5 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Somos produtos do nosso meio

Michel Pêcheux é um teórico francês que fala sobre o discurso (discurso aqui não é apenas a fala, mas também uma ideia passada). Seu principal pensamento descreve que reproduzimos um discurso que já foi falado e perdido. Sendo assim, o sujeito não é livre para criar e reproduzir seus próprios conceitos sobre qualquer assunto, está sempre reproduzindo algo já falado no passado. Pode até parecer novo, mas na verdade é só a lembrança de algo esquecido. Para Freud, somos produtos do meio.

Andressa Urach foi notícia por um tempo por ter ficado internada no hospital por causa do uso incorreto do hidrogel em algumas partes do corpo. Numa das reflexões feitas em alguns textos por aí afora, ela foi vítima da fama e principalmente dos padrões impostos à mídia do que é beleza feminina. Contaminada com isso, acabou por exagerar no “cuidado com o corpo”.
Por que Andressa foi citada como exemplo? O que ela tem a ver comigo, com você, Freud e com Pêcheux? Explico: ela reproduz algo que a sociedade profere. Eu reproduzo algo que meus amigos um dia me falaram. E você está reproduzindo agora o que viu na televisão. Somos todos produtos de uma comunidade, mesmo esta sendo implícita. Não criamos nada, apenas repetimos o que um dia foi pensado. Nossas opiniões não são nossas. A novidade não é tão nova. Tudo já foi feito antes. Como diria Salomão, “não há nada de novo debaixo do sol”.

Então peraí, não somos originais? O que eu fiz na verdade já foi feito antes? A Andressa não foi a única vítima da beleza deste jeito??? Já teve mais gente?? Somos apenas poeira de estrelas fazendo a mesma coisa que nossos bisavós? Não inventamos nada de novo???

É assustador pensar nisso, principalmente quando a resposta da maioria destas perguntas é “sim, mais ou menos por aí”. A Andressa não foi nem será a única que sofreu com o padrão de beleza. O padrão, de fato, muda a cada geração e as mulheres (que são as que mais sofrem com isso) fizeram e fazem sacrifícios realmente impressionantes (por exemplo, tirar as costelas para ficarem com a cintura mais fina) para se encaixar no que é dito “bonita o suficiente para casar”.

“Se somos mera reprodução do nosso meio, como explica o fato de eu gostar de rock e minha família inteira amar pagode?” Nosso meio não se limita apenas a amigos/família. Somos influenciados o tempo inteiro. No ônibus, na escola (e não é só na nossa classe), professores, a diretora, outdoors, seu Instagram (seguindo gente que você nunca conheceu). Ligamos a TV e mesmo num programa que não costumamos a ver e nem gostar, estamos sendo influenciados. Há uma escolha do que você pode a vir a gostar ou não. Nem tudo lhe convém, então pode simplesmente dizer que prefere aquilo do que o que sua amiga gosta.

O que visto, escuto, penso é influência de um meio. Um meio que é muito maior do que as 300 pessoas que você tem como amigas no Facebook. Um meio que está além do horizonte. O que reproduzo através disso não é novidade, já foi pensado em algum momento da história. O que nos é passado já foi discorrido antes e antes e antes. E no meio destas informações que chegam para a gente o tempo inteiro escolhemos algumas, a reproduzimos e passamos adiante nossas opiniões. O que gostamos agora podemos não gostar depois e isso sim é culpa da comunidade. Mas também do que particularmente nos incomoda.

Somos parte disso tudo, querendo ou não. Somos influenciáveis e influenciados. Temos nossas opiniões e na verdade não se sabe até onde nossa mente se mistura com o coletivo. Somos esta concha de retalhos com coisas velhas, esquecidas, que parecem novas e que são nossas. Como vemos o que aquilo é reproduzido é nosso, só nosso. Baseado em, adivinhem, no nosso meio.

Mas podemos nos libertar um pouco disso: saber que estamos sendo influenciados, lutar contra isso caso faça mal (como discursos preconceituosos em geral), entender que nem tudo com que convivemos é bom ser reproduzido, e, a partir daí, escolher o que queremos absorver dessa comunidade da qual participamos.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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