KardashianMiley Cyrus

Mas usar sutiã também não salva a alma de ninguém. É preciso usá-los com temor e sigilo para que seu nome não vá para a lista de condenadas:

AnittaJennifer Lopez
Kristen StewartKylie JennerLady Gaga

Nunca tá bom, nunca estamos apropriadas o suficiente. Com ou sem sutiã, vamos virar churrasquinho no mármore do inferno. Essas reações nos ensinam a ter vergonha do nosso corpo, a nos esconder cada vez mais. Viramos caramujo em um tentativa de nos proteger do mundo selvagem de fora da concha.

Assim, a existência da opção de não usar sutiã vira um caso arquivado no fundo da gaveta. Mas a recente campanha “Free The Nipple” (em português, “liberte o mamilo”) veio justamente pra não deixar esse assunto morrer, pra lembrar que mamilo é tudo igual, só muda de endereço.

Tudo começou como um questionamento às políticas de imagem do Instagram, que não permitem seios femininos à mostra. Pessoas públicas e anônimas começaram a fazer postagens que trouxessem à tona o quão tosca e sexista é a distinção que a sociedade faz entre o mamilo feminino e masculino. Disseminar fotos de seios reais é também aumentar a representatividade com seios dos mais variados tipos, o que faz com que seja mais fácil aceitar e amar nossos peitinhos do jeito que eles são.

A foto a seguir, do Instagram da modelo Cara Delevingne, ilustra bem o propósito do “Free The Nipple”, mostrando um mamilo masculino “livre” ao lado de um feminino “censurado”, embora eles tenham a mesma constituição anatômica:

cara instagram

Willow Smith também apoiou a campanha pelo Twitter e chocou a grande mídia tradicional por ter “apenas 14 anos” e divulgar uma imagem “tão provocativa”. Tempestade em copo d’água: era apenas uma blusa com uma estampa de seios. E, mesmo que fossem os seios dela, mostrá-los de forma tão lúcida e consciente só demonstra, ao meu ver, um poder lindo sobre o próprio corpo.

willow nipple

É emocionante ver a tomada de consciência das mulheres sobre seus próprios corpos. Mas, do mesmo jeito que uma mulher pode guiar suas rédeas para os mamilos peladinhos, ela também pode decidir usar sutiã. É importante lembrar que isso deve ser uma opção, não uma imposição. De fato, essa opção não é socialmente aceita hoje, então todas devemos lutar por ela. Mas isso não significa que temos que fazer uma grande fogueira “sutiânica” e cair matando em todas as nossas irmãs que não conseguem ou, simplesmente, não querem libertar seus mamilos.

Para as meninas de seios grandes, que sentem dores e incômodos profundos quando estão sem sustentação: vocês realmente precisam de um porta-peitos.

Para as meninas com seios pequenos, ou para aquelas que encontram um prazer inigualável em chegar em casa e tirar o sutiã: convido vocês a pensar com carinho a libertar seus mamilos. É claro que é um exercício. Na primeira vez saindo sem sutiã na rua, você provavelmente vai se sentir que nem naqueles sonhos em que estamos peladas no meio de uma aula. Mas garanto que é questão de costume. Vai sem pressa, e todo apoio pra você!

Para quem se sente insegura com o assédio na escola e nas ruas, para aquelas que temem levar advertência no trabalho por não seguir o código de vestimenta: jamais se sintam mal ou “menos feministas” por continuar usando sutiã. Seu desconforto não é infundado. O machismo é ruim mesmo, e vocês têm todo direito de querer buscar segurança, o que quer que isso signifique pra você.

Só vamos lembrar que sacrificar nossos decotes para não sofrer com cantada na rua não resolve o problema do assédio, não corta o mal pela raiz. Por isso precisamos seguir lutando! Sutiã é opressão, sim, mas também é amigo do peito pra muitas. Liberdade não é impor o que se acha que é liberdade, porque o que vale pra uma pode não contemplar a outra. Liberdade que liberta libertadinho, mesmo, é aquela que nos permite fazer qualquer coisa, sem restrições. É como escrevi no meu caderno de rascunhos enquanto pensava nesse texto: “liberdade é ter noção, é não deixar de questionar a convenção.”

 

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • Ana Beatriz Andrade

    O texto é libertador e importante de ser debatido,porém eu ainda espero o dia em que vou aceitar meus seios do jeito que eles são. Eu sei que a aceitação é um exercício e apoio totalmente mulheres os aceitam (que largam o sutiã de lado,que tiram fotos com os seios amostra,que nem ligam para eles ou que os amam). É muito errado objetificar uma mulher por uma coisa tão natural quanto o seio. Devia realmente não ser alvo de tantos tabus ,tem hora que simplesmente dá vontade de andar só com um short ou bermuda na rua. Apesar de toda a minha consciência em relação a isso ,é como se eu não me sentisse atraente. Todas as migas ou conhecidas que falam que os seios são pequenos ,possuem os seios maior que eu . Eu evito olhar para eles no espelho e quando olho tento pensar em outra coisa para não ficar triste. Quando vou em loja para comprar sutiã ,todos tem bojo e os que não tem parecem top de pré adolescente. Eu uso sutiã com bojo ,e por mais que eles dão uma ilusão de seios maiores ,eu queria um sutiã bonito e até mesmo sexy que nem aqueles de lingerie para me sentir confortável comigo mesma. Até mesmo minha mãe fica colocando uma pressãozinha do tipo ”não tem peito pequeno?tem que usar bojo mesmo” . Eu não sairia na rua sem sutiã (apesar de muitas vezes não usar em casa) pq é como se meus seios tivessem em estágio de crescimento e isso me deixa constrangida ,mas super apoio as meninas que querem andar sem. Estão certas ,sensação de liberdade é muito gostosa #freethenipples

  • Adriana Mello

    Adoreii! Texto libertador :)

  • Patricia Cunha

    Gente, amei sei texto. Eu uso sutiã porque gosto e porque queria ter peitos maiores. Ai uso uns que levantam. Mas quando não to afim, não uso e pronto ué. Cada uma faz o que quer e ninguém precisa achar isso ruim. E eu roubei a sua frase inspiração pra mim! =)

  • Francini

    Fantástico comentário e feliz de saber que alguém compartilha com minhas crenças, feliz pq não estou só, no meio de tanto recalque! No meio de uma empresa multinacional, eu, de sutiã sem o famoso bojo, de camisa, meus mamilos se pronunciavam quando bem queriam e isso incomodou as demais …tive durante o almoço no restaurante, em meio ao zumzumzum, perguntei as colegas: o que querem? Que eu arranque os mamilos para lhes agradar?? Tenho agora q me mutilar p se encaixar à multidão?Morram, pq aqui estou eu!!!

  • Paola Oliveira de Camargo

    Pois eu nunca me acostumei a usar sutiã. O elástico geralmente causa muita coceira, alguns têm uma costura próxima dos mamilos que coça também, e meus seios são minúsculos. Logo, pra mim, sutiã é aquela coisa que uso em dias mais frios, quando decido usar uma blusa meio transparente, e que dá uma sensação de liberdade maravilhosa quando chego em casa e me livro do dito cujo.
    Pensando bem, acho que faz mais de um ano que não uso sutiã. E a pior coisa que me aconteceu foi meu namorado, uma vez, ficar semi escandalizado porque eu estava com uma blusa de malha super colada que permitia visualizar perfeitamente o formato da areola e do bico – ou seja, não aconteceu nada. Eu o olhei com aquela cara de “e daí?”, e ficou por isso mesmo.
    Agora, se eu tivesse peitões… Eu procuraria um espartilho. Um bom espartilho provê toda a sustentação necessária sem aquele peso nos ombros, o que parece ser muito mais confortável.

  • Kyõfu

    Eu achei genial o texto, pois sou completamente a favor de que essa hipocrisia acabe (mamilos são mamilos e sem mimimi). Porém, diante dos meus seios grandes sempre me senti muito desconfortável sem alguma sustentação, não é medo da gravidade e deles caírem é literalmente desconforto e odiaria ser repreendida por gostar do meus sutiãs. Afinal, liberdade é ter o direito de fazer escolhas que tornam sua vida melhor. Nenhuma mulher deveria ser coagida a usar uma peça de roupa que para muitas é desconfortável!

    • Pâm Zakrzewski

      Eu me sinto exatamente igual! :(
      Às vezes até me pergunto se o desconforto é só físico ou também tem a ver com a ideia enraizada de que “temos que usar sutiã”. De qualquer maneira o desconforto é real! Muitas e muitas vezes me pego desejando ter peitinhos pequenos para experimentar a sensação de liberdade. :'(

  • Jacqueline

    O importante é parar de se importar com a opinião dos outros e fazer o que quer, isso é ser ADULTO OU ADULTA. Se não gosta de soutien, não usa. Se gosta, usa. Simples assim.

  • Bruna Kalil Othero

    Texto lindo! <3

  • Lucy

    Perfeito! Um texto simplesmente perfeito, eu amei ler isto.

  • Roberta

    Há um tempo atrás, tive um problema hormonal e muita dor nos seios. Durante esse processo, percebi que não usar sutiã era uma das poucas formas de amenizar minha dor e passei um longo período sem usá-lo. No entanto, como sou pequena e não tenho muito, marca muito na roupa e as pessoas agem como se nunca tivesse visto uma teta antes, o que fez eu me sentir muito desconfortável e voltar a usar por pressão externa. Mas estou juntando a coragem pra ir aos poucos me libertando <3

  • Giovana Sousa

    Faz um pouco mais de um ano que eu não uso sutiã, tipo, é muuuuito raro, eu nunca gostei, sempre me incomodou, mas na época da escola, as minhas amigas achavam o maior crime. Lembro um dia que fui sem e minhas amigas me fizeram sentir tão mal, que eu passei o resto do dia com a blusa de frio, e tava super calor no dia. aí só consegui no ano seguinte, no cursinho. lá ninguém me conhecia e a maioria das pessoas eram bem mente aberta.

  • Júlia

    Amei! Grata pelo texto lindo!

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  • Catarina

    Fodástico esse texto ! Quando o vi nas redes sociais, logo pensei em voz alta: Até que enfim alguém me entende !

    Fui obrigada a usar sutiã com uns doze anos de idade. Sempre achei desconfortável e limitador da minha postura. Mas deixava meus seios mais bonitos , disseram. E mais tarde, poucos anos depois, usar sutiã era sinônimo de decência, afinal não havia coisa mais vulgar do que uma mulher atravessando a rua com os peitos balangando, disseram. Daí fui crescendo mais um pouquinho, compactuando com a ideia, mas aí me deu uma vontade danada de usar sutiã com bojo. Mas qual ! era coisa de mulher vulgar. Eu deveria ser feliz com meu próprio corpo do jeito que era. Com o tempo, até as mulheres da minha família aderiram, hahahaha, inclusive pela segurança que ele oferecia em não deixar os “faróis” aparecendo inoportunamente.

    Nota-se que o tempo todo que os argumentos pró-sutiã são em favor dos homens: pra não incitar os hormônios do macho, que eles tem uma vontade animalesca de fazer sexo, ou pra agradar o macho, etc. Como a ausência de sutiã determinasse e justificasse os estupros e outras coisas.

    De uns meses pra cá, graças a minha mania de seguir alguns blogs feministas bem legais como este, fui tendo a consciência do tratamento de dois pesos e duas medidas que é dado a homens e mulheres, colocando aqueles em posição de superioridade, respaldada pela ciência, inclusive. Demorou pra entender que sou dona do meu próprio corpo. Percebi que o sutiã era uma imposição social e peito feminino um “pecado” se for mostrado por aí quando notei que algumas mulheres sentiam vergonha em dar o peito pra cria em público e quando comecei a perceber que o sutiã convencional tava prejudicando minha coluna. Agora uso apenas aqueles sutiã esportivo, o top de ginástica mesmo, que deixa o peito “feio” e “achatado”, mas não estou nem aí, minha coluna agradece, e meu corpo de uma forma geral. Quem sabe um dia eu tenha coragem de sair sem eles também, quando quiser.

  • http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=173907 Jéssica Da Silva Goudar

    O começo do texto me fez lembrar da primeira vez que usei sutiã de enchimento. Tinha uns 9 anos e fui para a festa de um ano da filha do amigo do meu pai, ele tem um filho um pouco mais velho que eu que estava lá com seus amiguinhos. VÁRIOS desses meninos pediram pra ficar comigo naquele dia, afinal “eu tinha peitos”. Umas semanas depois voltei lá e todos os meninos estavam brincando na rua e nem me deram bola porque naquele dia estava sem o bendito sutiã de enchimento. Agora, com esse texto eu percebi o problema disso

  • João Ribeiro

    Boas.
    Está aqui um Homem, acho que ainda vivemos sob machismos já ultrapassados.
    Ainda por cima o vídeo é de 1987, ano em que eu nasci. Já se passaram 28 anos e os seios continuarem a ser tabu, f…-se!!! tabu o ca-ra-lho, se os peitorais e mamilos dos homens não são tabu (basta verem a minha foto de capa e a de perfil), os seios e mamilos das miúdas/ moças/ mulheres terão de ser porquê?
    A Madonna tem os seios firmes aos 57 anos e certamente ao longo da vida dela deve ter prescindido várias vezes de uso de sutiãs e deve ter feito muitos toplesses também

  • http://digaludimila.blogspot.com.br/ Ludimila Ferreira

    Cara, eu morro de vontade de sair por aí sem sutiã, eu nem tenho peito mesmo, não tem nada aqui pra ser visto e nem balançar eles vão, mas sempre tem aquele “ain o que as pessoas vão pensar”, e TIPO, cadê o sentido? Eu com o tempo me tornei uma pessoa bem foda-se pra opinião alheia mas não consigo um simples sair sem sutiã (ou usar saias e vestidos) sem surtar! Mas, de passinho de formiga em passinho de formiga, a gente chega lá.

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