18 de fevereiro de 2016 | Ano 2, Edição #23 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
“Solidão, que poeira leve”: conhecer-se e tornar-se uma boa companhia para si mesma

Trancar uma porta e ver-se ali sozinha às vezes pode soar um pouco assustador. É também perturbador notar o medo do futuro e da possibilidade de em algum momento começarmos a traçar um caminho no qual ninguém nos acompanhe. Esse medo está muito atrelado ao fato de costumarmos pensar a felicidade aliada a outra pessoa ou ao ideal de encontrarmos alguém que fique ao nosso lado até a velhice.

Ainda que esse ideal siga de algum modo forte em nossa sociedade, desde os filmes de comédia que assistimos, aos livros que lemos e às inúmeras perguntas feitas sobre estarmos ou não namorando, a sensação que eu tenho é que as pessoas da nossa geração – tenho 25 anos – nem sempre estão preparadas para se pensar nesse companheirismo amoroso de vida inteira, ou ainda para conceber traçar um caminho tão ligado a outra pessoa, o que poderia significar abrir mão dos próprios espaços e desejos.

Além disso, outro sentimento constante pode não necessariamente estar relacionado com a vida amorosa, mas pode estar ligado às despedidas de amigos/as. Do nada olhamos para um lado e para outro e muitas das pessoas que amamos começam a seguir um caminho que nos distancia fisicamente, cada um segue atrás dos próprios sonhos e pode chegar uma sexta-feira à noite e não termos com quem comer brigadeiro ou tomar uma cerveja.

Como lidar com todas essas sensações, medos, angústias e acontecimentos?

Primeiro: pode ser bom desmistificarmos o estar sozinho. Trancar uma porta, tirar o sapato apertado, colocar um chinelo, tomar um banho gostoso, ouvir uma música e preparar uma refeição para nós mesmas enquanto tomamos uma cerveja não deveria ser visto como algo negativo. Bem como abrir a janela, sentir o vento batendo no nosso rosto, pegar aquele livro de poemas preferido e lê-lo até conseguir recitar de cabeça o que ali está. Ou ainda ouvir aquele disco de vinil ou uma trilha sonora gostosa no Spotify. Tudo isso pode ser tão prazeroso, quanto fazer todas essas coisas na companhia de alguém.

No entanto, lidar com a própria companhia não é algo que nos ensinam. Aprendemos que precisamos ter amor, pois “é impossível ser feliz sozinho”, mas ninguém para e nos ensina que para apreciarmos bem outras relações e outras companhias é importante aprendermos a aceitar a nós mesmos/as. Não é, portanto, fácil. Nem imediato que todas lidem com facilidade com a porta trancada e a sexta-feira na qual temos como companhia apenas a Netflix.

É mais fácil, inúmeras vezes, evitarmos a nós mesmos/as. Então podemos passar horas conversando com semiconhecidos, com amigos/as ou familiares distantes. Evitando ao máximo o contato com nosso interior. Estarmos em vários grupos no WhatsApp. Ficar desbloqueando a tela do celular para ver se chega alguma mensagem ou mandar inúmeras mensagens para diferentes amigos/as para descobrir se tem alguém ali também querendo companhia.

E não é que haja um problema em construir uma rede de apoio, em ter amigos/as para desabafar, para contarmos nossas alegrias. Mas o que estou tentando perguntar é o quanto esse smartphone que carregamos como se fosse um membro do nosso corpo não é uma das formas de fugirmos de nós mesmos/as.

Algo que tenho pensado constantemente é na importância de ter hobbies, de ter um ou outro canal de tevê favorito, uma série para acompanhar, amigos para nos apoiar e para darmos carinho, família para conviver – quando é possível – e algum amorzinho para se viver. Mas nem sempre teremos tudo isso, nem sempre teremos companhia, nem sempre teremos um amigo do outro lado do mundo ou no bairro ao lado conectado para nos fazer companhia; logo, é crucial aprendermos a ser uma companhia prazerosa para nós mesmos.

Eu só entendi isso a partir do momento que percebi que estar sozinha é um momento de profunda conexão comigo mesma. Nós podemos retomar as questões que estão nos incomodando, podemos fazer dancinhas da vitória na frente do espelho, escrever, pintar, olhar fotos, reler diários, ler novos livros, descobrir novos filmes. Podemos também não fazer nada e ficar observando o teto – na falta de estrelas – e, em muitos desses momentos, estamos, na verdade, nos pensando, mas também refletindo sobre a nossa relação com o mundo e com as pessoas.

O que eu quero dizer, é que a solidão é um momento não só para nos conectarmos com nós mesmos, mas também para repensarmos nossas relações com os outros. Aprender a se pensar, a refletir sobre o cotidiano, as relações, os sonhos e as frustrações nos faz amadurecer o que sabemos sobre nós e o que queremos dali em diante. Me parece mesmo uma armadilha passar uma vida toda fugindo da gente. É como se pudéssemos ficar nos escondendo, até que, em algum momento, inevitavelmente nos veremos de forma mais interna e tomaremos um susto.

Notar-se, perceber-se, descobrir-se até pode ser doloroso de início, mas eu também tenho aprendido que é prazeroso. Às vezes sofremos por algo que não sabemos exatamente o que é; ao nos abrirmos e nos vasculharmos por dentro, podemos descobrir o que realmente está mexendo e incomodando ali. No entanto, ciente que saber disso não necessariamente nos faz automaticamente aprender a viver e a sentir prazer com nossa própria companhia, é que eu convido vocês todas a se desafiarem, a tentarem acostumar-se com novos hábitos: tente caminhar ouvindo música, cozinhar sua refeição preferida para você mesma/o, comprar aquele chocolate e deliciar-se enquanto vê um filme, fazer uma lista de livros e filmes que quer conhecer nos próximos tempos, tentar sentir as boas sensações do cotidiano, comprar uma peça de roupa bem bonita que esteja querendo muito ou passar a tentar descobrir novos hobbies para fazer consigo mesmo/a. Além disso, sabe aquele cineminha que adora ir acompanhado/a? Que tal começar a frequentar sozinho/a de vez em quando?

Estar sozinho/a não precisa ser visto como algo negativo ou como ausência, pode ser visto apenas como independência, emancipação e autoconhecimento. Para finalizar, eu retomo um trecho de uma música do Tom Zé, para o qual “na vida, quem perde o telhado em troca recebe as estrelas”. O retomo porque sinto como se fosse exatamente assim: tiramos nosso telhado e nossas máscaras e de repente descobrimos as inúmeras estrelas que estavam ofuscadas pela falta de autoconhecimento. E o autoconhecimento me parece a melhor ferramenta para conhecermos o nosso melhor e o entregarmos para o mundo, com as estrelas mais radiantes e um telhado que não esteja prestes a desabar.

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • Ana Luísa

    Aprender a lidar com a solidão não é nada fácil, mas há momentos em que ela é o que resta… Ótimo texto <3

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Eu me sinto muito sozinha, sempre. Às vezes até quando estou com mais pessoas, acho que preciso, desesperadamente, aprender a lidar com isso. Obrigada pelo texto

  • Érica Pinheiro

    Que texto maravilhoso! <3

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