28 de janeiro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Somos todos poeira das estrelas

Tem muitas coisas sobre o surgimento do universo que me deixam embasbacada. O fato de ter sido originado de uma explosão, de estar em constante expansão, da gente ser tão pequenininho em relação a tudo que existe nele, da maior parte ser composta de espaço vazio. Agora, sem dúvida, o que eu acho mais legal é o fato de que nós (sim, nós, seres humanos) somos formados por elementos que foram formados nas estrelas.

No universo primitivo – naquele em que quase nada que a gente conhece existia –, só havia o hidrogênio, o hélio e o lítio. Todos os demais elementos que existem hoje (aquele montão que você vê na tabela periódica), foram formados dentro das estrelas, onde os núcleos dos átomos, a bolinha maciça no meio daquela loucura de elétrons girando, que são mais leves, se unem, e formam núcleos mais pesados, gerando assim os elementos mais pesados. Aliás, é essa reação que acontece entre os núcleos que faz com que as estrelas brilhem lá no céu.

Bom, daí que essas estrelas vão gerando elementos que compõem nosso corpo e tudo que nos cerca: o ferro dos nossos móveis, o carbono que compõe tudo que a gente come, o oxigênio que respiramos, e todo o resto. Por muito tempo na minha vida eu soube que as estrelas produziam essas coisas, mas eu não tinha ideia de que tudo isso saísse delas e chegasse até nós. Foi pesquisando sobre o assunto que eu descobri a parte mais legal dessa história toda: os elementos saem das estrelas quando elas explodem, e essas explosões são chamadas de supernovas. Além de mais legal, é também o conceito mais bonito.

Supernova de Kepler. fonte: NASA

Supernova de Kepler. fonte: NASA

Esses elementos que as supernovas liberam vão compor novos sistemas estelares, e se misturam ao gás e à poeira existentes nas galáxias. Todos os átomos que estão no nosso corpo neste momento, exceto pelo hidrogênio e uma parte do hélio, vieram de estrelas que morreram antes que o próprio sistema solar existisse.

Lawrence M. Krauss, físico teórico, já explicou muito bem tudo o que eu falei aqui. Diz ele em seu livro A Universe from Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing:

Todos os átomos no seu corpo vieram de uma estrela que explodiu. Os átomos da sua mão esquerda provavelmente vieram de uma estrela diferente dos átomos da mão direita. Isso é a coisa mais poética de que tenho conhecimento sobre Física: nós somos todos poeira das estrelas. Você não poderia estar aqui se elas não tivessem explodido, porque os elementos – o carbono, o nitrogênio, o oxigênio, o ferro, tudo o que importa para a evolução e para a vida – não estavam lá desde o início dos tempos. Eles foram criados nas usinas nucleares das estrelas, e eles só podem estar no seu corpo porque elas foram gentis o bastante para explodirem.” 

(Tradução livre)

Resquícios da Supernova W49B. Fonte: NASA

Resquícios da Supernova W49B. Fonte: NASA

Quem também já falou sobre isso foi o Neil deGrasse Tyson, que apresenta a nova série Cosmos, nesse vídeo lindo que me fez chorar. Algumas vezes.

Ok, toda vez que eu assisto.

O Neil fala sobre isso melhor do que qualquer um porque consegue enxergar a poesia nisso tudo. Foi ele também quem disse, em algum episódio de Cosmos, que “nós somos um meio do universo conhecer a si mesmo”, parafraseando Carl Sagan. Essa frase ficou na minha cabeça por muito tempo, e eu interpreto ela da seguinte forma: quando aprendemos sobre o universo, aprendemos sobre nós mesmos, porque compreendemos sobre algo que constituímos, e sobre algo que nos constitui.

Pensando assim, a gente vê que olhar para um céu estrelado é observar explosões que estão formando os mesmos elementos que compõem tudo o que nos cerca. E eu não consigo achar nada no mundo mais bonito do que isso.

Ilustração: Clara Browne

Ilustração: Clara Browne

Na sequência, dois poemas de meninas da Capitolina, a Helena e a Clara, sobre este assunto:

Há muito que se é difundido: Somos
poeira do universo. Nos primórdios
dos tempos surgimos como átomos
da explosão que deu início a tudo.

Admito: Nunca averiguei a teoria; não
importa; quando deito em terra, jogo-me
ao mar, olho o céu, eu sei, eu sinto
não a pequenez humana, mas a força

da vastidão do espaço, da grandeza de ser
poeira estrelar, fonte primordial de espaço.
Cá estamos, junto a tudo, ligados
por um fato: Somos faíscas do universo.

-Clara Browne

Que um dia eu não esteja
Mais entre as poeiras das estrelas.

Mulheres nascem e morrem
Mais morrem, a todo instante,
A culpa na conta dos homens.

Que um dia eu cerre os cílios
Feche o ciclo
Da menina que nasci
Das bonecas de recusei
Que um dia as coisas todas
Possam ser aproveitadas
Sem o medo da noite
O medo da sombra
O susto nos becos.

Todo mundo vai embora
Se transforma em imagem única
Daquelas que vem na cabeça
E choram os olhos.
Todo mundo vai embora
Virar memória.
Se todos vão,
Por que não eu?

E quando for,
Já abusada a velhice
O reuso das velas de bolo,
Que não seja morrer
Por ser mulher.
Que morra por morrer,
Como José, João,
Adolfino.

A gente vive para ir embora
Mas de maneira decente, por favor.

– Helena Zelic

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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  • Lorena Dutra

    Que lindo post esse seu Natália.A gente podia trocar idéias.

  • Manoel Santos

    E eu que pensava tão pequeno! Achava que de um punhado de barro havia surgido o homem. Então, depois de ler e assistir muitos videos (confesso que alguns até me deixaram muito assustado), “caí na real”. Virei ateu. Ou melhor, voltei a ser ateu, meus parentes e amigos que me perdoem. É que eu entendi, da forma mais bonita possível, que alguns mistérios existem, quando há preguiça para pensar, estudar e compreender o que nos cerca. Eu sou poeira das estrela. Sempre fui e nunca deixarei de ser, para o desespero dos teístas.

  • rosa maria ribeiro

    DA POEIRA VIEMOS E À POEIRA VOLTAREMOS

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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