28 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Izadora Luz
Somos todas mulheres de verdade: a conquista da mulheridade por mulheres transexuais e travestis

O que é ser mulher?

É fácil encontrar diferentes padrões sociais atribuídos à mulher ao longo da história e entre culturas distintas. O ideal de mulher é constantemente mutável. No século XVI, uma mulher deveria ser gorda para ser considerada bela – a gordura era sinal de fartura e riqueza. Já na década de 1990, a mulher ideal deveria negar a abundância de alimentos que o capitalismo disponibilizava para o consumo, e assim, manter o manequim em um subpeso assustador. Na Era Vitoriana, a mulher que ousasse usar maquiagem era marginalizada e acusada de ser prostituta. Hoje, a mulher que ousa ir ao trabalho de cara lavada é obrigada a ouvir colegas perguntando se ela dormiu mal ou se está doente.

O que a mulher magra no século XVI, a mulher gorda na década de 1990, a mulher maquiada na Era Vitoriana e a mulher de cara lavada nos dias de hoje têm em comum? Todas cansaram de ouvir que não são mulheres belas, que não são mulheres dignas, que não são mulheres de verdade.

Desde a infância, somos ensinadas rigorosamente como uma mulher deve ser e se comportar. Somos bombardeadas pela televisão, por revistas e pelo cinema com imagens de mulheres artificiais, de uma beleza ideal e intangível; se não por monstruosas dietas, maquiagem e penteados impecáveis, roupas e acessórios caros e, muitas vezes, apenas através de alguns recursos, como a edição digital. Impor sobre nós um padrão tão inalcançável e, ainda assim, tão urgente de se alcançar, é essencialmente uma doutrinação da mulher – uma ferramenta do patriarcado para mantê-la diligente e obediente. Jogamos um jogo programado para nos fazer perder.

Nesse jogo, mulheres transexuais e travestis têm sua mulheridade especialmente questionada. E não é à toa, essas mulheres transversalizam a função mais primitiva da mulher dentro da sociedade patriarcal – o sexo. O homem machista vê dificuldade de utilizar sua sexualidade para oprimir uma mulher sem vagina, além de que esse contexto ameaçaria sua virilidade. Assim, encontram como solução de tal dilema a agressão.

O indivíduo transfeminino é visto como forte pela sociedade. Por ser visto como “um homem vestido de mulher” no senso comum, é a ele designado os atributos de poder sexistas de um homem, como a força física e a inteligência superior. A partir dessa leitura social, a mulher transexual ou travesti assusta e ameaça o homem – ela é um concorrente. Pelo bem do sistema sexista, ela há de ser marginalizada, excluída do meio acadêmico e empurrada para a prostituição. É do interesse desse sistema que essa mulher conviva com o estigma de não ser mulher o bastante, e ainda assim, não ser digna de ocupar o espaço privilegiado de um homem. Não somos homens, e também não somos mulheres de verdade: somos “coisas”.

Como forma de reparar essa exclusão estrutural, é comum que mulheres transexuais e travestis tentem se enquadrar no padrão hegemônico de mulher. Algumas buscam inúmeras cirurgias de feminilização, muitas seguem uma rotina perseverante para com seu cabelo, sua maquiagem e roupas. Além disso, apesar do estereótipo de serem violentas, observamos travestis e mulheres transexuais assumirem um comportamento passivo e dócil demais, permitindo que as pessoas passem por cima delas, ignorando suas vontades sem serem questionadas.

Não há nada de errado em ser vaidosa ou ter uma personalidade passiva, mas temos que ter em mente que muitas vezes esse comportamento não é natural e saudável, mas condicionado – uma medida desesperada de nos sentirmos inclusas na sociedade. Mas não somos. Apesar das nossas tentativas de se enquadrar no padrão hegemônico de mulher, nossa mulheridade ainda é constantemente negada, e assim, a busca pela aceitação social de uma mulher transexual ou travesti é uma jornada sem final feliz.

O momento mais libertador da minha transição foi perceber que eu jamais seria de fato respeitada enquanto mulher. Eu dedicava boa parte do meu tempo, meu dinheiro e minha energia para ter o cabelo, a maquiagem e as roupas das mulheres que eu via na TV, na esperança de ter meu gênero reconhecido. Ainda assim, a transmisoginia permeava minha rotina, porque eu jamais seria como essas mulheres da TV porque eu sou travesti.

Mas tudo bem, porque meus exemplos de mulher também não são como as mulheres da TV. Minha mãe, minhas professoras, minhas amigas, as garçonetes, as dentistas e as caixas nos mercados – algumas são gordas, outras têm cabelo crespo. São baixas demais ou altas demais, ou então passam maquiagem demais. Muitas delas têm seus corpos enfeitados com estrias e celulites, rugas ou uma verruga na ponta do nariz. Outras até se parecem com as mulheres da TV e cansam de ouvir que são bonitas, mas também cansam de ouvir que comem carboidrato demais, que suas roupas não estão na moda, ou que não deveriam amamentar seus filhos. Conheço muitas que estão solteiras nos seus vinte e tantos, outras que estão nos seus trinta e tantos e ainda não têm filhos, e até algumas que são virgens nos seus quarenta e tantos.

E tenho certeza que todos conhecem mulheres assim. Mulheres fortes, mas, ainda assim, mulheres vulneráveis. Mulheres plurais, que são excluídas por causa da sua pluralidade. Mulheres comuns, mulheres reais. Mulheres de verdade. Mulheres como eu, como você, e como qualquer travesti ou transexual. E como as mulheres da TV também, por que não.

Aria Rita
  • Colaboradora de Música

Travesti e feminista. Tem 19 anos, é gaúcha, mas de coração é brasiliense. Cursa Licenciatura em Música pela UnB. Aquarianíssima. Gosta muito mais de gatos e de comida do que de homem. Apaixonada pela cor vermelha e por flores. Costumava ser uma mocinha mansa e simpática, mas os hormônios e o feminismo a transformaram num animal selvagem (sim, ela morde).

  • Maria

    Te amo, ariel <3

  • Jolê

    Muito pertinente sua observação sobre a mulheridade da mulher trans ser colocada em cheque por não cumprir o papel primitivo de “servir para o sexo”. Já vi em discussões homens cis afirmando com toda certeza do mundo que gênero é biologico, lembrando apenas da existência das mulheres trans. Quando mostraram-lhe a foto de um homem trans a primeira reação desses caras foi “Essa porra pra mim é homem, credo.” Por quê? Porque pra eles um homem trans também não serve pra sexo.
    As poucas vezes (fora do meio lgbt) que mulheres trans são validadas como mulheres, sempre parece haver a necessidade de falar/ressaltar que ela é “transavel”.É trágico perceber como toda discussão sobre o quão valido é a identidade de uma pessoa trans acabe girando em torno de sexo.

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