10 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Sobre vilões, conquistas e crescer

Li certa vez que, em filmes de criança, o vilão é necessário; afinal, ninguém é 100% bom nem 100% mau. O vilão está lá para que nós nos identifiquemos com ele, para não nos sentirmos fora da caixinha do “normal”, para mostrar que ter pensamentos/ações maldosos e egocêntricos faz parte de viver, e para entender que isso diz respeito à natureza do ser humano. Somos, sim, seres egoístas, mesquinhos, mas somos bonzinhos, também sentimos compaixão e empatia. O vilão e o herói são lados de uma mesma moeda. Somos todos um pouquinho heróis e somos todos um pouquinho vilão. 

Por exemplo, não minta para você mesma: quando você era menor, provavelmente já mentalizou um mundo utópico em que você reinava o planeta, um lugar onde você poderia criar regras, fazer o que bem quisesse, tomar sorvete antes do almoço, dormir a hora que bem entendesse, escutar músicas no último volume e dançar a noite toda. É um sonho de criança. Mas, ao crescer, nós passamos a aceitar algumas regras; entendemos que para viver em sociedade e para viver bem é preciso seguir algumas norminhas que teoricamente serviriam para promover o bem de todos. Aprendemos que a autoridade, muitas vezes, precisa ser contestada, descobrimos que tentar viver em igualdade pode ser a melhor saída para todos, e que relações hierárquicas são, muitas vezes, desnecessárias.

Nós crescemos, mudamos muito nossos sonhos e desejos. Entender, por exemplo, que nós não podemos ter tudo nas nossas mãos a hora que desejamos faz parte de crescer no mundo e em sociedade. Então, deixamos de lado sentimentos egoístas de criança e seguimos em frente. 

Mas tem gente que nunca segue em frente. Alguns continuam querendo comer doce antes do salgado e não escovar os dentes antes de dormir. Não que essas coisas realmente façam algum mal real, mas todos sabem que são cuidados necessários com a saúde. Alguns crescem em uns aspectos e continuam crianças para sempre em outros. Alguns crescem e o seu ego infla cada vez mais, e o desejo de dominar o mundo permanece. 

Nunca fui do time dos vilões, sempre fui de torcer para o bonzinho, apesar de fazer pose de cool e tentar não demonstrar isso. Mas entendia totalmente a fixação dos vilões em dominar o mundo: adorava acompanhar de perto as aventuras do Pink e do Cérebro; tinha um medo sinistro do Invasor Zim, mas, no fundo, torcia para ver o que aconteceria se sua missão fosse bem-sucedida; observava o Scar atentamente fazer de tudo de mais cruel para conseguir finalmente conquistar a savana só para si; e bolava planos junto com o Cebolinha para conseguir tirar o domínio da rua (que na verdade nem era dela) das mãos da Mônica. O meu eu criança vibrava com as possibilidades megalomaníacas de dominação mundial, de contestar o poder dos meus pais, dos professores, e de conquistar o meu próprio espaço e criar as minhas próprias regras.

Mas, como todo mundo, eu cresci. Deixei pra lá esse sonho e entendi que não é assim que funciona, não é assim que deveria funcionar. Abandonei a ideia de querer dominar o mundo, diferente de muitos vilões que ainda preservaram essa fixação infantil egocêntrica. A gente cresce, a gente muda, mas ainda como doce antes do almoço.

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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