22 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Sobre vergonha, medo e respeito
Ilustração: Beatriz Quadros.
Ilustração: Beatriz Quadros.

Ilustração: Beatriz Quadros.

Quando eu tinha 18 anos – veja bem, uma adulta, podia votar, dirigir, beber, casar, enfim, respondia por mim – assisti ao filme Atividade paranormal. Um filme de terror, que muitas vezes é considerado brando. Acontece que de brando, para mim, não teve nada. Quando fui dormir à noite, depois de ver o filme, apaguei as luzes, deitei na cama e não conseguia pensar em outra coisa. Senti um pânico, uma angústia, cada barulhinho me deixava aflita. Estava com medo. Levantei da cama e fui dormir com a minha mãe. Isso se repetiu por alguns dias até que esqueci do filme.

O motivo pelo qual estou contando isso é: sentir medo não é vergonha nenhuma. Não ter medo não faz ninguém melhor do que ninguém.

Quando a gente é criança é normal ter medo, aí a gente cresce e espera-se que os medos desapareçam – de repente temos que ser as pessoas mais corajosas do mundo. Só que alguns medos continuam lá e não tem problema nenhum nisso.

Eu, por exemplo, além de medo do sobrenatural, tenho medo de andar de avião, catástrofes naturais, epidemias de doenças contagiosas e mais um monte de coisas. O importante não é ter muitos ou poucos medos, é saber respeitá-los quando preciso.

Claro que alguns medos valem a pena ser vencidos. Meu medo de avião não me impede de viajar. Eu vou, fico nervosa, seguro a mão de quem estiver do meu lado, mas vou. Só que, às vezes, nós temos medos que são tão profundos e paralisantes que a situação não vale a pena. Um medo que não precisa ser encarado. Filme de terror, eu não vejo mais.

Admitir que temos medo é uma coisa ótima e até bem libertadora. Aí você não precisa fingir que está ok na janela do quadragésimo andar, você pode dizer “será que podemos conversar lá dentro? Eu tenho medo de altura”.

Agora, além de não ter vergonha, admitir e saber quais medos valem a pena ser enfrentados e quais não, tem uma outra atitude muito importante: respeitar o medo dos outros.

Quando você admite que tem um medo e não quer fazer algo por causa dele, ninguém tem o direito (e nem o dever) de tentar te forçar. Não faça o que te deixa desconfortável. Se você tem medo de multidões você não precisa ir naquele show. E se alguém tenta te forçar a ir, essa pessoa não está sendo sua amiga e te ajudando, ela está desrespeitando sua vontade. A única pessoa que pode dizer que está na hora de você vencer aquele seu medo antigo e terrível é – pasmem – você mesma.

Respeitar nossos medos não significa que somos pessoas covardes. Acho até que existe muita coragem em admitir o que te dá medo e em saber seus limites.

Quando a gente aprende a respeitar nossos medos, a saber o que é importante pra gente e o que não é, fica mais fácil respeitar os outros. Todo mundo já sentiu medo, e sabe como é o sentimento terrível de estar ameaçado e não poder fazer nada. Se a gente sabe como é, não tem por que ridicularizar o outro. Muitas vezes, especialmente na adolescência, uma das formas mais fáceis de se sentir melhor é fazer o outro se sentir pior. Dizer que não tem medo e envergonhar quem tem. Isso sim é uma atitude covarde. Muito melhor ajudar aquela pessoa – vai que ela precisa de um conselho sobre como lidar com aquele sentimento ou só mesmo de uma mão para segurar durante uma situação amedrontadora.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

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