26 de maio de 2014 | Ano 1, Edição #2 | Texto: | Ilustração:
Sonhos x Realidade
Ilustração: Mariana Trigo.
Ilustração: Mariana Trigo.

Ilustração: Mariana Trigo.

O maior sonho dela era casar. Ter uma casa, um marido e dois filhos, com nomes que até já tinha escolhido. Já o sonho de sua amiga era fazer um mestrado. Sem desistir, fez muitas provas para diversos temas, já que sua vontade era ser mestra, não importava de quê. O sonho da sua irmã era ter um simples sketchbook. Sim, daqueles que não tem pauta. Sempre achou muito caro e toda vez que pegava um caderno com a capa rasgada e com uma imagem de um skatista, sonhava com o dia em que escreveria algo naquele caderno que estava na papelaria esperando-a.

Sonhos são sonhos, não importa o tamanho. E nunca são únicos. A menina que quer casar também sonha em se formar em Geografia e ser professora. A amiga que quer o mestrado deseja morar fora do país. E a irmã quer ser tornar uma importante artista plástica. Um sonho não anula o outro. E nunca é pequeno. Para alguém que tem dinheiro o sonho de ter um caderno sem pauta pode parecer idiota. Já para a menina que não tem, parece impossível.

E quando o sonho finalmente vira realidade? No filme Batman – Cavaleiro das Trevas (2007), há uma frase do Coringa dita para o Harvey que ilustra muito bem quando conseguimos algo que sempre desejamos: “Eu sou um cachorro perseguindo carros. Não saberia o que fazer caso alcançasse um.”

É assim que nos sentimos, a princípio, quando conquistamos algo. O que sempre imaginávamos fica palpável. Não sabemos o que fazer. Aquela pergunta “e agora?” povoa nossa cabeça. Primeiro, ficamos empolgados, o esforço de estudar bastante, perder finais de semana, festas, se estressar mais que o normal fez valer a pena para passar na faculdade, por exemplo. Mas você faz a matrícula e consegue e… E aí? Somos cachorros perseguindo carros sem saber o que fazer quando o carro para. Ninguém nos ensina isso. Até porque nos ensinam o contrário, que nossos sonhos são impossíveis.

Quando falo na terceira pessoa do plural, veja bem, não me refiro aos nossos pais e amigos. Refiro-me a coisas em geral. A escola, o trabalho, a sociedade, as condições. Você já se perguntou se aquele menino que está dormindo na rua tem alguma aspiração? Claro que ele tem e normalmente não é um sonho impossível (querer uma casa, amor, ser jogador de futebol ou apenas uma comida para passar bem o dia). Mas algo (que pode ser interpretado como sociedade, governo, família) impede que seja realizado. Algo muito maior do que físico diz a este menino que não será alguém na vida.

Um efeito parecido ocorre com a gente, mesmo que em outro nível. Até falamos para pessoas próximas nossos sonhos, mas às vezes coisas acontecem para que ele demore ou simplesmente não vingue. A jovem que quer casar ainda não encontrou alguém que quisesse tanto isso como (ou com) ela. Para a amiga que tenta o mestrado, nunca passou nas provas e mesmo que achasse que tivesse ido muito bem, sua nota era sempre insuficiente. E sua irmã nunca conseguiu juntar dinheiro para comprar o caderno por ter contas a pagar. Viu, não é alguém especifico que diz a nenhuma dessas meninas não vai conseguir o que sempre desejaram. É a simples realidade.

Quando sonhamos costumamos sempre idealizar tudo de bom. Mas a realidade é outra. Para a menina que vai casar, apenas pensa o quão feliz vai ser sua festa de casamento, o parto e quantas fotos dos filhos vão parar no Instagram. Porém, ela nem se dá conta de que haverá brigas, de que o parto pode ser um momento difícil e como filho dá trabalho. Mas se pararmos para ser só realistas acabaríamos por sonhar menos.

A realidade não é fácil. Tanto para o menino que quer ser um jogador de futebol, porém mora na rua tanto quanto para aquela pensar em casar. O sonho é lúdico. E no lúdico não existe mau ou bom. Na nossa cabeça os limites do que faz ou não sentido podem ser. Para citar outro filme, em uma determinada cena de Frozen, o boneco de neve (Olavo) canta uma música de como seria feliz com o verão. No seu sonho, o calor do sol não o derrete. Na realidade, ele não duraria nem cinco minutos.

Quando o sonho vira realidade os problemas que não estavam planejados aparecem. E acontece o desânimo. E quem não teria este tipo de sentimento? Ninguém nos avisou que haveria problemas. Até porque quando avisa normalmente desistimos. Apenas quando queremos muito aquilo.

Uma garota sempre quis ser jornalista. Certa vez, num ônibus, conversando com uma moça que estava nesse curso, ela conta sobre sua realidade. Que não é uma profissão fácil, que nem sempre dá dinheiro e é muito difícil de passar para a faculdade. A menina de 16 anos cheia de sonhos e expectativas imediatamente se desanima. E seu sonho, que até não era tão forte assim, acaba sendo substituído por outro. A realidade dita por alguém é confundida por desincentivo. Porque os desejos nos tiram desta realidade cruel. E quando alguém nos diz a verdade, se não formos fortes no que pensamos, acabamos desistindo e podemos ser pessoas decepcionadas a vida inteira.

Um homem sempre quis ser jornalista. Seu objetivo era ser comentarista esportivo. Mas seu pai, com uma dose de realidade, o convenceu a ser economista. Claro, economista ganha mais dinheiro que jornalista. Comentarista esportivo é uma profissão de risco, economista não. Todo banco precisa de um economista, só os domingos e as quartas-feiras precisam de um comentarista esportivo. Então o fez. A contragosto, porque nunca gostou de estar naquela faculdade. Concluiu, trabalhou em banco a vida inteira e assim se tornou alguém triste. E hoje, com 60-e-tantos anos escreve livros sobre times pequenos.

Não é sempre que alguém consegue chegar lá no seu objetivo. A realidade realmente é dura. Quantas meninas não precisaram largar os estudos depois de engravidarem? Ou quantas pessoas não precisaram sair da escola porque precisavam sustentar a casa? E os sonhos? Estão lá. Mas é impossível no momento. A realidade não deixa.

Como esse não é um artigo de desmotivação, voltemos aos exemplos do começo. Suponhamos que a menina que queria casar arrumou alguém bacana e fez a festa que sempre quis. A a amiga, depois de muito tentar, de todo mundo dizer que não começará o mestrado este semestre. E a irmã finalmente tem seu sketchbook. Não foi fácil para elas conquistarem o que tanto quiseram. Passaram por poucas e boas. A realidade caiu no colo delas dizendo que não daria certo. As três queriam desistir. É muito mais fácil desistir do que tentar. Mas as três perseveraram. Assim como os salmões que tem que nadar contra a corrente para conseguir desovar. E conseguiram. Passaram pelo período “e aí?” e por um momento ficaram confusas sobre o que fazer depois. E agora as três possuem novos sonhos, novos objetivos e, o melhor de tudo, estão vivendo seus antigos sonhos realizados.

Não desistam dos seus sonhos, mesmo que estes pareçam impossíveis. É uma frase clichê porém totalmente verdadeira. Não fujam da realidade, mas também não sejam desmotivados por ela. Entendam que não vai conseguir de uma vez, vai demorar a realizar dependendo do tamanho e da distância. Mas saibam que vivemos apenas uma vez e é muito desperdício não sonhar e não tentar realizar o sonho. E quando realizar, não fiquem muito tempo confusas.
Lembrem sempre da Cássia Eller, “bobeira é não viver a realidade”.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Marina

    Texto incrível

  • Daiane

    Eu adorei o texto, acho que é bem o que eu precisava ouvir. Precisamos correr atrás dos nossos sonhos mas sempre com os pés no chão.
    Quero também elogiar a revista e todas as colaboradoras. Em meus 17 anos de vida hahaha nunca li nada dedicado a esse público que fosse tão bacana. Parabéns meninas, já foi para o topo da minha lista de sites preferidos <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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