12 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Sociopatas da ficção
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O que costumamos chamar de “psicopatia” ou “sociopatia” é, medicamente, chamado de Transtorno de Personalidade Antissocial: suas características principais são falta de empatia, egocentrismo exagerado, e pouco controle de impulsividade. Mas, como todas as narrativas ficcionais de pessoas com transtornos, os personagens lidos como psicopatas na ficção agem como versões extremamente exageradas de portadores dessas características (e insisto no “lidos como psicopatas” porque em geral esses personagens não foram diagnosticados com nenhum transtorno na narrativa, e não cabe a mim diagnosticar personagens fictícios – ou pessoas reais). Em séries, filmes ou livros, os supostos psicopatas costumam se encaixar em algumas categorias: serial killers, como Dexter Morgan, da série Dexter, Hannibal Lecter, dos livros, filmes e séries, Patrick Bateman, de Psicopata americano, ou Norman Bates, de Psicose (normalmente, homens); os “bem-sucedidos”, aqueles que manipulam os outros e desconhecem empatia mas não matam ninguém, só ganham muito dinheiro e poder, como Jay Gatsby, de O grande Gatsby, Jordan Belfort, de O lobo de Wall-Street ou Don Draper, de Mad Men (de novo, normalmente homens); os que cometem atos desmedidos por amor obsessivo, como a personagem de Glenn Close em Atração fatal (e, opa, normalmente mulheres!); e as personagens de quem falarei agora, as mulheres cuja violência tem um enorme elemento de gênero, mas que a cometem pelo mesmo nível de egoísmo dos psicopatas bem-sucedidos homens, e não pelo amor devastador.

Essas personagens são algumas das minhas favoritas na ficção. Sou fascinada por narrativas sobre garotas assassinas, garotas manipuladoras, garotas violentamente egoístas, garotas que mexem com o que esperam delas para ganhar os jogos que estão fadadas a perder. Não que eu ache que essas personagens são boas pessoas, ou pessoas de quem eu gostaria de ser amiga, ou modelos de vida – afinal, não é para isso que personagens servem –, mas elas me intrigam em grande parte porque trazem, em sua própria existência – no próprio ser garota (lida como) psicopata – um poder enorme. E, crescendo vendo personagens mulheres, especialmente personagens garotas adolescentes, sem poder, ou ganhando poder “pelo amor” (estilo princesas de contos de fada), sempre me senti forte vendo garotas que – mesmo assustadoras, perturbadoras e merecedoras de prisão – estavam lutando com unhas e dentes pelo que queriam.

Muito do que me fascina nessas personagens é o fato de que elas trabalham com as expectativas dos outros sobre elas: seja seguindo à risca o que é esperado, e usando isso para esconder um poder dissimulado, seja indo inteiramente contra o que querem delas. Num mundo em que ser uma garota adolescente significa estar à mercê de expectativas alheias, de regras sobre o que você deve ou não deve ser, em situações em que é impossível ganhar, em que é impossível ser autêntica – o que quer que seja essa autenticidade para você – sem sofrer consequências, as personagens que se percebem refém das circunstâncias e viram o jogo a seu favor fazem com que eu sinta que mereço que o jogo vire a meu favor. Claro que eu não faria isso assassinando ou manipulando violentamente outras pessoas – mas, nessas horas, deixo o aspecto ficcional da fantasia funcionar em sua metáfora.

Vamos a exemplos mais específicos (aviso que, aqui, existirão alguns spoilers – siga com cuidado):

Sem assassinato, mas com definitivo potencial para um, temos Segundas intenções, um dos filmes que mais gosto, e que provavelmente trai minha idade porque eu juro que um dia foi super descolado. A personagem de Sarah Michelle Gellar (que também é responsável por encarnar outro modelo de personagem que usa as expectativas a seu favor e que é uma assassina treinada: Buffy, a caça-vampiros) é uma adolescente podre de rica, popular, bem-vista por todos, que usa essa fachada para manipular todas as pessoas ao seu redor – inclusive seu irmão postiço, quase-amante, e parceiro no crime. O filme é quase uma versão mais pesada de Gossip Girl (mesmo tendo sido feito uns bons anos antes), e Kathryn – a personagem em questão – uma Blair Waldorf feita só de maldade.

“Tudo bem se caras que nem você e o Court comerem todo mundo. Mas quando sou eu, levo um pé na bunda e sou trocada por imbecis inocentes como Cecile. Deus me livre, eu transpiro confiança e gosto de sexo. Você acha que eu me divirto agindo que nem Pollyanna 24h por dia para ser considerada uma dama?” – Segundas Intenções

Ainda no âmbito cinematográfico, alguns filmes entram na lista numa mesma categoria, especialmente Heathers, da década de 1980, e Jawbreaker, do fim da década de 1990. Pense em Meninas malvadas, mas adicione uma boa dose de total falta de empatia e capacidade de matar. O mais icônico no que diz respeito a essa categoria de personagem psicopata é Jawbreaker, em que Courtney Shane – uma Regina George mil vezes pior –, descrita como “o diabo de salto alto”, parte do grupo mais popular do colégio, mata uma de suas amigas, não demonstra um pingo de remorso, e usa isso a seu favor. Heathers, por sua vez, entra num espaço um pouco mais do absurdo, e envolve arrependimentos: a personagem Veronica (Winona Ryder), garota do grupo popular de meninas malvadas, acaba entrando na onda de seu namorado bad boy e começa a assassinar outras pessoas do mesmo status social no colégio – entretanto (spoiler!), ela se arrepende, mata o namorado (que não tem nada de arrependido e parece ter feito isso várias vezes antes), e decide retomar sua própria vida.

Numa onda mais terror, e mais recente também, tenho que confessar meu amor por Jennifer’s Body. Megan Fox – no papel que, na minha opinião, ela nasceu pra fazer – é Jennifer, cheerleader popular, poderosa, idolatrada e desejada; até que ela é vítima de um ritual demoníaco e ganha um apetite voraz por carne humana – especialmente por carne de garotos adolescentes. Ela passa de uma devoradora de corações metafórica para uma devoradora de corações literal, e acho que não dá para ter uma metáfora dessa relação das personagens com as expectativas mais clara do que nesse caso.

Indo para livros, não posso deixar de falar de Gillian Flynn. Este parágrafo terá spoilers aos montes, então recomendo que evitem se não tiverem lido os livros da autora (podem pular pro parágrafo seguinte, prometo que já estará falando de outra coisa). É impossível evitar spoilers para falar sobre essas personagens na ficção de Flynn porque, apesar da autora já ser conhecida por esse tipo de narrativa, a revelação de que as personagens são as reais manipuladoras nas histórias é sempre a chave para o mistério e a surpresa. Garota exemplar (Gone Girl) é o mais famoso dos três livros da autora, foi transformado em filme recentemente, e todo mundo já deve saber o que acontece porque a internet tem texto atrás de texto sobre Amy Dunne, a protagonista tão manipuladora que manipula o leitor até a metade do livro. Insisti em falar do livro, e não do filme, porque o livro deixa muito claro o que para mim fica ambíguo na adaptação: Amy não faz nada do que faz (e o que ela faz inclui assassinato, fingir a própria morte, e mentira atrás de mentira) por amor, ciúmes, ou sentimentos descontrolados. Ao fingir que morre e que a culpa é do marido Nick, não o faz porque o ama demais e não pode aceitar que ele a traia – o faz porque sente que essa traição é sinal de que ela perdeu o poder; e, da mesma forma, manipulou e destruiu outras pessoas, desde a infância, para se manter na posição de poder; e, o tempo todo, o faz sob a impunidade que a imagem de “mulher perfeita” a fornece (tanto que um dos trechos mais famosos do livro é quando Amy fala sobre a “cool girl”, a “garota maneira”, aquele tipo de expectativa que os caras têm sobre garotas que querem namorar). Dark Places e Sharp Objects – os outros dois livros da autora – também têm personagens semelhantes a Amy, mas, no caso, não são as protagonistas. Em ambos os casos, entretanto, as personagens cometem os atos hediondos que cometem (porque, mais do que Amy, são assassinas) por poder, egoísmo e total e absoluta falta de empatia.

“Eu não fui uma criança amável, e me tornei uma adulta inteiramente detestável. Desenhe minha alma, e seria um rabisco com presas.” – Gillian Flynn, em Dark Places

Falo, por último, de The Basic Eight, do Daniel Handler, que cheguei a recomendar aqui na Capitolina em outra ocasião. É um dos meus livros favoritos, de um de meus autores favoritos, e nele somos apresentados a Flannery Culp, na prisão por assassinato, explicando sua versão da história – e sua versão da história não vem com desculpas, não vem com mal entendidos, não vem com “eu fiz com amor”; ao contrário, sua versão da história é para esclarecer que essas coisas todas de que ela era uma garota perturbada por desejo que não soube o que fazer não estão com nada. Sempre que tento explicar o livro para alguém, recorro à sinopse da quarta capa (traduzida livremente por mim agora): “É verdade que a escola pode ser estressante. E é verdade que às vezes uma garota só tem que matar alguém! Mas Flannery quer que você saiba que ela não é que nem um assassino qualquer – ela é uma assassina.”

“Não tinha sentido tanto nojo de um garoto desde a infância, quando eles zoavam as meninas no recreio, chutando a gente e jogando pedras e falando com tons agudos e irritantes como piada. ‘Eles fazem isso porque gostam de você’, todos os adultos diziam, rindo que nem abóboras de Halloween. Nós acreditávamos neles, na época. Na época achávamos que era verdade, e nos sentíamos atraídas por aquela maldade porque significava que éramos especiais; deixe que eles nos chutem, deixe que eles gostem da gente. Gostávamos deles de volta. Mas agora parecia que nossos primeiros instintos estavam certos. Garotos não eram cruéis porque gostavam de você; é porque eram cruéis.” – The Basic Eight, Daniel Handler

Me questiono, às vezes, sobre os problemas de gostar dessas narrativas: afinal, nenhuma dessas personagens é exemplar. Me questionam, às vezes, sobre os problemas de gostar dessas narrativas: afinal, isso não seria um retrato negativo das mulheres, um desserviço às tentativas de mostrar mulheres mais reais, mais complexas? Mas paro para pensar que tudo bem todo mundo gostar de Dexter, tudo bem todo mundo achar o Don Draper um personagem emocionalmente complexo, tudo bem todo mundo torcer pelos Oscares de O lobo de Wall-Street; então tudo bem eu me fascinar por Amy Dunne, tudo bem eu roer as unhas no momento de Segundas intenções em que sei que tudo vai dar errado, tudo bem eu insistir para todo mundo que The Basic Eight é um dos melhores livros que já li. Afinal, essas personagens serem detestáveis, cruéis, manipuladoras, enfim, o que é concebido como um psicopata na ficção, não as torna menos complexas. E, quando peço por mais representatividade de mulheres na ficção, quero que essa representatividade seja geral: não só mais mulheres fazendo coisas maneiras e sendo boas pessoas, não só mais mulheres sendo “fortes” do jeito que “personagens femininas fortes” tão frequentemente o são, mas mais mulheres sendo terríveis, mais mulheres sendo cruéis, mais mulheres sendo assassinas, especialmente quando elas o fazem subvertendo a imagem que se espera da mulher cruel.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • Babi

    Amei! (só que Jawbreaker é do fim dos anos 90, não dos 80)

    • Miss Sofia

      Opa, Babi! Verdade! Fui na onda de Heathers e errei a informação. Obrigada pela correção e pelo comentário! <3

  • Alba Bez

    Gostei bastante da matéria, parabéns! Psico e socio melhores personagens <3

  • Kamilly Higino

    Nos últimos meses me encontro (um pouco) obcecada com essas personagens. E te dando a dica de um livro nesse estilo, que eu me apaixonei é A Mulher Silenciosa de A. S. A Harrison pela Ed. Intrínseca!

  • Priscilla

    Nossa vc precisa ler então os livros da Chelsea Cain, ela tem A MELHOR psicopata feminina, nao existe personagem melhor q a Gretchen Lowell, a mulher é fodástica, a série é perfeita demais. Eu amei Garota Exemplar, a Amy é terrível rs mas Gretchen Lowell é Gretchen Lowell, sei la mas acho q nao tem personagem melhor q ela rs.

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