3 de outubro de 2014 | Edição #7 | Texto: | Ilustração:
Somos as netas de todas as bruxas que vocês não conseguiram queimar
Ilustração: Dora Leroy.

“Somos as netas de todas as bruxas que vocês não conseguiram queimar”. Essa frase, recorrente no feminismo, nos gritos e nas marchas de rua, diz muito sobre quem somos e, por isso, é tão bonita. Ser bruxa sempre foi associado a coisas ruins. A bruxa é a vilã de todas as histórias, é quem causa o mal em diversos contos de fada, é quem acaba com o amor. A bruxa é aquela que tem que morrer. E foi exatamente isso que aconteceu na Idade Média.

Explico. Na chamada Inquisição, a Igreja Católica perseguiu todos e todas que fugissem minimamente de suas estritas regras, para assim, no final das contas, se manter com poder e dominação. Neste grupo, estavam as bruxas, mulheres do mal, tomadas pelo demônio, seres execráveis e totalmente perigosos. Assim se dizia na época. A solução? Tortura! Forca! Fogueira! Isolamento total! Basicamente a negação total dos direitos humanos (noção que não existia na época), supostamente em nome de Deus.

E o que faziam essas mulheres de tão terrível? Nada. Eram simplesmente mulheres que não faziam questão de se enquadrar na ideia de mulher proposta pela Igreja e pela sociedade como um todo. Eram mulheres que não acreditavam no Deus dos católicos, mulheres que desenvolviam e reproduziam suas próprias sabedorias, mulheres que abortavam, mulheres parteiras, mulheres que dançavam, que tinham prazer, mulheres lésbicas… mulheres que, de uma maneira ou de outra, “pecavam”. Todas essas mulheres, sob a alcunha de bruxas, eram assassinadas sem dó nem piedade por uma população fervorosa, guiada por uma instituição completamente desumana.

De minha parte, acredito que matar mulheres por dançarem nuas sob o luar, independentemente do contexto histórico, não passa de feminicídio e de uma evidente misoginia.

Mas eu entendo porque esse tipo de coisa aconteceu na história da humanidade. Na verdade, entendo porque acontece até hoje – não sejamos hipócritas, mulheres morrem todos os dias por culpa do machismo. O mundo tem medo de mulheres que tentam fugir das regras. Caracterizar uma mulher como bruxa não passa de uma tentativa de diminuir as forças dessa mulher. Para que ela não se junte a outras mulheres. Para que ela tenha medo e não perceba que, coletivamente, tem força suficiente para mudar o mundo e torná-lo mais livre.

A imagem da bruxa, depois, se tornou recorrente em meios pedagógicos (bem mais doutrinários e moralizantes do que pedagógicos) para ensinar as meninas como elas não podiam ser. “Meninas, se vocês forem diferentes, vão acabar estigmatizadas como todas as bruxas da Inquisição. Vão acabar queimadas em praça pública que nem elas.” Deu no que deu. Gerações e gerações de mulheres invisibilizadas e amedrontadas, renegando as mais velhas que foram contra a maré.

Seja as bruxas da Europa, as indígenas da América ou as negras da África e das religiões afro-brasileiras (quem nunca ouviu a frase infeliz “chuta que é macumba”?) todas elas tiveram seus conhecimentos e forças renegados pelos homens brancos e poderosos, organizados na política, na religião, em tudo.

Hoje, depois de saber tudo isso, penso que devemos continuar. Ser feminista hoje em dia ainda significa confrontar os dogmas patriarcais da sociedade. E, sendo feministas, devemos ter orgulho da luta de todas as mulheres, da força de todas elas, e afirmar: somos, sim, as netas de todas as bruxas que vocês não conseguiram queimar. E seguiremos em frente.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

  • Kamilla Soares

    Parabéns pelo texto, muito lindo! Somos todxs feministas, somos todas bruxas <3

  • Mermaid

    Que texto lindo! Perfeito pra galera que fecha a cara ao ouvir falar de feminismo e nem dá uma lida sobre.

  • Frater Serápis

    Interessante a relação que fizestes, mas ainda assim é vago em alguns pontos e carece de maior conhecimento sobre bruxas, filosofia oculta e a antiga religião pagã. Ao contrário das religiões judaico-cristãs, a bruxaria vê a questão da sexualidade com naturalidade, visto que é algo sagrado e não pecaminoso como no cristianismo. E sim, bruxas acreditam e acreditavam em deus! Porém dividido em dois aspectos. Masculino e feminino. tal como é o seu panteão de divindades. Como disse antes o sexo não é um tabu na bruxaria, e sim, existiam diferentes orientações sexuais, mas não eram todas lésbicas e também não eram apenas mulheres. A bruxaria não era e não é feminista ou machista, pois ambos eram importantes, tanto o sagrado feminino como o sagrado masculino. Espero ter esclarecido um pouco.

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Olá! Agradecemos pelo seu comentário, mas achamos importante destacar algumas questões problemáticas para não confundir nossas leitoras e nossos leitores.

      Primeiramente, não existe uma “antiga religião pagã”. Paganismo é um termo guarda-chuva que engloba uma ampla variedade de crenças, práticas e tradições. Temos o Xamanismo norte-americano, a Wicca, a Santeria de raízes africanas, o Zoroastrismo do Império Persa, o politeísmo Celta, dentre muitos outros. Na verdade, “paganismo”compreende todas as religiões que não são abraâmicas, portanto, não existe apenas um sistema de crenças institucionalizado. Há incontáveis pontos de divergência.

      Segundo, “bruxaria” também é um conceito abrangente que varia de sociedade para sociedade, de cultura para cultura. É impossível estabelecer um conjunto de regras e suas aplicações com rigor, já que se trata de uma noção que existe desde os primórdios da humanidade e abarca a crença e a prática de habilidades mágicas para diversos propósitos, de diferentes maneiras. A feitiçaria na África não será igual à feitiçaria na Ásia ou na Europa, assim como dentro dos próprios continentes existem inúmeras variações relativas a povos e regiões. Por isso, não é cabível afirmar que todas as bruxas acreditam em um deus dividido em dois aspectos, masculino e feminino. As deidades Celtas, por exemplo, eram inúmeras, sempre associadas a aspectos da natureza. O duoteísmo ao qual você se refere tem a ver com a Wicca, uma religião neopagã bem recente, que importou seu sistema de crenças de várias tradições pagãs europeias.

      Terceiro, jamais dissemos que todas as bruxas eram lésbicas. Apenas afirmamos que algumas foram perseguidas pela Inquisição por esse motivo. E acredita-se que 85% das vítimas da The Great Witch Craze eram mulheres, o que não exclui os homens, porém mostra que havia uma clara distinção de gênero na opressão. Falamos mais sobre esse assunto aqui: http://www.revistacapitolina.com.br/quem-tem-medo-de-bruxa/.

      Por último, se você é leitor da Capitolina, já deve saber que machismo e feminismo não são termos opostos, não é? Então dizer que algo “não é machista ou feminista” corresponde a falar que tal coisa não é “banana ou sofá”. E se grande parte das feiticeiras eram mulheres empoderadas que não se encaixavam nos padrões da sociedade, acreditamos que podemos caracterizá-las como feministas.

      Espero ter esclarecido um pouco 😉

      • Klaus Alecsander Kaiser

        Na realidade,as deidades Celtas não eram totalmente ligadas a natureza,muito pelo contrário,os grandes deuses celta(Tuatha De Dannan) eram aspectos humanos/tribo (Guerra,morte,arte,poesia,caça e Etc)
        Na realidade,esses mesmos deuses lutaram contra os aspectos naturais(Fomorians,equivalentes aos titãs gregos),em várias batalhas,como a batalha de Magh Tuiriedh.
        Segundo,bruxaria e xamanismo não são religiões,são práticas e ambas existem dentro do cristianismo.(Sim,existem)

        Obs: Sou seguidor do Druidismo,vertente do paganismo que reconstrói a religião Celta.

        • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

          Olá, Klaus!
          Desculpe a demora, só nos demos conta de que esse comentário não tinha sido respondido agora :)

          Na realidade, Tuatha Dé Danann não era um “grande deus celta”, e sim um grupo de deidades da mitologia irlandesa. Não existe UMA religião celta, já que os povos estavam espalhados por diversos pontos do continente europeu e suas crenças e práticas divergiam. As deidades dos gauleses não eram as mesmas dos galeses ou dos celtibéricos. A batalha a que você se refere não faz parte da mitologia de todos os povos celtas. E deuses e deusas geralmente eram associados, sim, a forças da natureza. Obviamente existem deidades da vitória, da guerra e da caça, mas não acreditamos que esses aspectos sejam exclusivamente humanos.

          Segundo, quando dissemos no comentário acima que bruxaria e xamanismo eram religiões? Chamamos de “uma ampla variedade de crenças, práticas e tradições”. Ah! Adoraríamos fontes de práticas oficiais de bruxaria no Cristianismo da Idade Média!

          Obs.: Sou da Galícia, região habitada por povos celtas antes da invasão romana.

  • zanni

    De acordo com cada palavrinha no texto. Mas não posso deixar de fazer um comentário, mesmo sem saber se a ilustração no começo da matéria é de vocês ou não. Um adendo: bruxas não acreditavam em Deus uma vírgula! Não acreditavam no deus cristão, como a própria matéria diz mais a frente, mas não só acreditavam como seguem acreditando em deuses e, é claro, principalmente, em deusas. ?

    • Helena Zelic

      Zanni, quando a gente coloca Deus com letra maiúscula, como colocamos, estamos falando justamente do deus católico. Este deus católico, com letra maiúscula e tudo, essas mulheres não acreditavam mesmo. Em outros deuses e deusas, sim.

    • Lidia Santos Ranger

      E “bruxas” eram consideradas bruxas por terem o poder de cura,ou seja muitas delas eram enfermeiras(curandeiras) elas curavam as pessoas com ervas,chás etc ter esse conhecimento sobre medicina basicamente indigena era taxada como bruxa por ser algo fora do comum por isso elas eram queimadas em nome de deus (Catolico) que era o unico que podia curar as pessoas basicamente haha mas sim elas acreditavam em varios Deuses e é triste ver isso até mesmo no texto parece meio distorcido mas o texto é bom de uma maneira geral

  • Danilo Mota Soares

    “Abortavam” “Lésbicas” “Não acreditavam em Deus”.
    Fontes???
    Sou formado em História e esse artigo me deu cãimbra nos olhos.

  • Luar

    Muito bom! Mas é bom lembrar da inquisição protestante também… :)

  • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

    Ué, Danilo, se você tivesse feito essa indagação antes, teríamos respondido como fizemos com todos os demais pontos que levantou.
    Inclusive o próprio texto acima é a resposta para a sua questão, já que nossa autora fez questão de explicar cuidadosamente os paralelos existentes entre o feminicídio ocorrido durante a The Great Witch Craze e a luta das mulheres no século XXI.
    Aquelas mulheres foram perseguidas por estarem fora da curva delineada pelo patriarcado. Foram expostas, torturadas e queimadas. Hoje a opressão se dá de forma distinta, mas as raízes são as mesmas. Cada época tem suas características peculiares. E cada época tem aqueles que negam o sofrimento alheio e tentam silenciar o discurso de minorias.
    Se você acredita que as mulheres do século XXI estão livres de todas as amarras que dizimaram as dos séculos anteriores, o nosso diálogo termina aqui.
    A Capitolina é um espaço de acolhimento e empoderamento de meninas, mulheres e seus aliados. Não estamos interessadas no senso comum que é martelado em nossos ouvidos diariamente.
    Boa noite.

    • b

      alguém avisa o moço que dá pra ver quem curte os comentários, inclusive quando alguém curte o próprio

    • Marcos Mendes

      Legal a discussão!! Aproveito o espaço para agregar o seguinte: o conceito de “pagão” surgiu na idade média, em pleno momento de expansão do catolicismo na Europa. O termo surgiu, se me lembro bem, para designar quem não era doutrinado pela igreja católica, e os pagãos geralmente eram pessoas de cidadezinhas, vilas mais afastadas dos centros maiores. A associação que se tem hoje de pagão com alguém contrário ao catolicismo é distorção que apenas serve para demonizar os pagãos, que certamente também eram à época. Também gostaria de acrescentar que todos os aspectos misóginos (aversão à mulher, ao feminino) aumentaram muito na idade média, com claro incentivo do clero. Seria desgastante ficar escrevendo aqui sobre o assunto, então vou indicar alguns livros muito bons sobre a questão: Sexo, desvio e danação: as minorias na idade média (Jeffrey Richards); A dominação masculina (Pierre Bourdieu); Malleus maleficarum – o martelo das feiticeiras (Heinrich Kramer e James Sprenger – livro escrito em 1484, era o livro de cabeceira dos inquisidores!).

  • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

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    E outra coisa, Danilo: não temos tempo sobrando para procurar a credencial de todos os autores para você – afinal, já procuramos os livros! Mesmo assim, fizemos o esforço de jogar um deles no Google e o primeiro resultado foi: http://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Thomsett. Nem todo recém-formado tem mais de 75 livros publicados. Acho que agora você pode continuar a pesquisa por conta própria, certo? :)

  • Google

    Mandou muito bem no texto, somos sim e com muito orgulho as netas de todas as bruxas que mataram ou não

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  • Ana Bedoya

    Gostei do seu texto Helena! Penso dessa forma também!

  • Franklin Smith

    Belíssimo texto. Por essas e outras eu estou do lado desse movimento. Entendo perfeitamente que o machismo deve ser combatido por ele ser um mal também contra os homens. Claro que as mulheres são as maiores vítimas, mas o homem também sofre. E sofre calado, né? Porque se chorar é pior. Parabéns pela clareza de pensamento!

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  • Jean Marques

    Na verdade as bruxas acreditam em deus, e em uma deusa, e em deuses… A imagem parece dizer que as bruxas eram atéias.

  • Daniela Soares

    Oi. Adorei seu texto e o utilizei para uma aula com alunas e alunos da EJA. Foi muito bacana. Rendeu um debate bom. Obrigada.

  • Débora Sosa Rocha

    ADOREI O TEXTO, PARABÉNS!! ARRIBA LAS QUE LUCHAN!!!

  • Babi

    Olha só, primeira coisa é jogar toda a meritocracia acadêmica pra desmerecer com sua “razão positivista” um texto de mulheres, colocando suas perspectivas historiográficas já questionáveis, porque não é anacronismo relacionar o passado com o presente, ou seja, as bruxas com as feministas.

    Tá, agora se você quer fontes, pode ir no principal guia da Inquisição Cristã, o Malleus Maleficarum,e lá vão estar prescritas muitas heresias passíveis de punição, como a feitiçaria e a “sodomia feminina”, em Portugal chamada “molície” que é a lesbiandade, pela qual muitas mulheres foram investigadas. Quer mais fontes? Veja o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e vai revirar os rolos de documentos, ou então se não quiser muito trabalho leia “A coisa obscura” da historiadora Ligia Bellini. Mas na boa, essa parada acadêmica toda pra jogar balde de gelo na iniciativa das gurias foi uoh.

    A “Inquisição” está muito presente hoje, afinal seu legado temos desde homens que querem cagar regra pra os que as mulheres fazem até leis diretamente ligadas à Igreja para restringir ainda mais o direito das mulheres, como as leis anti-aborto

    No melhor dos casos, espero que essa última fonte sirva pras manas que querem saber mais lendo. As que querem saber de outras formas, tem zines e também a boa e velha história oral que faz com que a história não seja coisa de museu, mas seja sempre interpretada à luz de seu tempo.

    Bjas pras manas :*

  • Elisa

    Texto ótimo! e a figura também. Mas só tem uma coisinha errada. Bruxas acreditavam e acreditam em Deus são. só não é o cristão e não é apenas em um.
    PS: Meu nick no Twitter é Capitolina ♥

  • Alexandre Santos

    belo texto.

  • Ysabella Andrade

    Exato! A negação das ações femininas fora de padrões estabelecidos em quaisquer época são sempre renegados e colocados em tabus.

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